A História da A.L.I.

Uma entrevista com Charles Melman
Conduzida por Thierry Roth e Bénédicte Metz, em dezembro de 2014.

Fracasso da E.F.P.?
A dificuldade tem a ver com, em geral, com os próprios analistas, na medida em que sua prática os coloca forçosamente fora de prumo quanto aos valores socialmente partilhados e então a psicanálise não é, de modo algum, suposta a produzir uma promoção, nem uma vantagem nem um título. É por isso que Lacan dirá que para ser psicanalista é preciso ser um santo. Mas pior que isso, já que um santo tem ao menos o benefício ou a vantagem de fazer caridade, ao passo que, o psicanalista, ele vai déchariter[1], em outras palavras, permitir a seu analisante tomar a medida do que há a pagar para poder gozar de um saber, de seu saber.
Então, a dificuldade no fracasso da École freudienne sem dúvida teve a ver com os próprios analistas e não há nenhuma razão para não colocar em causa, certamente, a parte de Lacan. Talvez ele tenha se colocado mal, talvez ele tenha superestimado o engajamento de seus alunos, talvez ele tenha feito um exercício da transferência que possa ter sido percebido como uma forçagem, um constrangimento. Em todo caso, o que é certo é que ele tinha grandes esperanças nas consequências de seu ensino, e que a decepção que, com o passar do tempo, ele conheceu, só pôde exacerbar nele o que poderíamos chamar de seu descomedimento.
O fim da École freudienne foi inteiramente, se fez de um modo inteiramente clássico, isto é, a vontade de captação de uma herança intelectual como se ela constituísse um bem que se tratasse de explorar. Trata-se, então, de uma modalidade por assim dizer bem tradicional que opera em todas as transmissões, quer se trate de bens móveis, imóveis ou intelectuais. Então, podemos dizer um fim absolutamente clássico e que não tem muito a ver com a própria psicanálise, exceto que, evidentemente, essa modalidade de entrada para numerosos alunos na sequência no ensino de Lacan só pode lhes transmitir, eu diria, o pecado primordial, o pecado inaugural, o que faz então com que, infelizmente, não há muita esperança a ter quanto ao êxito, mesmo se ele é, se, aparentemente, eu diria, ele é impressionante, mas não há muita esperança a ter quanto ao êxito fundamental, o êxito verdadeiro, a formação autêntica que o ensino em seguida pode ter.
Agora, quanto ao que diz respeito ao servo, isto é, a esperança que foi dada a muitos, a inúmeros membros da École freudienne, de que os antigos eram capazes de se unirem para continuar o ensino de Lacan, é bem evidente que na realidade é a posição de cada um deles em relação a Lacan e a seu ensino que comandou suas divergências. Não foram histórias de precedência ou de consideração, mas foi exatamente sua atitude frente ao próprio Lacan que comandou a separação desse pequeno grupo que tinha sido recebido muito simpaticamente pelos membros da École freudienne.

Fundamentos da Association freudienne
O que comandou a formação da Association freudienne foi a ideia de que era possível edificar, construir um lugar capaz de receber aqueles que davam crédito ao ensino de Lacan. É evidente que esse crédito se confunde facilmente com a transferência, mas não a recobre forçosamente. Devemos pensar que há entre os alunos alguns para os quais o engajamento nesse ensino não é única ou essencialmente motivado por razões passionais. Então, criar um lugar onde fosse possível, vamos chamar isso, sei lá, mas, de boa vontade continuar a trabalhar, se fazer conhecer, se fazer reconhecer.
Então, o ponto de partida foi um quarteto de psiquiatras, todos vindos de Sainte Anne, onde tinham tido a oportunidade de se apreciar mutuamente pelo fato de que tinham sustentado lá posições firmes e sem compromissos, sem concessões, e foi então essa atitude que os juntou, o respeito pelo ensino de Lacan a ser defendido, mesmo se o meio fosse desfavorável, foi o que os juntou, isto é, Claude Dorgeuille, Jean Bergès, Marcel Czermak e eu, que fizeram a atual, que fizeram a Association freudienne e hoje então nossa Association lacanienne.
Sim, eu alertei contra os laços de amizade, eu diria porque a constituição de bandos, mesmo reunidos pela amizade, são pouco favoráveis para tratar o que é específico na psicanálise. Quero dizer que é evidente que o psicanalista sofre, eu diria, de uma falta de sustentação no seu narcisismo, e que a constituição de um bando, a partir do momento em que ele é suposto poder remediar essa insuficiência, tem efeitos de conforto narcísico que só podem mascarar a dificuldade, até mesmo pervertê-la.
Para grande contrariedade de seus alunos, Lacan, aliás, sempre desconfiou da constituição de bandos em sua Escola, o que ele aliás não conseguiu impedir. Com Freud foi a mesma coisa. A história em torno de Lacan é estritamente idêntica àquela que ocorreu em torno de Freud: absolutamente as mesmas situações. Temos quase a impressão, poderíamos quase dizer que são as mesmas pessoas, os mesmos argumentos, os mesmos tipos de vindita, de denúncia, de recusa, estritamente idênticas, é bastante impressionante como repetição. Isso mostra bem que o que opera não depende das pessoas, mas de bandos, de efeitos de estrutura enquanto não analisados.
É certo que eu tive mais tendência a fazer apelo ao que seria o engajamento racional dos membros da Association, mais do que a fazer apelo a sua reação transferencial. Isso é claro. Talvez os efeitos sejam melhores, mas eu devo dizer que a prevalência da razão em cada um não é de modo algum psicanalítica. Normalmente, psicanálise é antes crédito às forças do inconsciente do que, eu diria, à racionalidade. No entanto, foi o que eu joguei e, depois, veremos…

