CONFERÊNCIA A.L.I.

“ÉDIPO NÃO TINHA COMPLEXO” – CHARLES MELMAN E PATRICK GUYOMARD – 23/01/2018

Intervenção de Charles Melman

 

Eu fico muito agradecido a Patrick Guyomard por este verdadeiro êxito que constitui esse percurso ao mesmo tempo preciso, argumentado sobre as questões essenciais, e que nos permite efetivamente interrogar o que é da ordem da organização do desejo e, entre outras, a questão do fim do tratamento.

O que eu conheci é a representação nos analistas do assassinato do pai como constituindo a maneira para o filho de aceder à responsabilidade e ao estado de adulto.

E eu devo dizer que a história das relações dos alunos frente a seus mestres em psicanálise me pareceu muito frequentemente dominada pelo que parecia nos alunos o dever, de alguma forma, de se libertar daquele que no tratamento eles investiam numa função paterna afim de ter o direito a uma expressão responsável, autônoma, sem que, aliás, outras vantagens além das narcísicas sejam evidentes.

O que me parece um ponto que é delicado abordar, e que Patrick Guyomard muito discretamente, mas precisamente nos trouxe, é aquele seguramente da relação que o próprio Freud poderia ter com a figura paterna, pois – e se trata curiosamente de uma questão da atualidade – quero dizer a relação do imigrante com a figura paterna. Qual é, para o imigrante, a figura paterna. O que sabemos de Freud é que, a fim de se fazer conhecer, a fim de estar presente no meio social, sabemos que em sua vida privada ele foi levado a se desligar de toda fidelidade à tradição de suas origens em benefício do que foi uma germanofilia clara, sem mistério, e que encontrava sua tradução em seu talento literário reconhecido como tal.

De tal sorte que a questão do, a ideia de um assassinato de Moisés por seu povo permite sem dúvida, eu diria, se referir ao que foi para ele mesmo a relação ambígua, ambivalente a essa figura, já que ele também se identificou a Moisés pronto a quebrar as tábuas da lei como ele mesmo, diante de seus alunos, seus alunos, eu diria, presos em paixões edipianas, diante dos quais ele também parecia pronto a quebrar o que ele tinha podido trazer no campo, no campo psicanalítico.

Há um outro texto e o campo a esse respeito é o do distúrbio de memória na Acrópole. É um texto hilariante, porque vocês podem procurar qual é o distúrbio de memória, não há nenhum. Não há nenhum distúrbio de memória nesse texto, mas é ainda mais interessante porque ele está lá, de alguma forma, no cume da cidade que está, ela própria, no cume, a Acrópole, e depois há essa evocação: “Ah, se meu pai visse isso, se meu pai me visse aqui, o que é que ele pensaria? Será que ele ficaria orgulhoso? Será que ele ficaria indignado?” Não há resposta no texto, mas podemos nos perguntar se o título dado a esse trabalho, Distúrbio de memória na Acrópole, não se refere justamente ao fato de saber se há memória ou não do nome de seu pai, não se trata do Nome-do-Pai, mas do nome de seu pai nessa situação.

Poderíamos também, não vou fazer todo o percurso, mas evocar o fato de que o esquecimento do nome do autor vai se reencontrar a propósito do juízo final, em Orvieto, isto é, o nome de Signorelli, Patrick, eu não sei, talvez, eu me diverti decifrando-o como Sig ignore Eli … Não parece evidente, hein? Ele sonharia facilmente com uma língua estrangeira.

O que é igualmente, o que eu evocaria igualmente é que há seguramente edipianos, são aliás aqueles que querem suprimir a figura paterna, eu digo figura para simplificar, mas há também os que querem restituí-la, restaurá-la. O que é bizarro é que essa posição não é individualizada como tal na clínica, digo isso a propósito de circunstâncias atuais que não parecem perfeitamente decifradas, mas podemos ver como justamente jovens imigrantes decidiram dar sua vida para restaurar o nome do pai, de seu pai.

Eu devo dizer também que, sem a maneira pela qual Lacan aborda essa questão, eu não vejo verdadeiramente como poderíamos nos virar, e eu poderia dizer que, ao longo da leitura de Freud eu fiquei sempre muito embaraçado por sua maneira de tomar posição sobre esta questão. Totem e Tabu é evidentemente um devaneio, não é um mito, é um devaneio de assassinato do pai da horta primitiva pelos irmãos unidos contra aquele que tinha todas as mulheres.

