A prática de Lacan

Charles Melman
PARIS, 16 DE NOVEMBRO DE 2003.
ANFITEATRO SAINT-GERMAIN

Creio que por ocasião dessas jornadas vocês têm a ocasião de compreender enfim quem era Lacan.

Era o provocador que permitia que a babaquice de vocês se revelasse. Ele lhes permitia ter a medida dela, o que tem por efeito seja, é claro, provocar amor, pois ele nos reconhecia verdadeiramente na intimidade de nosso ser, seja ódio – já que isso não é tão agradável ou apetitoso. Exemplo: vocês todos se acreditam bravos pequenos Édipos, corajosos e prontos para todos os extremos? Pois bem, vocês descobrem, graças a esse provocador, que o que vocês pedem ao Papai é que ele os ame, que vocês sejam o preferido. Para isso vocês estão dispostos a tudo, inclusive a se feminizar! Vocês acreditam que querem ser livres? Será demonstrado a vocês que, na realidade, o que vocês buscam, e do que gostam, é um mestre, alguém que lhes diga enfim aonde ir, como fazer, como se virar; em outras palavras, o voto de vocês é na realidade o da servidão. Você se acredita sábio, doutor? Você descobre, evidentemente graças a esse provocador, as dimensões de sua ignorância. Você crê ser um homem? Você descobre o quanto as suas certezas nessa matéria podem ser eventualmente frágeis. Você pensa ser uma mulher? Mas você descobre sua voracidade fálica.

Tudo isso é muito agradável. Muito agradável encontrar enfim alguém que, no nosso espaço, não busca a sua cura, isto é, não busca o que a cultura exige, isto é, o esquecimento, a negação, a sutura da criação – muito bom, esse lapso! –, mas que, ao contrário, essa castração, a abre para você permanentemente, indo então contra todas as regras do jogo. Pois as regras do jogo, as regras do jogo social, as regras do jogo pessoal, íntimo, privado, as regras do jogo erudito, são mesmo apagar essa castração; é isso nossa cultura. Pois bem, havia um, bizarro, que lhes dava a oportunidade de, bruscamente, descobrir todas essas qualidades que eram as de vocês e, então, se reconhecerem no âmago de si mesmos.

É certo que Lacan, com essa energia singular que era a sua, pois ele era fanático, ele era completamente arrebatado pelo campo em que tinha entrado, com a certeza de ter evidenciado, graças a essa prática tão reduzida, sucinta, que é o tratamento analítico, de ter evidenciado estruturas que se mostravam essencialmente subversivas em relação a nosso conforto e a nosso sono intelectual – com todas as conseqüências sociais que conhecemos, seja na escala nacional ou internacional. Ele tinha essa certeza. E é claro que ele queria que seus alunos, quanto a isso, fossem “militantes”. É um termo que não é mais muito corrente, ou que não vale tanto, pois quase não há militância que não tenha sido recompensada como merecia, por todas as decepções que podemos saber. Ele esperava de seus alunos que eles fossem militantes desse procedimento extraordinário que ele evidenciava assim, e que eles o apoiassem, é claro, nessa subversão que ele sustentava com uma intrepidez e uma coragem, uma solidão, absolutamente notáveis. Não podemos esquecer que Lacan operou no momento em que, em todos os nossos meios intelectuais, triunfavam o marxismo e o existencialismo, que denúncias públicas da psicanálise eram corriqueiras, banais, nessas duas correntes, nesses dois meios, e que, por outro lado, certamente, não seria a Igreja que ia sustentá-lo, mesmo que seu discurso inaugural tenha vindo de Roma (outra provocação). Foi, portanto, verdadeiramente num estado de solidão intelectual e moral, e um pouco contra todos, que ele se engajou nessa história maluca.

