De que duvida o paranoico?

Bernard Vandermersch

O paranoico é aquele cujo delírio não deixa lugar para a dúvida. E a dúvida do ciumento? Logo constatamos que é uma dúvida que não duvida. Trata-se mais de um delírio de suposição em busca de uma prova. Seria também necessário marcar a diferença entre os delírios interpretativos, cujas convicções parecem se desenvolver progressivamente, e os delírios passionais, em que elas são completas de saída. Entretanto, os paranoicos que nos consultam confidenciam eventualmente sua perplexidade, suas incertezas. Tampouco é raro que, por meio do diálogo, eles consintam em levar em conta o que não é tão certo, com o risco de voltar na próxima vez com um fato novo, momentaneamente indubitável. De fato, a certeza do paranoico não incide tanto no conteúdo significado, nem mesmo nos elementos de convicção sempre aleatórios que ele tem à sua disposição, quanto no fato de que há signos, que eles lhe concernem e que em algum lugar “se” sabe… o que esses signos querem dizer. Já em 1892, a noção de “significação pessoal”, devida a Neisser[1], deslocava a ênfase do delírio de sua referência à realidade, para colocá-la na singularidade da posição do sujeito no delírio: ele é visado, e disso ele não pode duvidar.

Notemos que, quanto ao fenômeno da própria dúvida, longe de que se possa tomá-lo como oposto à certeza, ele é, para Freud assim como para Descartes, ainda que de maneira diferente, seu único apoio: para Descartes, eu estou seguro de pensar pelo fato mesmo de que duvido; para Freud, ali onde o sujeito duvida da exatidão de seu enunciado, ele está seguro da existência de um pensamento inconsciente, que se revela aliás como ausente. Testemunha da instalação da fantasia inconsciente, essa certeza precisou de uma dúvida quanto ao desejo do Outro.

A partir daí, a certeza do paranoico distingue-se imediatamente dessas outras certezas por não estar fundada numa dúvida primeira. Nos Escritos, Lacan afirma que “o grau de certeza [dos pretensos fenômenos intuitivos de Schreber, de fato efeitos de significante] é um grau segundo: significação de significação” [ou seja, certeza de que isso significa e não do que isso significa] e que ele “toma um peso proporcional ao vazio enigmático que se apresenta de início no lugar da própria significação”.[2] Certeza fundada não em uma dúvida, mas em um enigma. Enigma não é dúvida: ele não divide o sujeito.

Quanto ao vazio da significação (da significação fálica), ele é correlato da ausência do significante do Nome-do-Pai. Esse significante do Nome-do-Pai, Melman, em seu ensino recente, sugere considerá-lo não como um significante, mas como um nome, ou seja, nada além de uma sequência literal, que terá sido sexualizada pela referência a um pai. Aliás, é o que dá conta do gozo ligado à manipulação da letra. Veremos, mais adiante, as consequências da falta no paranoico desse referente literal e, portanto, de um referente fora do significante.

Se ele não duvida, não é exato dizer por isso que um paranoico acredita em seu delírio. O delírio não é um ato de fé. Ele se impõe ao sujeito. Em RSI, lição de 21 de janeiro de 1975, Lacan dirá sobre o psicótico que, em seu delírio, em suas vozes, não apenas ele acredita neles (y croit), mas ele os acredita (les croit).[3] Trata-se para ele, nesse momento, de mostrar a diferença entre a neurose, em que o sujeito acredita em seu sintoma, i.e., acredita que ele quer dizer alguma coisa – o que é justamente a primeira condição para que ele o interrogue –, e a psicose, na qual o sujeito acredita suas vozes.[4] Se uma mulher pode ser um sintoma para um homem, é porque ele acredita nela (que ela tem algo a lhe dizer). Ele pode mesmo chegar a acreditá-la, é nisso que o amor pode ser uma loucura. Loucura no fato de que ele rejeita, desmente a falta da relação entre os sexos.[5] Essa crença do delírio é então também um amor pelo delírio, como Freud já havia notado (daí a questão das relações entre o delírio e o narcisismo, neonarcisismo, propõe Marc Caumel).

