Sobre a sublimação1
Jean-Jacques Tyszler - 24/10/1993

Lacan nos propõe, nos capítulos de março, abril e maio de 1969, do seminário "D'un Autre à l'autre", um retorno à questão da sublimação.

Ele faz um certo número de evocações bastante cerradas, sobretudo do seminário “A ética da psicanálise”: as coordenadas freudianas relativas à pulsão e à sublimação, o lugar do amor cortês, a obra de arte.

Vou indicar os pontos que, embora retomados como eco do(s) seminário(s) anterior(es), podem trazer dificuldades, pois afinal o próprio termo sublimação, o próprio conceito, sofre uma certa inércia em sua utilização.

Digamos, de saída, que o que Lacan nos traz deveria nos impedir de confundir sublimação e fim do tratamento.

Por outro lado, é preciso refletir melhor sobre os efeitos coletivos, sociais, desse destino pulsional, pois um certo mito estético da sublimação, que aparece como a pretensa ultrapassagem das questões neuróticas, sua pacificação, sustenta uma espécie de hipnose favorável, a meu ver, a que se subestime os efeitos dramáticos na cidade da passagem de uma satisfação objetal a uma satisfação narcísica, egóica.

Tentarei também extrair, dos dois eixos clássicos – amor cortês e obra de arte – a possibilidade de uma nova posição para a sublimação, sobretudo do lado disso que ocupa, ou que desloca, pouco a pouco, a corrente ocupada por esse lugar definido como o do amor cortês.

Por onde passa socialmente a sublimação, fora da produção artística? O que é que se pode também avançar, fora do estudo das “formações reativas” tais como as vemos desenvolver por exemplo por um autor como Jones, mais do que pelo próprio Freud?

Lacan lembra os quatro elementos da pulsão: a fonte, a pressão, o objeto e o objetivo.

Ele não introduz aí nada de particularmente novo: o objeto é intercambiável, no limite é indiferente; os objetivos pulsionais são substituíveis em função de uma sintaxe, a fonte é marcada pela estrutura de borda das zonas erógenas.

É talvez à pressão, ao Drang, que seja preciso prestar alguma atenção; há em Freud uma medida (biológica) e há a exigência de uma certa dose de satisfação direta.

No capítulo de 5 de março de 1969, Lacan expõe, da maneira mais simples do mundo, a seguinte consideração: “Em nossa cultura, nossa civilização [...] o sexual é mantido num torpor sem precedentes.”

Essa noção de Drang, de pressão, está ligada à fluidez, à mobilidade dos signos e, portanto, desde o início, ao trabalho do significante como tal, mas será que a psicanálise tem a função de sustentar nossa bem generosa censura? Se nossa cultura faz com que cada um considere uma mulher como se considera um homem, teríamos simplesmente que acompanhar seus efeitos mais caricaturais?

Lacan repete freqüentemente: a psicanálise fica na porta; é também o termo que ele usa para designar a parada de Freud no que concerne à sublimação.

Lacan lembra as características da sublimação:

- desviada, quanto ao objetivo

- inibida

- idealização do objeto

- operando com a pulsão e modo de satisfação desta.

Se a sublimação se distingue do recalque, insistir unicamente na inibição quanto ao objetivo não é suficiente.

É preciso trazer luz para esse laço que eu evoquei entre o Drang, a pressão pulsional, e a mobilidade dos significantes enquanto tais.

Será que a operação consiste em desenodar apoio, significante e fixação pulsional?

Há aí uma primeira dificuldade que freqüentemente faz misturar, confundir: operação que incide sobre a fantasia e sublimação.

Não esgotemos imediatamente essa dificuldade, que me parece verdadeira:

- Vemos com o amor cortês que há efetivamente relançamento da economia do Sujeito, ao preço de um trabalho particular que coloca significante e objeto no mesmo nível, com o detalhe de que esse objeto idealizado se torna inacessível; ou então, penso na obra de arte, o objeto é descoberta (e não redescoberta). Há então produção – e não expulsão, separação (no que concerne ao objeto).

Eu diria que essa operação parece, a uma primeira aproximação, passar-se num registro vizinho, separado daquele da castração.

Zona em que o sujeito (que é também o da psicologia coletiva) pode assim talvez se acomodar numa certa normalização edipiana, mascarando ainda assim o problema do declínio do édipo.

O gozo, a coisa, o Nebenmensch

Lacan nos lembra que em Freud a dialética do prazer implica na centralidade de uma zona interditada: essa centralidade é o campo do gozo.

Há um vacúolo, esse interdito no centro que constitui o que nos é mais próximo, nos sendo exterior ao mesmo tempo: seria preciso diz ele, criar a palavra “êxtimo”.