Então, esperando de seus alunos que eles funcionassem assim para ele, como militantes, será que ele vinha redobrar a alie-nação deles, até mesmo fixá-la de uma vez por todas? O que pude, de minha parte, verificar ao longo do caminho – não sou o único a tê-lo experimentado – foi o abandono: pelos primeiros e pelos melhores de seus alunos, alguns de quem ele mais esperava, e que, com uma argumentação que afinal nunca foi perfeitamente definida, se desligaram dele. E devo dizer-lhes que isso se prolongou o tempo todo! Eu acho, pessoalmente, que era normal. Normal porque, afinal, não se vê por que os alunos teriam automaticamente compartilhado esse tipo de vontade subversiva, com os riscos que isso podia acarretar para as diversas situações sociais que podiam legitimamente ser almejadas… Resta que, entre esses próprios alunos, se recolhe hoje facilmente uma nostalgia por tê-lo deixado, referências que são freqüentes, e o mínimo que se pode dizer é que se trata de uma transferência que certamente não foi resolvida e na qual a complexidade dos sentimentos parece predominar. Em todo caso, ao vir assim tomar para seus alunos o lugar do que seria igualmente o mestre, o ideal, o professor, o pai, ele não deixava por isso mesmo de suscitar neles a interroga-ção íntima sobre o que era a relação de cada um com essas diversas instâncias; e, afinal, ter que se decidir como bem entendesse, o que as pessoas não deixaram de fazer. Em outras palavras, posso, por exemplo, testemunhar que “o pai, afinal eu o odeio”. Certo, muito bem! E então, agora, o que é que isso lhe dá, o que é que você tem, o que é que isso abre para você? Isso o es-clarece de que maneira? Isso movimenta seu pensamento de que maneira? “O mestre, insuportável! Quero minha liberdade de pensar! Não quero que me doutrinem assim.” Muito bem! Você é inteiramente livre para pensar o que quiser. Aliás, o que é que você pensa? É interessante? Pode efetivamente não ser completamente idiota. Mas é verdadeiramente interessante? Então ele levava, assim, cada um, querendo ou não, a tomar efetivamente suas decisões, até mesmo seus atos. Muitas vezes ele lamentava que elas fossem tomadas dessa maneira. Mas de todo modo hoje é preciso constatar que, quanto aos que se engajaram assim nessa ruptura, não se pode dizer finalmente que tenham tirado dela o melhor benefício. Quanto a mim, eu estava perfeitamente atento a isso. Como é sabido, um grande número desses irmãos mais velhos, de quem gostávamos muito, em quem confiávamos, com quem eventualmente eu podia manter relações de intimidade, a quem éramos apegados, eu esperava muito ver em que é que daria a ruptura deles. Mas quando eles ficaram enfim livres, não doutrinados, será que isso trouxe ao ensino de Lacan, em algum ponto, seja uma contradição válida, seja uma contribuição interessante? Seria difícil, eu acho, notar, constatar, isso.

É certo que ele pensava que um ensino era necessário aos seus analisantes. Assim, Adnan Houbballah lembrou: por ocasião de sua supervisão, Lacan começou lhe dizendo: “no começo, serei didático”. Um ensino é necessário, nem que seja para testemunhar aquilo de nosso inconsciente que não funciona de modo algum no sentido regular. Um ensino é necessário para vir inscrever para o sujeito essa dimensão perfeitamente nova que é a do você pode saber. Pois é bem isto que a menor experiência analítica demonstra: nós não queremos saber, e o obstáculo é de estrutura: esse objeto a é aquilo que nos detém, é o que nos provoca repugnância, é o limite insuportável e intolerável. Será que vamos, verdadeiramente, nós que nos acreditamos homens ou mulheres, revelar a nós mesmos que temos, como ser, um puro objeto, um nada, um excremento, um dejeto? É isso aí que me causa? Eu me acredito o filho de Deus, e eis aí o que me causa! É isso? Confessem de qualquer modo que, em se tratando de ser subversivo, não se pode dizer que isso não era! E não apenas é isso que me causa, esse objeto, mas além disso ele me causa para nada, porque o Outro, ele se lixa completamente para isso, e o que há no Outro é o puro nada!

