Coleção A Clínica da Psicose – Prefácio

Todos nós gostamos de nossas histórias infantis.

Conta-se que o casamento mais bem sucedido entre a psiquiatria e a psicánalise foi celebrado em Paris. O mito sempre tenta dar conta de um real.

Uma das características da situação francesa é o encontro entre uma tradição clínica inigualável, a dos alienistas, e a presença de Jacques Lacan, leitor de Freud mas cuja entrada na disciplina se fez pelas doenças mentais, as psicoses.

Mas a exceção francesa agoniza. Os formidáveis estudos casuísticos e nosográficos do século XIX e do início do século XX vieram dando lugar a uma psiquiatria cada vez mais biológica, neurológica e farmacológica.

A primazia da linguagem, o interesse pela linguística foram votos de Lacan e até uma época ainda recente o psiquiatra passava a maior parte do seu tempo escutando seus pacientes. Evidentemente a psicanálise não trata o significante como um sinal médico e para ela o sintoma está enodado ao saber do inconsciente que busca escrever-se, inclusive sobre o corpo. Psiquiatria e psicanálise sempre tiveram um debate incansável, mas o material era o mesmo: as palavras, os dizeres do paciente.

A psiquiatria francesa se quer doravante científica no sentido forte da palavra, isto é, não poluída pela transferência.

Daí certa dificuldade que encontramos quando Antonio Carlos Rocha, testemunhando sua amizade, nos pediu uma publicação que se inspirasse na antiga lua de mel de outros tempos, em toda parte celebrada mas hoje ultrapassada.

Mas não podemos decepcionar nossos colegas brasileiros. Até porque não seríamos nós mesmos que iríamos enterrar este tesouro de pesquisas e invenções.

Reunimos, portanto, alguns textos, todos concernentes à problemática das psicoses, sob o ângulo daquilo que poderíamos nomear uma “psiquiatria lacaniana”.

Paralelamente a seu seminário, Lacan manteve a disciplina clássica da apresentação de pacientes. Esta forma de ensino foi criticada com hostilidade, tanto pela antipsiquiatria de inspiração esquerdista, quanto pela abordagem filosófica e sociológica de Michel Foucault.

Trata-se, no entanto, do único meio para transmitir aos mais jovens, enfermeiros, psicólogos, médicos, um savoir-faire impossível de resumir num catálogo de recomendações.
Depois da morte de Lacan, Marcel Czermak e Charles Melman continuaram esta prática no mesmo lugar, o Hospital Sainte Anne em Paris.

Inúmeros psiquiatras e psicanalistas, inclusive estrangeiros, vieram se formar nos estudos de caso, na história dos conceitos, nas questões jurídicas, na abordagem topológica etc. Um dispositivo original, “o traço do caso”, permitiu, através do trabalho de cartel depois de cada apresentação, prosseguir a elaboração de uma clínica que levasse a sério esses avanços sobre as noções de Outro ou de objeto em psicanálise.

Foram abertos caminhos dos quais damos uma ideia através da coletânea dos artigos apresentados: clínica da alucinação, do automatismo mental, da paixão; aportes sobre a paranoia pouco a pouco desconhecida e abandonada em proveito do saco tentacular das esquizofrenias; elucidações sobre os fenômenos elementares da psicose que Lacan tinha salientado em seu famoso seminário.

Muitos outros trabalhos se desenvolvem nos hospitais e ambulatórios, fora da École de Sainte Anne à qual devemos nossa trilha, mas é preciso saber que, como em todos os lugares, o behaviorismo e o cognitivismo impõem-se sem grande resistência, inclusive no que diz respeito ao trabalho com crianças.

Na esperança de fazer obstáculo ao esquecimento, ao recalque e até à foraclusão anunciada, inserimos para o leitor brasileiro alguns textos princeps de nossos grandes clássicos, como Gaëtan Gatian de Clérambault, que Lacan cita como sendo seu mestre em psiquiatria, e outros. Estes escritos mereceriam tradução integral não por razões de cultura geral mas sim porque a autoridade destes mestres, sua cultura clínica, são as únicas que podem fazer obstáculo à semiologia dos laboratórios que nos invade.

Se Freud se interessa primeiro pela paranoia – pela parafrenia schreberiana – e suas variantes, é porque nela a transferência e os efeitos de fala são solicitados. Ele não ignorava os trabalhos de Jung sobre a esquizofrenia ou os de Abraham sobre a loucura maníaco-depressiva.

Partir da paranoia é permitir aos que praticam a clínica da psicose apreender o estofo tão particular do propósito delirante e constatar as questões prévias a toda praxis: o que é a razão? Como interpretamos? O que chamamos paixão? O que é uma afirmação? Donde a importância de ler e de estudar nossos velhos autores e seus delírios de interpretação, de negação ou ainda passionais. Colocar a esquizofrenia no centro de nossa concepção das doenças mentais é tender fatalmente a uma leitura organicista do distúrbio mental.

Na França como no Brasil a clínica das psicoses está numa encruzilhada.

Ainda uma última palavra que vale como aviso: a tradição francesa, por mais rica e exemplar que seja, nem por isso detém o tesouro, o agalma do que seria a boa doutrina das doenças da alma.

A clínica nunca está concluída, ela não cessa de se escrever. Nossos colegas do Rio já nos falaram também de transformações em curso no Brasil; e essa forte singularidade, por sua vez, relança também para nós a questão.
Para além dos contos da carochinha, esperemos que nossa mensagem ainda nos venha um pouco do Outro!

Louis Sciara
Jean-Jacques Tyszler

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