Depois ele lembra os termos das Ding e Nebenmensch, longamente desenvolvidos na Ética.

A noção de das Ding tem a relação mais estreita com o que Freud chama de experiência do Nebenmensch, que se pode traduzir por “o próximo”.

Divisão original com aquilo que, do interior do sujeito, se acha na origem levado a um primeiro fora, com a noção desse das Ding como estranho e mesmo eventualmente hostil; em torno de das Ding o sujeito faz a prova de algo que pode servir, servir para referi-lo a seu mundo de anseios e expectativas.

É também em relação a esse Ding original que vai girar todo o movimento da representação; quanto ao movimento do desejo, sua instauração se faz pela via da interrogação sobre o que vem do Nebenmensch, tanto sobre o que é fundamentalmente perdido nessa relação, quanto o que é a parte ignorada do desejo desse Nebenmensch.

Mas é preciso dizer mais com relação ao gozo e ao Nebenmensch: se há vacúolo, se a zona é interditada, é que, e Lacan o diz assim abruptamente, é que o gozo é um mal.

Ele é um mal porque comporta o mal do próximo; o que se coloca como o verdadeiro problema do amor; é a presença dessa maldade fundamental que habita o próximo, mas a partir de então também em mim mesmo.

Lacan lembra o célebre texto do “Mal-estar na civilização”: “O homem tenta satisfazer sua necessidade de agressão às expensas de seu próximo, explorar seu trabalho sem indenização, utiliza-lo servilmente sem seu consentimento, apropriar-se de seu bem, humilha-lo, infligir-lhe sofrimentos, martiriza-lo e mata-lo...”.

Nocividade fundamental no cerne do gozo; Sade está nesse limite: ele avança aí e então o corpo do próximo se despedaça.

Como não recuar diante do amor ao próximo prescrito?

Será preciso entender a sublimação como a resposta de Freud a esse problema do gozo? A sublimação como meio de reduzir a nocividade de nossa relação com o próximo?

Não me parece.

É preciso sentir todo o peso da frase : “O próximo é a iminência intolerável do gozo, o Outro é apenas seu terreno esvaziado. O Outro é um terreno esvaziado do gozo.”

Teríamos então essa relação de antinomia: o gozo do lado da Coisa, gozo certamente primordial, mas intensamente repetido, renovado, atual; o desejo estaria do lado do Outro enquanto terreno esvaziado.

Entretanto, nesse ponto é preciso refletir sobre a frase do seminário sobre a impassibilidade do desejo, completamente reduzido às formas; há aí algo como um enigma, ou antes uma dificuldade que deve poder se refletir no ponto do grafo em S(A), ou seja, é preciso interrogar aqui a precariedade da barra.

Como situar na palavra seu desenvolvimento, seus efeitos, o que limita ou não a onipotência do Outro.

Ou, para dizer de outra maneira, o problema vem do fato de que, se o gozo é interditado, ele é também, por estrutura, o plano de apoio em que vai constituir-se e sustentar-se o desejo.

Poderíamos dizer ainda : como é que se situa a operação de restituição, de a pequeno ao campo do Outro grande, já que parece que a organização perversa do nosso mundo impele a essa restauração?

A questão essencial aqui é a abordagem, a avaliação das relações do sujeito com o Outro no real.

Lacan nos propõe como formalização as quatro estruturas topológicas: a esfera, o toro, o cross-cap e a garrafa de Klein.

Provavelmente cada estrutura topológica não deixa o mesmo lugar para a possibilidade da sublimação, mas não basta se deter no fato de que, em geral, o neurótico tem dificuldade com a sublimação.

Se, em vez do toro, a estrutura é a da garrafa de Klein, o que dizer do reviramento induzido por essa superfície? O que dizer da contigüidade, nos diferentes capítulos estudados, do tema da sublimação e do tema da perversão?

O desejo estaria do lado do Outro como terreno esvaziado... Seria preciso ainda examinar as incidências dos significantes relativos a esse Outro em nossa cultura?

Crer no Outro, os cruzados, as cruzadas, eis o que nos leva à sublimação e... à destruição via amor cortês; naturalmente há muitos cruzados modernos.

Lacan observa que o perverso “está do lado de que o Outro existe, que é um defensor da fé”.

É preciso também dar seu valor às notações clínicas: tapar o buraco, restituir, suplementar o campo do Outro;

Esse gozo do Outro deve ser aproximado, me parece, desse gozo do corpo como invólucro, como superfície da garrafa.

É à encruzilhada da hipocondria e da perversão que somos conduzidos: a proliferação dos objetos a, “a valsa dos objetos” como indica Lacan, implica, por reversão, na evocação do objeto inanimado, ideal do desejo perverso.