De fato, não só o delírio não é uma crença, mas é a não-crença que dá o traço específico do paranoico. Freud evocava, em seus manuscritos (H e K) dos anos 1895-1897, o fato de que no paranoico, diferentemente do obsessivo, “nenhuma crença se liga à autorrecriminação”.[6] No paranoico, essa autorrecriminação é objeto de uma projeção antes de ser recalcada e retorna, portanto, do exterior.

Essa descrença particular, que para Freud recai na própria implicação do sujeito em sua falta, Lacan a entende efetivamente como “a ausência de um dos termos da crença, do termo em que se designa a divisão do sujeito”.[7] Ele relaciona isso com um mecanismo que batiza de holófrase. Ele se produziria no começo do processo de subjetivação. Na cadeia significante primeira, entre o primeiro significante, que faz surgir um sujeito como sentido, e o segundo, sob o qual normalmente o sujeito que acaba de surgir de um sentido sofre o recalque originário, um tipo de solidificação (lhe) “interdita a abertura dialética que se manifesta [para os outros] no fenômeno da crença”.[8] E é, com efeito, a “inércia dialética” de alguns pontos do enunciado, mais do que seu grau de certeza, que assinala o delírio. Nenhum dois: nenhuma dúvida. Um (que se reduplica em mesmo): holófrase e não abertura numa “causalidade”.

Essa solidificação impede o retorno do sujeito pela causalidade. No questionamento da fenda que normalmente se abre entre os dois primeiros significantes constituindo o enigma do desejo do Outro. “Ela me diz isso, mas o que ela quer realmente…?” Lacan propõe, então, que é seu próprio desaparecimento que o sujeito vai propor como resposta a esse enigma do desejo do Outro. O neurótico vai tirar partido de alguns objetos, os objetos a, objetos a perder, como solução para o enigma da causa, para metaforizar esse desaparecimento, constituindo assim essa resposta hipotética que é sua fantasia. É essa última que lhe serve, ao mesmo tempo, de identidade e de garantia da verdade. Na ausência de um referente fora do simbólico, o paranoico, privado dessa solução, parece ficar capturado na busca de uma prova “aleatória” pelo significante. Significante reificado: holófrase.

O termo que lhe falta, pelo fato de que os dois primeiros significantes fazem apenas um, é o falo. O falo é o significante que designa a falta do Outro: a ausência de um significante, S(A) para o qual todos os outros significariam o sujeito. Por isso, o paranoico não pode nem ter a intuição dessa impossibilidade lógica: ele se encontra exposto a ocupar o lugar dela, sem sua mediação (o falo), em vez de ser aí representado, como sujeito dividido entre S e a, por uma fantasia. Ocupando a sua revelia o lugar da instância fálica, ele vê apontarem para ele todas as intenções de significação. E daí empurrado a se ejetar no lugar da letra. Charles Melman, em nossas últimas jornadas sobre as paranoias, mostrava que podíamos deduzir dessa posição do sujeito paranoico todas as formas clássicas: delírio de grandeza, de reivindicação, de ciúme, erotomaníaco, conforme seja privilegiado esse ou aquele aspecto dessa instância.

Assim, um certo paciente dizia que “existia um feixe de indícios dos quais ele era a prova”. Prova cujo sentido lhe escapa: “Por que é que eles me perseguem assim? Que me digam!”. Prova de que ato? De um ato que todas as entrevistas mostram não ter sido contado como ato, mesmo que tenha sido cometido, na falta de que um sujeito possa ser seu produto, salvo sob a forma melancólica do objeto a eliminar. Fala-se dele no rádio. Ele escreveu um conto que encontrou plagiado no Libération[9]. Ele é acusado de ter difamado sua professora de Filosofia, deixando entender que ela se prostituiria. Esse conto foi roubado em sua casa. Tratava-se, de fato, de um roteiro de cinema inventado a partir de um fato do cotidiano (para um DEUG[10] de cinema). Dois caronas foram inspecionados pela polícia; um deles foi atropelado ao sair do carro. Em seu roteiro, ele introduzia dois fatos de ficção: 1) não era um acidente, era o outro que o havia arremessado, empurrado; 2) os dois caronas tinham dado sumiço numa jovem (mas, bizarramente, esse assassinato não era descrito no conto, era apenas sugerido, e é ele que lhe é incriminado pelo Outro). Em um colapso, o autor do conto é procurado como se fosse o autor do crime que ele relata: perda da divisão entre sujeito da enunciação e sujeito do enunciado. Oito dias após a eclosão do delírio, a angústia diminui, mas ele continua certo do roubo do conto e de sua divulgação. “Não há acaso possível”, diz ele. A ideia do outro não é semelhante à minha, é a mesma. Nesse lugar do falo a lei do significante se anula.