Então, o único ponto que eu gostaria talvez de fazer intervir, me apoiando sobre o que Patrick Guyomard nos trouxe, é quando Lacan tem essa fórmula – saber se servir, então, do nome-do-pai para poder prescindir dele -, o que é que isso quer dizer, saber se servir do nome-do-pai, bem, haveria evidentemente um desenvolvimento a fazer mas não está, não está inscrito nesse percurso imediato, quer dizer o fato de que Lacan se refere a pai como a um significante, ele diz o nome-do-pai, mas é também o nome-DOS-pais. Algo no Real, um Um no Real que vamos chamar de Pai, o que somos obrigados a chamar de Pai. Em todo caso, desse Um no Real não temos nada além de um nome, um significante. Saber servir-se dele para poder prescindir dele, saber se servir dele, eu o atribuo, eu o suponho, é por isso que Patrick dirá a respeito: para dar conta do fato de que o impossível, no sentido de ser um impossível sexual, sexualizado pela intervenção do nome-do-pai, Real que, afinal, se ele é puramente lógico, por exemplo, não tem sentido nenhum.

É por isso que o teorema de Gödel, que seria.., nada a fazer, se lixam completamente, e então isso não incomoda ninguém, o teorema de Gödel. Então, – para poder prescindir dele – aqui também há uma questão, por que seria necessário prescindir dele?

A segunda observação então, mas que me, eu diria no limite, me surpreende a mim mesmo, é que a questão da relação entre pai e filho depende de um operador lógico: ou bem vocês dizem pai e filho, como havia antigamente nas lojas, nas empresas, como sinal de honorabilidade, isso queria dizer que verdadeiramente, é interessante de todo modo que isso seja uma marca, eu diria de honestidade, de confiança. Ou seja, se há ali uma relação, se pai e filho continuam o mesmo empreendimento, é que entre os dois há honestidade, podemos confiar neles. Então, a questão da relação entre pai e filho depende de um operador lógico que é: ou bem há pai e filho, e nesse caso não se vê verdadeiramente onde haveria conflito, por que haveria conflito entre pai e filho? Ou então há pai ou filho, e nesse caso vemos bem que é ou um ou outro, o que é, eu diria, hein? isso pode ser inclusivo, bem, sim, isso pode ser inclusive, pode ser inclusive, exceto que o que é divertido é que em lógica o signo do e ou do ou pode ser o mesmo. E o punção, o famoso punção lacaniano é a reunião dos dois. Será que filho, no fundo, o Nome-do-Pai a título de metáfora, mas será que filho, será que não se trata de uma metáfora do Nome-do-Pai? A meu ver é dificilmente discutível, filho significa que houve um pai e que ele mesmo está desde então exposto a ser pai. Portanto, filho é também uma metáfora do Nome-do-Pai. Então, eu fico atormentado por essa questão do e e do ou porque verdadeiramente tudo que se joga aí, nós o vimos  durante o fim de semana a propósito de Schreber, o que vemos nos fenômenos psicóticos é que diante de suas alucinações Schreber fica constantemente confrontado ao seguinte, que se vê em todos os casos de psicose: se é ele que fala, se isso fala no outro, eu desapareço, assassinato de alma; se sou eu que falo, que tomo a palavra, é ele que desaparece e nesse momento angústia do fim do mundo. Ou seja, é na psicose em realidade que se situa essa prevalência da alternativa ou ele ou eu e assinalo isso de passagem, isso faz parte de minhas digressões…

Mesmo problema no caso do matriarcado, isto é, quando a relação ao privador, quando a figura do privador é assumida por um irmão, o que é o caso da organização matriarcal e onde, por toda sua vida para o sujeito, permanecerá um ou ele ou eu e o cara engajado num combate sem trégua, sem fim. Então, se nós conseguirmos nesse trabalho esta noite avançar sobre as questões levantadas por Patrick e que eu retomo da minha maneira, me parece que, bem, eu espero com certa impaciência nosso segundo encontro que acontece em maio, em 22 de maio, é isso, vocês terão tempo de digerir tudo isso.

 

[comentário de Patrick Guyomard]

 

E então até breve, isto é, até maio.

 

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