Nossas atualidades televisivas põem o tempo todo em relação essas duas bordas: proliferação dos objetos, grande mercado, competição, consumo e depois, bem longe, mas desmesuradamente próximo, a guerra, a fome; o corpo que meu olho envolve ou que me devora.

Sem falar das “escansões” publicitárias: tudo é posto entre parênteses, enquadrado, a marmita fechada sobre o objeto cuja produção é cuidadosamente trabalhada, paga bem caro: espuma de barbear, protetor de calcinha; circulando!

A criação cultural, sobretudo cinematográfica, tende a tornar transparentes os modos usuais da transgressão. Os temas não mudam fundamentalmente – o que sabemos do lado claudicante da vida dos casais ou das famílias – mas o que impressiona é a importância dada ao desvelamento.

Outra dimensão do reviramento: a da cumplicidade, do “certamente, você é também...”

A vertente do amor cortês

Lacan insiste muito quanto a um aspecto da sublimação: o lugar do amor cortês.

Idealização do objeto é também inacessibilidade do objeto: a mulher é isolada por trás de uma barreira (de novo a noção de limite, de não ultrapassável); o objeto se despersonaliza, se esvazia de qualquer substância, de tal modo que a tendência, nessa demanda, na poesia cortês, é de ser privado, propriamente falando, de algo de real: esse objeto, diz Lacan, enlouquecedor, esse parceiro inumano; papel de limite que, certamente, nos lembra o que dissemos antes do Nebenmensch.

Estamos aí diante de uma organização artificial do significante, que fixa a direção de uma certa ascese, dá um novo sentido na economia psíquica à conduta do volteio; volteio cuja função é fazer aparecer como tal esse domínio do vacúolo; volteio profundamente marcado pela articulação significante, pois ela contém em si mesma a possibilidade de uma tal mudança: não há novo objeto, nem reencontro com o objeto de antes, mas é na própria metonímia que reside a satisfação.

É nesse ponto que o conceito de sublimação me parece mais operante, mais interessante, pois sentimos bem que a psicanálise se sustenta aí também, nesse espaço, nessa economia do volteio na qual o que é abordado, revelado, é algo que concerne ao gozo, mas também ao desejo, desde que a própria psicanálise não aceite o deslizamento, o deslocamento operado nesse lugar do desejo: pois se Lacan insiste no amor cortês, é que ele é o reliquat de uma ordem antiga, testemunho de uma certa relação com o desejo, e o que é preciso lembrar agora é que, em nossa cidade, o que domina, nos cega, é o amor cristão; o amor cristão deslocou os lugares antigos, o desejo foi empurrado para outro lugar.

Assim, o que é preciso juntar à fórmula “o Outro como terreno esvaziado do gozo” são duas vertentes dessa questão: de um lado, possibilidade de emergência de um certo discurso, ali onde os soldados limparam o terreno; do outro lado, encontro do que eles estavam procurando, um alto grau de perversão, diz Lacan, e a destruição que se segue.

Para ser limpo, foi limpo!

Quero fazer sentir aqui toda a dificuldade desse conceito de sublimação, o fato de que ele nunca opera sozinho.

Freud, em “As relações de dependência do eu” (1923), já insistia no risco da desunião pulsional introduzida pela sublimação: “O componente erótico não tem mais, depois da sublimação, a força para manter junta a totalidade da destruição que se reunia aí, e esta se torna livre como tendência à agressão e à destruição.”

A outra vertente da sublimação em Freud é a obra de arte: a satisfação da pulsão numa produção. Freud insiste no aspecto mercantil da coisa, já que se trata da possibilidade de tornar comerciais os seus desejos.

Para ficar no fio precedente, direi simplesmente que o culto do belo, o estetismo, se acomoda na história, sem dificuldade, com a crueldade mais programada.

Na Ética, Lacan apontava talvez mais a dimensão do objeto criado como significante: a mulher como ser de significantes.

Este seminário insiste mais na irredutibilidade do real da pulsão e na topologia do vacúolo, e conseqüentemente é a questão da fantasia, do S◊a, que fornece o horizonte para os problemas da sublimação e, mais geralmente, do tratamento.

A fórmula de inclusão (“o objeto fricciona das Ding pelo interior”) substitui a função de cobertura, de recobrimento.

Na Ética, Lacan no entanto terminava com uma metonímia muito particular: falando da sublimação como criação significante: comer o livro.

Ele já dizia que o desejo não se achava aí de modo algum liberado, mas, mais sutilmente do que nos períodos precedentes, recalcado na pulsão mais cega, a do saber, e ele visava aí o livro da ciência ocidental.

Creio ter insistido bastante: a sublimação deve ser considerada sem idealização. Ela encontra seu limite em sua própria economia e, por certas bordas, nos desvia de uma justa avaliação do momento do Sujeito, tanto individual quanto coletivo, porque é o mesmo.