Uma associação, mais que uma escola
Sim, é uma associação, na medida em que uma escola se coloca com a reunião em torno de um ensino, e não me pareceu que eu estivesse em condições de trazer, em relação àquele de Lacan, um ensino que seria original e novo em relação ao dele. Parece mais legítimo visar uma associação, isto é, a reunião de pessoas que se reconheciam pelo investimento que faziam no ensino de Lacan, dada a condição de que eu desempenhasse um papel de, sei lá, de coordenador, até mesmo de mais velho pura e simplesmente, o que era mesmo o meu caso, eu sou de qualquer modo o mais velho nessa situação. Então, mais esse papel do que aquele de ‘Maître d’École’, que Lacan era.
O nome Escola, que ele deu a seu grupo, era perfeitamente original, nunca tinha sido utilizado antes, eram sempre apenas sociedades psicanalíticas. Eu também não quis o termo sociedade no que nos concerne, pois o funcionamento social nós sabemos que ele é corrompido de antemão. Talvez uma associação, como houve associações de trabalhadores, até mesmo associações internacionais de trabalhadores, se bem que seu resultado também não tenha sido evidente, mas talvez fosse um melhor dispositivo.
Posso dizer que meu ensino foi, não uma paráfrase do de Lacan, não é verdade, mas foi um conjunto, eu diria, de excursões alimentadas pelo ensino de Lacan. Não são reditos, não são repetições, não se trata de plágio, é a continuação de um trabalho que se desenvolve a partir de seu ensino. Agora, que houve um papel agregador durante o tempo em que eu o fiz, isto é, de todo modo durante mais de 20 anos, isso é certo, é certo e eu penso que não teve um papel desfavorável: hoje seus seminários estão publicados ou sendo publicados, parece que há interesse neles.

2002: apelo aos militantes
Pareceu-me sobretudo que, depois de 20 anos de seminário, era tempo que os membros da Association tomassem sua responsabilidade na direção de sua casa, que eles a assumissem, e que então pudesse se precisar melhor o fato de que, para um analista, o lugar da mestria é um lugar vazio. E, então, o que lhes foi proposto foi verificar se isso era compatível com o ponto em que cada um deles estava, se ele tinha aceitado que o lugar da mestria não seja sustentado por um ensino explícito, ou até mesmo por essa ou aquela pessoa, e que se encarregassem de modo plenamente responsável da direção de sua casa, pois ela é deles. Então, a questão é o futuro deles. Então, tratava-se de saber se estavam decididos a prosseguir e desenvolver esse futuro.
É por isso que eu me pus de lado. E, se eu escrevi O homem sem gravidade, foi sem dúvida também para testemunhar que era possível interessar o meio social por dados que habitualmente ele recusa, que ele refuta e, em particular, os do ensino de Lacan. E, por esse lado, foi bem um sucesso.
Eu creio que o que é sensível é que não há mais militantes, ou seja, a causa freudiana quase não suscita mais vocações. Não há mais militantes em geral, não somente entre nós. O único problema é que podemos pensar que entre nós a causa vale a pena, ao passo que ela é em geral desacreditada no campo político, no campo religioso e no campo moral, no campo filosófico. Podemos pensar que entre nós ela vale a pena. No entanto, estamos manifestamente em falta de militantes. É isso, os militantes precedentes se perderam, isso é claro, e os de hoje não se perdem porque se fazem notar por sua discrição.
Na época de Lacan, eu estava o tempo todo na estrada com um bastão peregrino, eu não reclamei. Então, tratava-se, sem dúvida, da afeição por ele, mas também com uma série de sentimentos de que eu ia assim pregar no campo, valia a pena, valia a pena e tinha consequências. Sim, consequências para tentar nos defender contra a barbárie. É isso, a barbárie é clínica, a barbárie, nem que seja confiando na etimologia, quer dizer que são as falas que não provêm de um discurso. O bárbaro é aquele que não passa pelo discurso para se fazer entender, passa pela força, às vezes talvez pela sedução ou pela manipulação, o que chamamos de marketing: é o bárbaro. Então, é preciso saber se consideramos que é agradável viver na barbárie, e certamente consideramos que valeria mais que as leis da palavra sejam respeitadas.

