Dez anos do Tempo Freudiano

Em 20 de outubro de 1997, Antonio Carlos Rocha fazia o ato de fundação do Tempo Freudiano. Um tempo depois, em abril de 1998, na seqüência de um trabalho de elaboração sobre os fundamentos institucionais realizado juntamente com alguns outros, a fundação do Tempo Freudiano Associação Psicanalítica foi legalmente formalizada. Na passagem de 2007 para 2008, portanto, comemoramos 10 anos da instituição.

O Tempo Freudiano comemorou dez anos de existência. E nesta passagem de 2007 a 2008, temos estado tomados por isso, pelo que hoje podemos chamar o trabalho de comemoração. Mas por que falar de trabalho, num momento como este, que é de celebração, de justa celebração? Simplesmente porque foi o que aconteceu. Festejamos, sem dúvida – e havia o que celebrar –, mas sem perder de vista a dimensão da memória, presente em toda comemoração.

Há dois tipos de memória. A reminiscência, ou seja, a evocação de uma história onde o sujeito já está lá desde sempre, aparecendo, portanto, como contemporâneo de sua própria origem. E onde se descrevem as vicissitudes de um caminho que se aproximou, mais ou menos, de um ideal, postulado, é claro, retroativamente a partir do ponto de chegada. Daí derivam as fixações em que estamos aprisionados enquanto neuróticos, e que sustentam, alternadamente, a enfatuação egóica, ou o gozo da culpa, diante dessa relação pautada pelo ideal. “As histéricas sofrem de reminiscências.”

Mas há outro modo de fazer emergir a memória, e isso foi também Freud quem descobriu: rememorar. Trata-se não mais da memória que nós temos, e que está a serviço de nosso imaginário, mas, ao contrário, de uma memória que nos tem, e que trabalha em nós. Se nos submetemos então a esse trabalho, que é trabalho do significante, temos a chance de poder advir ali, “onde isso era”, e recriar, dessa forma, aquilo que terá sido o ponto de partida. É o que abre sempre para nós a possibilidade de um novo começo, pelo qual devemos nos responsabilizar.

E essa foi a aposta do Tempo, ao convocar seus membros, desde o primeiro instante, a tomar a palavra, a dizer, rememorar, no ato mesmo da celebração. Isso acabou produzindo abalos, aberturas e deslocamentos, atingindo a todos e a cada um, com uma certa suspensão das certezas e o questionamento de posições estabelecidas para além dos meros juízos de atribuição. O que vemos hoje, no só depois, é que efetivamente pudemos, na festa e com a festa, ter presente o caráter de passagem do que ali estava sendo comemorado, ou seja, a dimensão do rito, que vem demarcar, pelo simbólico e no simbólico, a posição do sujeito, vem sempre renovar uma certa escansão do tempo, vem historicizá-lo, inscrevê-lo numa origem, num ponto de partida, num ato de fundação. E que evoca, portanto, outro tempo, o tempo do Outro. Um tempo antes do tempo. Esse é outro modo de comemoração, rememorar, a partir do Outro, a partir do vazio que dele nos retorna e nos lança no trabalho de recomeçar, ex-nihilo. É esse o trabalho de um sujeito, convocado pelo desejo à possibilidade de enunciação. É a isso, ao real que aí está em jogo, que todos foram chamados.

Nesse processo, em que, aliás, ainda estamos envolvidos, é preciso salientar um certo ponto, momento fecundo e disruptivo, no que se passou: a criação da categoria do Analista Membro do Tempo (A.M.T.). Esse ato veio sinalizar e promover no grupo uma nova diversidade, outra que não aquela que se apoiava ainda na velha hierarquia originária entre os fundadores e os outros. Foram nomeados aqueles que, tendo se autorizado à prática psicanalítica, deram prova disso por sua palavra, sua inserção, por sua implicação subjetiva no trabalho de transmissão. Trata-se de uma inscrição, de reconhecimento portanto, mas não de garantia, é claro. Cada um e a cada vez é sempre responsável por seu ato. Introduzida nesse contexto em que o rito da comemoração produzia seus efeitos de suspensão sobre os sujeitos, a indicação dos A.M.T. ficou mais imune às aderências narcísicas, não se abriu à recuperação imaginária. Não veio como nomeação atributiva. Pôde surgir, ao contrário, como convocação à responsabilidade do sujeito, confrontado a um novo lugar, a um tempo novo. A introdução da diferença produz sempre descontinuidade, deslocamentos. É a isso que o Tempo Freudiano terá de responder, para aceder assim, estruturalmente, a um nível de maior complexidade interna, e melhor se exercer naquilo que é sua causa: transmitir a psicanálise.

Como se vê, ao tentar dar uma notícia, dar conta rapidamente, aqui, do que se passou em nossas atividades comemorativas, o que emerge naturalmente não é o repertório substantivo daquilo que teremos feito ou deixado de fazer nesses 10 anos, mas sim o próprio processo da comemoração, sua incidência sobre os desafios do novo tempo que estão postos para todos. Na celebração, a palavra que prevaleceu não foi a da auto-satisfação com o que estava feito, nem a queixa diante do não-realizado. A visada foi sempre prospectiva, o que perpassou cada fala, cada intervenção, cada análise, foi sempre o “que fazer?” diante dos obstáculos a que estamos sempre confrontados, quando nos submetemos aos fins da transmissão. A convocação ao dizer, que instalou nossa primeira Assembléia, permaneceu no curso da celebração, fez aí se acentuar, para cada um, menos “o que é que eu poderia dizer desses dez anos” e mais “o que é que esses dez anos podem dizer de mim”. Mudança de perspectiva que tentou inverter o vetor do tempo e fez prevalecer o valor do significante, que desloca, destitui, sobre o apego aos enunciados prontos. E tornou possível a retomada do que era constituinte ali mesmo, no próprio campo do que estava constituído.

É esse o melhor sentido e o apelo a que deve chegar toda comemoração. Ela não deve se esgotar nas manifestações imaginárias da reminiscência. É da rememoração que o sujeito pode advir a uma palavra nova e dizer o que terá sido. Mas para isso é necessário garantir, na festa, um pouco da liturgia que ela sempre tem e que a sustenta. Para que não se oblitere a dimensão do rito, do rito de passagem, presença e razão do encontro. Comemorar nada mais deve ser do que construir uma memória nova que virá sempre do depois e que pode sustentar uma aliança Outra, que não se baseia só na identificação grupal, especular.

Houve quem falasse de refundação do Tempo Freudiano. Que seja. Tomara! O tempo dirá e o Tempo será. E na próxima comemoração veremos o que o Tempo terá sido.

Antonio Carlos Rocha

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