Houve recentemente um colóquio sobre isso com os responsáveis da IPA, para tentar justamente ver se, sobre esse ponto, podíamos nos entender. Porque, quando Lacan diz que é freudiano, ele de todo modo especifica: o pensamento de Freud é o que estipula que aquilo que organiza a relação do indivíduo com o mundo é uma perda fundamental, fundadora, essencial, organizadora, definitiva, irrecuperável, que é uma falta que organiza nossa relação com o mundo, e que origina um sujeito que no mínimo não sabe o que quer, não sabe o que faz, não sabe o que diz! É aí que ele é freudiano, fundamentalmente freudiano, e é bem isso o que ele retoma em Freud, o que o autoriza. Freud buscava obstinadamente um predecessor, ele buscava alguém, um mestre, ele não ousava se apresentar assim como fundador, é uma posição um pouco miserável. Então, ele evoca o tempo todo Breuer, seus mestres… Quanto a Lacan, ele está fundamentado ao dizer que é freudiano e que é disso que é essencial em Freud que ele se vale.

Não há motivo para prolongar isso tudo excessivamente. Eu gostaria apenas de chamar sua atenção para mais um ponto. Esta formulação de Lacan: resolução da transferência pela transferência de trabalho; pois é verdade de todo modo que o neurótico, é bem isso que o caracteriza como tal, ele não tem nenhuma vontade de largar esse objeto. Ele fica aí, pois o Outro quer assim, pelo menos é o que ele crê, é o que faria as delícias do Outro se lhe fosse dado. Então, nada de ceder uma coisa assim tão preciosa, esse agalma. Se no Outro não há ninguém, e creio que Lacan era suficientemente excessivo em relação a seus analisantes para que eles pudessem ter verdadeiramente a medida disso, se no Outro não há ninguém, seguramente a transferência de trabalho é o trabalho, a aceitação, o engajamento em, esse objeto a, fazê-lo circular, com a possibilidade de situar todas essas organizações formais que comandam o processo – eu os remeto, como de costume, à introdução dos Escritos, esse texto sobre a carta roubada: não há ali pai que exija que você ceda o que quer que seja, é o jogo do significante que faz com que haja perda, que haja furo. A partir daí, vocês têm evidentemente que tentar se organizar.

Desde meu início nesse meio, que era ainda, em 1960, o meio muito simpático e agradável da Sociedade Francesa de Psicanálise, um meio bem liberal em que, com Lacan e Dolto, se encontravam universitários entre os quais Lagache, Anzieu, Favez-Boutonnier etc., meio que eu achava bem simpático, eu pude bem rapidamente – infelizmente! – constatar que, a despeito dos engajamentos de uns e outros em relação à análise, o que acabava contando na instituição era saber se a prevalência seria dos universitários ou então de Lacan e Dolto. No final das contas era isso que estava em jogo, era assim para um jovem que chega e evidentemente podia ficar surpreso ao ver que os servidores dessa disciplina, aqueles que tinham recebido a tonsura, não deixavam de ter, no final das contas, de reduzir tudo isso aos seus pequenos desejos privados e narcísicos em particular. Então, isso foi evidentemente o primeiro choque, o primeiro aprendizado, afinal é assim que se aprende. Muito rapidamente, no que me diz respeito, meus caros colegas não deixaram de vir observar que minha militância, verdadeiramente, que isso não era sério, que eu estava completamente vendido a Lacan. Enfim vejamos! Tudo isso era meu inconsciente, eu estava ali sendo a vítima, não é mesmo?, de um tratamento que Lacan explorava em seu proveito, ele precisava de soldadinhos; tudo ia bem se ele os tivesse, e quanto ao resto que cada um se virasse! Acontece, de qualquer modo, que nesse dispositivo eu pude, como muitos, apreciar sua extraordinária honestidade intelectual, sua maneira de não ceder, sua maneira de não se comprometer, sua maneira de não trapacear, e depois essa aceitação de uma posição na qual ele recebeu todos os golpes, inclusive dos mais próximos. Mas parece que ele se segurava no que essa prática lhe permitia descobrir e que ele achava que valia a pena tentar transmitir. Eu ouvi de sua boca o lamento de que isso afinal se tenha dado pelo viés da psicanálise, isto é, com todas as escórias justamente transferenciais que isso implica, e que ele não tivesse procedido como os mestres tradicionais, isto é, pelo viés da filosofia, por exemplo, e que sua ação talvez pudesse ter sido mais pública e eficaz se ele tivesse seguido esse viés. Difícil, é claro, responder…

