A clínica da psicose: Lacan e a psiquiatria

A coleção A clínica da psicose: Lacan e a psiquiatria traz para o leitor brasileiro um conjunto de textos inéditos em português, representativos do trabalho psicanalítico com a psicose realizado em alguns serviços e instituições da França, tendo como referência o ensino de Lacan e seu desdobramento por Marcel Czermak no âmbito do Hospital de Sainte-Anne, em Paris. Leia abaixo o pequeno texto de Marcel Czermak sobre a coleção, que, a convite do Tempo Freudiano, é dirigida e organizada por ele:

 

Como se ensina a psicanálise hoje em dia? É sempre difícil ter uma ideia do que estamos fazendo, pois só o medimos a posteriori. Se retomarmos a questão, que está aqui alinhavada, “o que é um fato clínico?”, isso não é nada evidente.

No que me concerne, há uma coisa que é bem sensível. Pediram-me para participar dessa coleção que colegas brasileiros e franceses prepararam. Estes quatro volumes são uma recapitulação de trabalhos espalhados durante mais ou menos vinte anos, feitos por diferentes colegas. Textos que estavam dispersos, publicados a torto e a direito, e que foram agrupados de uma forma antológica e didática que não tem equivalente na França. O que podemos notar lendo estes trabalhos? Primeiro, que não são uma acumulação de saber. Nunca um ensino foi uma acumulação de pratos! Segundo, que esses colegas, sem ficar pedindo a opinião do vizinho, acharam coisas que caem no mesmo lugar – o que secundariza completamente a cor pessoal de cada um. Estes volumes têm então o mérito de mostrar que a clínica, isso não se constrói sozinho. Pois, se no discurso que nos é comum, ao qual seria preciso se submeter, se está sozinho, não se constrói nada.

Existe quem imagine que os fatos clínicos saem completamente armados de nossa cabeça e que teríamos apenas que inscrevê-los – atividade auto-erótica e completamente contraditória com o que é um fato clínico. Porque um fato clínico não se determina em função do que convém ou não. Um fato clínico se determina na transferência e com a resistência que vai junto. E posso dizer, depois de tantos anos, que podemos ver nestes textos reunidos o efeito tanto da transferência como da resistência, tão bem compartilhada que desaparece dos livros. Isso para mim já é um pequeno exemplo do que é o ensino da psicanálise.

Esses trabalhos, tenho que dizer ainda, são originais. Não são coisas que estão registradas em nenhuma biblioteca, ou que já nos foram ensinadas por nossos mestres, mesmo que estes nos tenham sido de um apoio decisivo. Nada disso estava escrito de maneira prévia. Parte-se de Lacan, mas há aí coisas que Lacan não trabalhou. O que indica também que um ensino de psicanálise pode (mas não é sempre o caso) nos levar a um tipo de ultrapassamento que então permite algumas descobertas.

Marcel Czermak

 

Volume 4 – A pulsão na psicose: oralidade, mania e melancoliacapapsicose4

Organizadores: Marcel Czermak e Jean-Jacques Tyszler

O quarto volume da coleção “A clínica da psicose: Lacan e a psiquiatria” aborda a mania, a melancolia, a anorexia e outras condições clínicas que dizem respeito ao estatuto da pulsão na psicose. Elas demonstram que o funcionamento do corpo e o aparelhamento do sujeito para o sexual são tributários da ordem significante. Na falta do primado fálico, em vez de o objeto lastrear, por sua subtração, as funções vitais, tem-se uma desamarração completa do circuito pulsional, que liga os órgãos às funções – o que M. Czermak chamou de desespecificação pulsional. Além dos trabalhos contemporâneos de M. Czermak, J.-J. Tyszler, Jean Bergès e outros, o volume traz textos originais de Esquirol, Kraepelin e Binswanger.

 

 

Volume 3 – O corpo na psicose: hipocondria, Cotard, transexualismo novo!capapsicose3

Organizadores: Marcel Czermak e Ângela Jesuíno

O volume aborda as condições clínicas que trazem para o primeiro plano a questão do corpo na psicose: a hipocondria como condição psicótica e conceito maior para especificar a psicose enquanto estrutura; a síndrome de Cotard como o que é da ordem do “núcleo psicótico”, na expressão de Lacan; e o transexualismo como forma que ilumina o empuxo-à-mulher e o recurso ao imaginário na psicose. São abordados desde a hipocondria do Homem dos Lobos de Freud até casos contemporâneos, de transexualismo (inclusive feminino), delírios de negação dos órgãos, síndromes de falso reconhecimento e outros. Sobressai a questão do que é o corpo para o ser falante e sua relação, não com a natureza, mas com a operação constitutiva do sujeito. Como anexos, textos originais de Cotard, Séglas, Capgras e outros.

 

Volume 2 – As paranoiascapapsicose2

Organizadores: Marcel Czermak e Louis Sciara

Os trabalhos deste volume abordam a paranoia em suas diferentes formas clínicas: como loucura racional (interpretativa) e como delírio passional (erotomania), com uma variedade de casos relatados e teorizados. E também como uma virtualidade inscrita no funcionamento da cada um, um modo de funcionamento da razão que, ao mesmo tempo que especifica a psicose como estrutura, não é estranho à racionalidade comum. Discutem-se as relações da paranoia com o laço social e a contemporaneidade, trabalham-se as noções a ela relacionadas – razão, crença, dúvida, certeza –, questões topológicas e, sobretudo, clínicas. O volume traz artigos de Charles Melman, Marcel Czermak, Louis Sciara, Bernard Vandermersch e outros, além dos textos clássicos de Sérieux e Clérambault.

 

Volume 1 – Fenômenos elementares e automatismo mentalcapapsicose1

Organizadores: Marcel Czermak e Ângela Jesuíno

O primeiro volume da coleção “A clínica da psicose: Lacan e a psiquiatria” trata do automatismo mental, fenômeno elementar da psicose isolado por Clérambault e retomado por Lacan por mostrar a dependência do sujeito ao significante sob seu aspecto mais puro, o que Lacan designa como fenômeno primeiro do qual todo o resto são reações de afeto. Condição de estrutura de todo ser falante, para além da psicose. Dois textos são mais abrangentes: o de Charles Melman sobre as relações entre psicanálise e psiquiatria, com um comentário de Lacan; e o de Marcel Czermak sobre a abordagem das diversas formas clínicas da psicose a partir da formulação de Lacan sobre o estatuto do objeto nessa estrutura. Inclui textos originais de Clérambault.

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