A operação do significante: o nome, a imagem, o objeto – Apresentação

Estamos sempre muito seguros quanto à estabilidade de nossas percepções e de nossa realidade. E, sem grandes erros, chegamos a nomear tudo o que aparece em nosso campo perceptivo. Nem de longe imaginamos que se trata aí de uma operação bem complexa cuja aparente espontaneidade supõe, na verdade, uma certa nodulação que depende do significante.

A experiência clínica mostra, aliás, que essa montagem pode se decompor em seus vários elementos constitutivos. É assim que veremos aparecer, na psicose, quadros clínicos em que o nome, a imagem e o objeto podem perfeitamente se dissociar.

Entendemos que é do lado do reconhecimento e da identificação que devemos procurar o que está em causa. Isso nos permitirará ampliar nossa reflexão, especialmente no que concerne a esse estranho objeto que Lacan chama de objeto a e em torno do qual gira o neurótico, sem jamais poder alcançá-lo, mesmo estando sob seu comando. Tal abordagem vem, sem dúvida, lançar uma nova luz sobre a clínica das neuroses.

A escrita da fantasia Sa mostra isso claramente, desde que, é claro, se esteja atento ao modo pelo qual ela pode ser abordada pelo lado do a. Um dos grandes problemas que o neurótico encontra é que, ao invés de tentar resolver suas questões pela via de Sa, ele passa seu tempo tentando fazer isso pela via, em impasse, de i(a).

É, aliás, importante assinalar como em escala planetária é a via dessa imagem especular que é, cada vez mais, promovida.

 

Esse foi o tema, sugerido por Marcel Czermak, para o segundo encontro entre o Tempo Freudiano e a Association lacanienne internationale, que se inscreve numa história de transferência de trabalho construída ao longo dos anos. O colóquio de 2003 – A clínica psicanalítica e as novas formas do gozo – foi o primeiro na construção desse espaço comum, que tem nos permitido trabalhar juntos[1]. Os três primeiros volumes da coleção Lacan e a psiquiatria, já publicados, resultaram dessa trama de nossos interesses clínicos comuns. Esses três volumes ajudaram a preparar o Colóquio que ora apresentamos. Um colóquio eminentemente clínico, o que vem nos reiterar que – como nos diz Marcel Czermak – “não se fabrica a clínica sozinho”, porque “se estamos sozinhos, no discurso que nos é comum e ao qual é preciso se submeter, nada se fabrica”. De fato, são necessários vários fios para construir esse espaço discursivo comum e para que os efeitos de transmissão entre as duas instituições sejam efetivos: deslocamentos geográficos e entre duas línguas. Tudo isso para que nesse “entre-dois desse saber” se faça ato, ato de transmissão. Como lembra Antonio Carlos Rocha, que esteve na origem da arquitetura desse percurso, ficamos sempre diante de uma clínica da transmissão para que uma transmissão da clínica possa ter a chance de se fazer.

Foi sobre a operação do significante que trabalhamos intensamente, durante um ano, em torno de textos e questões referentes à imagem, ao nome e ao objeto. Como resultado, o Colóquio. É com certa estranheza que se lê o que ali se escreveu. Estranhos nomes e imagens, estranhos objetos podemos recolher do que se passou nesses dias: barata, rato, vaca, pano de chão, cabide, mochila, anéis, prego, carvalho… pacote. Mas, para os que lá estiveram, tudo isso remete aos fios que ali se traçaram na via da construção de um trabalho da clínica. Um trabalho que se constituiu vivo e suscitou, em todos, o desejo e o compromisso de um terceiro encontro.

 

[1] O primeiro Colóquio está publicado na íntegra na Revista Tempo Freudiano nº 5: A clínica psicanalítica e as novas formas do gozo (2004).

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