Seu lugar em cada estrutura me parece ainda a estabelecer.

Gostaria de terminar, já que é o que Lacan nos propõe, tentando acrescentar à sublimação um vetor possível bastante novo em sua extensão ao corpo social.

Quero falar do “todo-humanitário”, ingerência humanitária, medicina humanitária, direito humanitário...

Esse “todo humanitário” é, na queda dos ideais, o valor que cresce e ocupa o campo.

- Em primeiro lugar é um tema recorrente para muitos de nós, à nossa volta, mas quero dizer inclusive na busca do que faria, por exemplo, ponto de ato num tratamento.

- É um tema fantasticamente mediatizado e, conseqüentemente, glorificado, refratário a qualquer crítica.

- É um tema heróico (um dos últimos heroísmos nobres); o que não deixa de nos lembrar nossos cruzados, ou antes os Monges cavaleiros (da ordem de São João do hospital na Terra santa), mas também, na mesma época, o leprosário de S. Francisco de Assis.

Não se trata de condenar, nem mesmo de frear iniciativas necessárias, mas simplesmente de ressaltar a valsa dos objetos, como indica Lacan, já que somos permanentemente chamados, nesse limite: aquele em que efetivamente, diante de nossos olhos, nas telas, o corpo do próximo se desmantela.

O que nos traz de volta à questão do declínio do édipo, pois há em Lacan uma insistência na distinção que se deve operar entre a encenação heróica do édipo e o que há de estrutural por trás: o nó de gozo na origem de todo saber.

Explicito um pouco esse atalho: o humanitário é em primeiro lugar um campo que nos reconduz ao corpo, mas passamos à imagem dos corpos, imagem(s) que força(m) automaticamente nosso Imaginário: somos convocados ao lugar dessa “coisa”: campo, canteiro, ruínas, etc.

Naturalmente, há nesse apelo uma certa polaridade do Outro, do Outro grande, pois um valor, um preço moral é atribuído a nossas marcas de indignação, de compaixão, de solidariedade.

Mas nunca podemos ficar quites: a permanência das imagens, suas repetições incessantes, seu circuito desenfreado de um ponto a outro do planeta, parecem dever manter o olho nos objetos macabros. A imagem deve ser sustentada; eu quase diria de uma maneira que cria “dependência”.

A dificuldade é que tudo isso toma sua importância em nome da moral, da ética: você, que está adormecido em seu conforto repugnante, você deve saber! Aliás, estaríamos diante de um certo cruzamento dos discursos?

A ética médica serve de entroncamento, de passagem para discursos cuja autonomia não está assegurada; discurso analítico inclusive.

Que lugar dar ao que é agora nomeado “desejo de humanitário”?

Podemos dizer simplesmente que ele é o resultado desse deslizamento que evoquei antes, esse deslocamento do amor cortês, tal como Lacan o posiciona, na direção do amor cristão?

Muitos exemplos, muitas denegações podem dar crédito a essa proposição.

A tendência é entretanto que se desligue o humanitário de seu tecido de Caridade.

O engajamento se politizou, no sentido da crítica social e institucional, ele teria de algum modo se laicizado.

O “desejo de humanitário” é uma resposta no oco, no vazio deixado pelo deslizamento do discurso amoroso.

Eu lembrava que a sublimação nunca opera sozinha, e a emergência de um novo discurso deve ser examinada em função de suas relações com as outras vicissitudes do amor e do bem; direito do solo – direito do sangue, imigração zero, higienismo, etc.

A esse respeito, se a idéia naturalmente não é nova, a consagração de uma palavra nova, de um significante novo, o “humanitário”, deve nos fazer refletir sobre a dificuldade de assumir, de assegurar a consistência de nosso próprio discurso.

A laicização do discurso humanitário tem seu limite de estrutura: se somos os “uns a mais” que devemos velar pela saúde de todo o planeta, há grande chance de que a aposta numa nova aliança com o Pai seja vencedora. (Podemos às vezes apreciar os excessos do grande porrete quando povos desgarrados recusam obstinadamente a festa fálica estandartizada).

Lacan tentou, eu creio, promover uma posição quanto aos discursos que nos permitiria tratar menos religiosamente nossas pretensas exceções.

Infelizmente, não temos os índices sensíveis da incidência dessa trilha em nossa cidade.

Não adianta nada criticar o Todo humanitário. É preciso compreender por que é que sua ética marca tão profundamente nosso próprio campo, pois, se a psicanálise fica na porta, ela refluirá para o discurso que substancia.



1 http://www.freud-lacan.com/articles/article.php?url_article=jjtyszler241093
Tradução: Sergio Rezende.