A A.L.I. e os outros
Nós tentamos, num determinado momento, convidar delegados de diversos grupos daqui do ensino de Lacan para virem participar conosco de colóquios que seriam especialmente dedicados a eles, dedicados a uma questão comum. E então viríamos debater juntos, com a ideia, então, de que, se todo mundo se referia a um mesmo ensino, aqui é o mesmo problema das religiões do monoteísmo, se todas provêm do mesmo texto, por que é que elas não acabariam por poder se entender?
Então, nós tentamos, inclusive com a escola de Miller. Os resultados foram decepcionantes porque os convidados que nós recebemos se colocavam claramente sob o signo da desconfiança e da preocupação em desarmar a manobra, sei lá qual. Em todo caso era, isto é, mais que uma colaboração sobre o assunto proposto, foram atitudes políticas que se exprimiram. E depois, por outro lado também, eu devo dizer, carências na interpretação do ensino de Lacan ou divergências que às vezes pareciam surpreendentes.
Então, com as associações certamente não há esperança, e não é por acaso que elas se separaram. Elas finalmente são organizadas em torno de princípios que, mesmo se eles não são claramente formulados, são bem reais no tratamento do ensino de Lacan. Nós somos os únicos a estudar a cada ano um seminário, somos os únicos. Somos também, há um grupo que se chama École lacanienne, mas a nomeação em geral nunca é explícita. Em contrapartida, há alguns que vêm dos diversos grupos, analistas, que, mais particularmente, estão perfeitamente em condições de trabalhar conosco, e é provável que um certo número virá, porque eles percebem bem que, depois de 30 anos, agora faz 30 anos que a École freudienne foi dissolvida, há efeitos de usura e de transmissão entre gerações que não se dão. Então há alguns que virão conosco, isso é certo.
O futuro da psicanálise, eu não sou profeta, posso dizer simplesmente que com muitos missionários eu fiz o meu melhor, eu não sou o único, há outros, como vocês mesmos, que participaram disso. O futuro da psicanálise, e o temor, se não tivesse havido Lacan ela já teria sido varrida.
Eu olhava, agora há pouco, um número do Magazine littéraire do mês de junho intitulado ‘As ficções da psicanálise’, que reune um certo número de escritores e também psicanalistas; é impressionante. É impressionante, é preciso mesmo dizê-lo assim, pela pobreza intelectual do que é ali proposto, e o caráter muito primário da maneira como a psicanálise é abordada e apresentada. Então eu aconselho, se vocês quiserem ter ideia do futuro da psicanálise, a ler esse número do Magazine littéraire, mês de junho de 2014, ‘As ficções da psicanálise’.
Se fossem apenas os escrevinhadores e escrevinhadoras, tudo bem, mas há também alguns psicanalistas ali que tomam a pluma. Temos a impressão de que a preocupação de não sair do conforto da massa tem primazia sobre o resto.
Ora, isso dito, como vocês sabem, nós continuamos, no que concerne a nossa Association, com a criação do comitê de Freud para que ele seja inscrito no patrimônio da memória da humanidade pela Unesco, o que nós fazemos com a École pratique para que estudantes completamente perdidos em psicologia, em psicopatologia e em psiquiatria possam ter um lugar onde há um ensino para eles. Nós o fazemos, e eu posso lhes dizer, já que você trabalha na École pratique, você também, Bénédicte, talvez?, não?, pois bem, eu posso lhes dizer que esses estudantes, que vêm de horizontes e de meios extremamente diversos, e com formações extremamente diversas, heteróclitas, pois bem, quando eles nos dizem adeus, eles agradecem a seus professores. E agradecem calorosamente, o que hoje na universidade não é o mais frequente. Então, é de qualquer maneira um índice de alguma coisa, estudantes que chegaram lá por acaso, enviados muitas vezes por organismos para virem fazer um curso apropriado para diplomá-los, portanto vindos com seus interesses práticos, comuns, eles também não são militantes. Pois bem, o que eles ouvem lá, entre nós, manifestamente isso conta para eles.
Então, isso que vocês me interrogam sobre o futuro da psicanálise, temos o sentimento de que, quando ela é proposta como convém, a estudantes, isso é apreciado.
Isto dito, nosso país, hoje, é o único na Europa em que a psicanálise está viva, não digo apenas existe, mas está viva, na Europa. Agora, ela resistiu na América Latina, mas sob formas que são evidentemente exóticas, como deve ser. Mas a França é o único país onde a psicanálise continua a existir e, evidentemente, por culpa de Lacan. Isso é claro. Portanto, ele é o culpado, por enquanto.

[1]N.T. Neologismo usado por Lacan em Télévision, a partir da junção de déchet (dejeto) e charité (caridade). Na edição brasileira (Zahar) da transcrição foi traduzido por ‘fazer descaridade’, tradução em que se perde totalmente a origem do neologismo.

Transcrição da tradução: Sergio Rezende, com a colaboração de Luiza Ribeiro, Cláudia Malvezzi e Fernanda Oliveira.

Vídeo original: https://www.youtube.com/watch?v=7z566VV05Eo

Print Friendly, PDF & Email