A porta de entrada e a clínica psicanalítica – Apresentação

O percurso de Marcel Czermak marca a história da psicanálise e da psiquiatria, em especial no trabalho com a psicose. Aluno e colaborador direto de Lacan, era ele que organizava as apresentações de paciente que este fazia no Hospital de Sainte-Anne. Com Charles Melman, foi um dos fundadores da Association lacanienne internationale (ALI). Atualmente, dirige a École Psichanalytique de Sainte-Anne, que fundou, e onde sustenta um ensino de psicanálise em meio psiquiátrico. Desse ensino, derivam descrições clínicas e formulações conceituais que têm feito avançar questões cruciais para a psicanálise e sua transmissão nos dias de hoje.

A presença de Marcel Czermak tem, para nós do Tempo Freudiano, uma incidência direta. Os efeitos de um primeiro encontro, há exatos 15 anos, fizeram parte da própria fundação do Tempo Freudiano e se desdobraram em novos encontros e na publicação de diferentes volumes com artigos seus e de seu grupo, que representaram um balizamento clínico para a nossa prática com a psicose, ao mesmo tempo que nos trouxeram uma exigência permanente de trabalho e formação. Em 2011, estivemos com ele em Paris. Antonio Carlos Rocha, cuja ligação com Czermak é antiga, nos conduziu nesse reencontro e pôde nos apresentar um pouco das contingências e circunstâncias que os uniram em torno do ensino de Lacan, ali mesmo, dentro dos muros de Sainte-Anne. Estivemos todos no Amphithéâtre Magnan, local das apresentações de paciente de Lacan, e ficamos ali diante do imenso desafio de manter viva uma história, para que ela seja o fundamento do que fazemos.

Neste volume – o número 10 da Revista Tempo Freudiano –, reunimos um material heterogêneo, mas cujo entrelaçamento se fará sentir ao final da leitura, pela interpelação que lança ao leitor.

Nas duas entrevistas que constituem a primeira parte da Revista, Czermak fala de seu percurso na psicanálise e na psiquiatria: lembra a reação do meio psiquiátrico e psicanalítico a Lacan e trata da posição dos analistas em face da transferência e da instituição analítica; interroga ainda o que foi feito com o legado de Lacan e faz ver a necessidade de enfrentarmos as questões trazidas pela incidência das transformações atuais na prática clínica e nas instituições de tratamento.

A segunda parte é composta pelas intervenções de Marcel Czermak por ocasião do lançamento no Brasil de seu livro Patronimias – Questões da clínica lacaniana das psicoses, em 2012. Falando, em Niterói – no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba –, para um grupo reduzido de praticantes que trabalham com a psicose, e, nos dois dias seguintes, no Rio de Janeiro, para uma ampla audiência, Czermak evoca casos de sua própria prática e comenta alguns casos clínicos apresentados no evento por psicanalistas da ALI e do Tempo Freudiano.

Finalmente, a terceira parte, que fecha o volume, é o texto de uma conferência feita no Hospital de Sainte-Anne, intitulada “O que é um fato clínico?”. Sobressai aí a advertência de que o fato clínico não existe fora da presença do clínico. Ao contrário, se constitui por sua presença e é inteiramente dependente desta. Os fatos clínicos, se é o próprio clínico quem os ordena, são acima de tudo constituídos por ele. Temos, portanto, uma implicação direta nisso que se produz, “estamos sempre hipotecados pelo tipo de porta de entrada que se ofereceu” a nós. Se, no campo dos conceitos, um começo equivocado pode necessitar de muito tempo para ter seu rumo corrigido, mais decisivas ainda são as consequências da porta de entrada por onde se chega à própria psicanálise. Dada a partida, é difícil reverter as implicações de seu começo.

Assim, a questão que permeia e entrelaça as diferentes intervenções aqui reunidas é: como se ensina a psicanálise? Como se aprende a praticá-la? Como cada um pode chegar a assumir aí sua responsabilidade e seu lugar?

Não se pode pedir àquele que acabou de chegar que conheça todos os mapas que vão orientar a navegação, adverte Czermak. No entanto, é preciso assim mesmo navegar. “Barcos para não navegar”, sempre parados à espera de estarem um dia prontos, isso é algo a que se contrapõe a ética da psicanálise e de sua transmissão.

Foi assim, como um convite ao trabalho, que recebemos os textos e as intervenções de Marcel Czermak – um material que acolhemos com grande entusiasmo e que torna evidente a força de sua palavra, de seu ensino. Esta publicação repassa esse convite a cada um que se disponha a tomar esse material como ferramenta para seu próprio percurso, e queira se encontrar com a oportunidade de orientar sua prática, a partir do trabalho de alguns que não declinaram das responsabilidades inerentes à transferência e à transmissão da psicanálise.

  Fernando Tenório
Marta Macedo

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