Para concluir minha fala, quanto a mim, retorno a uma questão que hoje permanece atual. Em 53, a cisão entre o grupo que incluía Lacan e a Sociedade Psicanalítica de Paris se deu a propósito de uma regulamentação da psicanálise; tratava-se, para a Sociedade parisiense, de estabelecer um instituto de formação de psicanalistas que seriam reconhecidos por um diploma médico; não universitário, mas médico. Foi em relação a esse projeto que Lacan, Dolto e Lagache e Favez e os principais alunos da Sociedade parisiense, e quando Lacan era o seu presidente, foi em relação a essa questão que eles foram embora, que eles se separaram. Em todo caso, eu, no que me concerne, posso atestar que, no momento crítico que foi o do fim de seu percurso – momento evidentemente particularmente doloroso, difícil e completamente inesperado, certamente, completamente imprevisto –, posso dizer que, a esse respeito, agi me autorizando por mim mesmo. Ao fazer isso, eu afinal estava apenas resolvendo o sintoma bem bobo pelo qual eu tinha ido procurá-lo. Era uma circunstância banal de exame, chamava-se internato de Paris, e eu ficara surpreso ao constatar em mim algo que eu não conhecia até então: o que se chama de câimbra dos escritores. Eu tinha que fazer uma dissertação sobre um assunto que eu conhecia perfeitamente, mas havia um inconveniente: eu me vi obrigado a eu mesmo redigi-la, criar minha própria questão (chamávamos isso de “questões” na época) de fisiologia, era uma questão de endocrinologia, pois todas que eu tinha encontrado não tinham me parecido adequadas. Portanto, eu achara que devia me autorizar apenas por mim mesmo, por meu próprio saber, e a surpresa de constatar que era isso que tinha sido sorteado no internato, e me achar na maior dificuldade para redigir uma questão que, por causa da câimbra, foi bem curta… e na qual eu tirei dezoito sobre vinte! O que mostrava bem que, efetivamente, eu não tinha me enganado na redação dessa questão, mas que eu não tinha podido me autorizar por mim mesmo. Posso dizer apenas que nessa circunstância – em que, aliás devo dizer, havia pouca escolha – eu podia verificar que esse tratamento com Lacan, em que, devido ao lugar que eu ocupava junto a ele, eu tinha tido o “privilégio” de ser objeto de recomendações e de sentimentos que não eram forçosamente amenos (que, em todo caso, me condenavam a nunca, nunca poder compreender o que quer que seja na análise, nem poder sair dela etc.), eu podia em todo caso verificar que isso não tinha me prejudicado muito.

Aí estão essas poucas observações sobre a extravagância que nos habita, a nossa, e das quais Lacan aqui é apenas a ocasião, o pretexto. Pois afinal, para retomar um exemplo que foi dado, se sou sensível a sua piscadela, não é sua piscadela que está em questão, é simplesmente que eu sou sensível a isso, que isso me importa, que isso me ocupa, é bem disso que se trata. Se ele marca encontro às seis da manhã, e se o outro vem correndo, como todos vínhamos, o que está em questão não é o que era o trabalho, efetivamente longo, importante, de Lacan, mas é o fato de que se venha correndo, contente por estar assim, embora ainda seja noite, entre os primeiros, aqueles por quem aparentemente ele se interessa tanto que os coloca assim em posição de exceção. Se ele telefona às duas da manhã, acordando a família toda em sobressalto, qual o problema? Você grita dizendo: “Mas espere! Deixe-me dormir!”? Ou então você está lá do outro lado da linha pensando: “Ah ! ele é mesmo…! Você percebe, e depois é a mim que ele…”. Você ainda está no seu sonho, e depois nesse sonho, há o telefonema de Lacan, às duas da matina… etc.

Pois bem, eu posso dizer uma única coisa: foi uma aventura excepcional. E se hoje ela é capaz de continuar, eu digo: bravo!, e digo: melhor assim!

É isso, obrigado!

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In: MELMAN C. A PRÁTICA PSICANALÍTICA HOJE – Rio de Janeiro: Tempo Freudiano,2008, p.37
Conferência pronunciada nas jornadas da Fondation Européenne pour la Psychanalyse intituladas A prática de Lacan.

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