Deve-se aqui distinguir o falo como significante de uma falta e o objeto a, que é o objeto de uma perda. Esse objeto, sob as formas que conhecemos – seio, fezes, olhar e voz –, é o que vai ser solicitado como perda, para responder no lugar do sujeito ali onde ele não pode mais se sustentar com o falo imaginário. É uma perda que vem na falta. E deve-se dar a essa perda o suporte da letra. A letra é a única coisa que pode cair de uma cadeia significante em sua articulação, passar assim do simbólico ao real. O objeto a na neurose, na medida em que ele é o núcleo da fantasia, faz a certeza do neurótico passar pela dúvida do Che vuoi?: ele constitui a causa do desejo. O paranoico também, certamente, tem a ver com a letra (e muitos deles fazem grande uso dela), mas, pelo fato da gelificação primeira, parece que essa “colocação em causa” da letra fracassa. A letra aparece como prova, certamente não lógica, não discursiva, mas “sentimental”. Não como causa.

Assim, o sr. Ver… recebe aos 12 anos de idade uma carta[11] de sua correspondente alemã, Sabine Friedrich. Ele a joga fora. Quatro anos mais tarde, numa viagem de grupo à Alemanha, encontra uma moça em um bar: “Era a mesma.” “Eu compreendi imediatamente que era minha irmã.” Como assim? Por um sentimento irrefutável, uma ligação estreita com essa pessoa. Os pontos de concordância estão nos olhos. A carta [letra] jogada fora e não recalcada permaneceu no real, onde é imediatamente identificada com o mesmo objeto que não foi revertido no -φ. Ela não é sexualizada. A moça não vale como significante da falta Φ, ela é o próprio objeto que partilha com ele o nome. Ele nos dirá: “Suponho que deva ser ela”, mas também: “É uma certeza 100%”. Aliás, ele escutará na rua as pessoas dizerem ao passarem diante dele: “Frédéric”, “É Friedrich em alemão!”. Embora admita que “o elemento de convicção é aleatório”, ele se engajará em manobras para demonstrar que ele não pode ser o filho de seu pai e fazer reconhecer sua identidade oculta. Notemos que esse tipo de provas pelas palavras foi descrito há muito tempo pelos autores clássicos. Por outro lado, Lacan chamou nossa atenção para o fato de que as letras tinham nomes próprios: aleph, beth etc., e, portanto, para a proximidade da letra com o suporte da identidade.

Então, é a função da letra como causa do desejo para o sujeito que falta na paranoia. Quando a letra faz efração, ela permanece ligada a uma sequência significante congelada, cuja significação, por permanecer enigmática para o sujeito, nem por isso é menos irredutivelmente significação de significação, mas sem lhe assegurar nenhuma identidade. Poderíamos dizer que o paranoico não se instituiu na certeza de ser uma falta irredutível de saber e precisamente porque os elementos literais de seu nome não foram sexualizados pela referência a um pai. Ora, é o sexo – e a morte – que, no neurótico, constituem o ponto de fracasso de todo saber e se acham assim na origem de sua elucubração fantasmática (elucubração notadamente ausente na infância do psicótico). É nesse ponto que o paranoico terá a certeza de que lhe roubaram um saber.

Para remediar esse saber roubado, o paranoico apoia-se numa outra lei que assume diversos aspectos conforme o tipo de delírio. No ciumento, é um apelo às regras éticas formais e absolutas para condenar o erro do parceiro. No erotomaníaco, cuja fé é sem falha, é a declaração do amor que é esperada, bem mais do que a satisfação sexual. No reivindicador, será um julgamento de justiça para restabelecer seu direito. Notaremos, paralelamente, que ele não pode pôr em dúvida a existência de uma garantia última, ainda que tenha que buscá-la sempre mais alto na hierarquia do poder. Sabemos a que ponto ele se recusa a acreditar na falta de saber: a prova está à disposição do Outro e é, então, pura má intenção subtraí-la ou ocultá-la. Assim, o sr. Ver… numa carta ao procurador da República:

Senhor procurador da República, considerando o fato da ocultação que me foi submetida quanto a minha identidade real, vejo-me na obrigação e em toda a legitimidade de me constituir parte civil junto a sua instituição. A fim de atestar a veracidade de minha queixa contra o sr. Ver… A… [seu pai] pretendo que este e eu mesmo sejamos submetidos a um exame genético. Parece que toda essa maquinação gravíssima não teve outros objetivos senão o de me privar de prerrogativas consequentes; mais grave ainda constitui o fato de que essas ações foram premeditadas com o objetivo de trazer uma sustentação notória a movimentos fascistas. Peço que um inquérito seja aberto a fim de que dignidade me seja dada. Além disso, declino todas as responsabilidades concernentes a eventuais faltas que me incumbiriam, não tendo tomado conhecimento, e não possuindo nenhum documento me concedendo um estatuto particular. [Sabemos que a particular é a proposição da existência.] À espera de uma resposta e procedimento de sua parte, rogo-lhe receber, Senhor procurador, os meus mais sinceros respeitos. Assinatura.

Geralmente, consideramos que no campo das psicoses passionais, mas também no dos delírios de interpretação, a imagem especular do corpo está preservada. As alucinações, se não estão ausentes nesses últimos, permanecem sustentadas pela imagem de um semelhante (“pequeno outro”). Esse ponto permitiria mesmo distingui-las daquelas que surgem em outras psicoses, quando as vozes se emancipam “do suporte de toda consistência humana no desvelamento de um para além da relação especular”.[12] Entretanto, a falta de literalização da causa não é sem efeito sobre a identificação especular. Sabemos que Lacan propõe escrever essa imagem do corpo i(a), marcando que essa imagem envolve e mascara o objeto a, causa do desejo. Trabalhos recentes na AFI tendem a recolocar em questão essa preservação da imagem especular, não apenas nas psicoses esquizofrênicas, mas mesmo na paranoia. S. Thibierge analisou, em sua tese[13], a decomposição dos elementos da imagem especular, ï(a) na álgebra lacaniana, nas síndromes delirantes classicamente agrupadas sob o nome de ilusão de falso reconhecimento dos alienados: síndrome de ilusão dos sósias (Capgras e Reboul-Lachaux), síndrome de Frégoli (Courbon e Fail), síndrome de intermetamorfose (Courbon e Tusques).

Marc Caumel propõe os termos neonarcisismo e delírio de invólucro.[14] Para ele, o invólucro corporal do paranoico não seria constituído pela imagem especular, mas por um reviramento do objeto sobre si mesmo, feito então de letras e passível de ser lido à custa do sujeito. J.-J. Tyszler evoca igualmente o fenômeno de um objeto que, na falta de se situar na linha de equivalência fálica dos objetos parciais, teria em troca “a surpreendente propriedade de se tornar invólucro”[15]. Assim, o paciente que se via no ponto de convergência de um “feixe de indícios do qual ele era a prova” se preocupava com sua falta de espessura. Ora, sua preocupação sempre tinha sido agradar, ou seja, para ele, “reduzir-se a uma superfície sem profundidade…”. Enquanto ele se queixa de seu vazio, os outros são plenos demais: “Eu não poderia lhes dizer senão coisas negativas.” Ao mesmo tempo em que seu delírio o designava como criminoso, ele reivindicava sua inocência: “Tenho grandes ambições: chegar ao último julgamento com a menção ‘puro’. Tenho medo de que isso transpire…” Esse “isso” se referia a uma colocação em causa de sua responsabilidade que ele recusava. Num momento fecundo, ele dizia: “Não sou dividido, sou multiplicado…”. Essa multiplicação não traduziria o fracasso do nada que assegura a identidade ao preço da divisão do sujeito? A não constituição de um tempo do zero-que-conta-por-um produz uma proliferação do mesmo.

Observemos que a permeabilidade da realidade (como campo da aparência) aos signos já parece confirmar a fragilidade da construção especular do eu. Esta repousa, normalmente, sobre uma falta na imagem, certamente despercebida, que está ligada ao fato de que o objeto causa de desejo é refratário ao mundo da representação. Ora, nessa falta na imagem, mas também no mundo que é uma extensão dessa imagem, o paranoico não acredita. Assim como não acredita na impossibilidade lógica de uma prova da boa-fé do Outro, ele acredita que a aparência esconde algo que lhe é subtraído, que lhe é ocultado. Em suma, poderíamos dizer que o paranoico duvida de “nada”, duvida que nada possa ser, que nada possa ser uma resposta do Outro que provê um lugar para o sujeito.

Quanto às consequências práticas, nada que alguém aqui não saiba. De nada serve levar à crítica do delírio. Mais vale se submeter inteiramente, ainda que sem ingenuidade, às posições subjetivas do doente para que ele aceite relatar sem reticências os fenômenos que o acossam. Na maioria das vezes, somos levados nos pontos sensíveis a atenuar seus projetos deploráveis. Assim, se ele está aberto para isso, por que não elaborar com ele o que poderia esclarecê-lo sobre essa posição, com a ajuda do que sabemos sobre seu lugar na estrutura? O jovem autor roubado colocava-me essa questão: “Será que há zonas de sombra na teoria? – Sim, certamente! – É tranquilizador!”

À falta de duvidar, ao menos o paranoico poderia apreciar que se saiba não saber demais.

 

Notas

Publicado em Le Discours Psychanalytique – Revue de l’Association freudienne, no 24: De la croyance. Paris, outubro de 2000.

[1] NEISSER, Clemens. “Disertación sobre la paranoia desde el punto de vista clínico”. In: Clásicos de la paranoia. Madri: Ediciones DOR S.L., 1997.

[2] LACAN, J. “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998,
p. 545.

[3] N.T. – Jogo de palavras impossível de traduzir, entre “y croire” e “le croire”. A primeira forma, transitiva indireta, corresponde a “acreditar em” (acreditar em Deus, por exemplo). A segunda é transitiva direta e não tem equivalente no português. Corresponderia a “acreditar Deus”. Na passagem referida do RSI, Lacan expressa uma diferença entre a neurose e a psicose: o neurótico que vem ao analista acredita no seu sintoma (‘y croit’, ‘croit à son symptôme’) no sentido de que ele “acredita que o sintoma é capaz de dizer alguma coisa, que é preciso apenas decifrá-lo”; já os psicóticos, “as vozes […], não apenas eles acreditam nelas (‘y croient’), mas ‘acreditam elas’ (‘les croient’)”. A expressão denota, na psicose, uma homologação maciça e sem dialética das vozes ou do delírio, enquanto, na neurose, acreditar no sintoma implica um enigma quanto ao que ele quer dizer. Na neurose, Lacan joga ainda com a dupla função do “y”, de ser também um advérbio de lugar, “y croire” sendo também “acreditar aí”.

[4] N.T. – Na neurose, o sujeito “croit à son symptôme”; na psicose, o sujeito “croit ses voix”.

[5] LACAN, J. R.S.I., Séminaire 1974-1975. Edição não-comercial da Association freudienne internationale, p. 66.

[6] FREUD, S. “Extratos dos documentos dirigidos a Fliess – Rascunho K: As Neuroses de Defesa”. In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas, vol. I. Rio de Janeiro: Imago, 1988,
p. 274.

[7] LACAN, J. O seminário, livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p. 225.

[8] Ibid., loc. cit.

[9] N.E. – Libération: jornal francês.

[10] N.E. – Diploma de Estudos Universitários Gerais.

[11] N.T. – No original, lettre, carta/letra.

[12] FAUCHER, J. M. e JEAN, T. em CHEMAMA, R. (org.) Dicionário Larousse da psicanálise. Porto Alegre: Artmed Editora, 1995.

[13] THIBIERGE, S. Pathologies de l’image du corps. Étude des troubles de la reconnaissance et de la nomination en psychopathologie. Paris: PUF, 1999.

[14] N.T. – Délire d’enveloppe, no original.

[15] Cf. TYSZLER, J.-J. “A pele virada pelo avesso – Observações sobre o gozo do invólucro”. In: CZERMAK, M. e JESUÍNO, A. (orgs.) O corpo na psicose: hipocondria, Cotard, transexualismo. A clínica da psicose: Lacan e a psiquiatria, vol. 3. Rio de Janeiro: Tempo Freudiano, 2015.

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