Dos conceitos freudianos ao objeto da psicanálise

Antonio Carlos Rocha

I- O MOVIMENTO DO DISCURSO

a) a trama conceitual e seu avesso

Seminário Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise começa no tempo de um mau encontro – distíquia – e a partir dele: é o que podemos inferir do que nos diz Lacan na última lição En toi plus que toi. O que acabara de acontecer, justamente, naquele momento, foi que nele mais do que ele, foi o próprio Lacan que, excluído como resto e mutilado, como valor de troca, acabou sendo negociado no tabuleiro da política de uma pseudo ortodoxia oficial, que pretendia se apoderar do ensino de Freud como se se tratasse de uma herança. Na história das idéias há sempre os que se crêem herdeiros: aos discípulos, o espólio! Mas o significante não se submete à espoliação e insiste. É no registro dos bens e só como dejeto que um certo resto se oferece ao registro da propriedade.

Que essa tenha sido a ocasião em que Lacan se decidiu a retomar a questão sobre “qual é a ordem de verdade que a nossa práxis engendra para se reassegurar que não estamos na impostura” e que aí tenha sido conduzido, pela primazia que deu à ordem do significante, a articular e estabelecer, definitivamente, a dimensão do objeto (do que ele veio a chamar objeto a) na economia do sujeito, é algo que se compreende. Retrospectivamente é até o que parecia se impor e que este Seminário, proferido já no limiar da saída de Lacan da IPA, dá testemunho. Se nossa práxis é efetivamente, aquela que toca como nenhuma outra o próprio coração do real, nunca antes, parece-me, nenhum discurso tinha podido dar conta disso de modo tão consistente. Do que se tratou aqui não foi simplesmente de oferecer respostas, mesmo que novas, a perguntas já estabelecidas; ao contrário, aquilo a que Lacan visou justamente, em torno dos quatro conceitos nodais da teoria freudiana, foi desconstruir respostas estereotipadas a perguntas mal formuladas, re-situar esses conceitos, levá-los aos limites de seus efeitos na clínica, fazê-los trabalhar em sua implicação recíproca, tomando-os como estruturais e assim, neste mesmo movimento e por seus efeitos internos, acabando por construir, por circunscrever, do modo mais rigoroso, as bordas daquilo que veio a se revelar como o próprio objeto que organiza tudo isso, que nos organiza, nos comanda – e que nossa prática revela – o objeto a. Esse objeto, aquele que está no coração do real, é de sua natureza que ele não se revele à luz do dia. Ele não poderia, simplesmente aparecer como mais um objeto na paisagem, na fenomenologia do mundo, uma vez que, como objetalidade, ele é pressuposto e, portanto, anterior à própria constituição do mundo dos objetos. Ele exige uma outra prática discursiva, em que, por exigência interna, tratou-se não de descrever, apontar, positivar o que ele é, mas, tecendo rigorosamente o fio da experiência e a trama conceitual estabelecida por Freud, aí fazer surgir, no negativo, nos vãos e desvãos daquilo que chamamos nossa realidade, no oco e naquilo que dele ressoa, no avesso do que nos tece ou na estranheza de um mundo pleno demais, fazer esboçar-se aí o lugar de algo que nos suscita, nos constitui e diante do que claudica o significante: nossa palavra é e sempre será tardia ou prematura. Há, nitidamente, no texto, a opção deliberada de nos conduzir, obedecendo na forma e no ritmo, àquilo de que se trata, nesse campo que se perde, nesse campo paradoxal onde não há progresso, não há caminho linear, o movimento é de síncope, fratura, intervalo, escansão, pulsação.

Na verdade, portanto, ao se propor a fazer o inventário dos conceitos freudianos e do modo como eles se estruturam, o que o Seminário produz, definitivamente, é o lugar do objeto da psicanálise propriamente dito. Lacan não perde de vista o caminho de Freud e os princípios científicos que o nortearam. A letra de seu discurso também visa a demonstrar, operando rigorosamente, no manejo e na interrogação dos conceitos. Mas o faz sempre – e isso é que é fascinante – sem perder de vista a natureza desse novo objeto pulsátil que se insinua, está sempre aí, aí mesmo, entre aquele que diz e o que escuta, produzindo essa opacidade que dá à fala essa dimensão de intervenção que ela tem, justamente porque é sempre intervenção na dit-mension, na casa do dito e que portanto se inscreve diretamente em seus efeitos no campo transferencial. “Que se diga fica sempre esquecido no que se diz naquilo que se ouve” é o que está dito no L’Etourdit – porque Lacan disse. Ele não cai nunca na ilusão do discurso sem sujeito com que sonha a ciência, mesmo que esteja, na esteira de Freud, rigorosamente submetido aos cânones que esta prescreve como baliza, às exigências formais de seu discurso. Ele não poderia se limitar a isso porque desde cedo, na práxis que engendrou a partir de Freud e pela qual se deixou conduzir, o que se trata de cernir e transmitir é justamente esse objeto que a própria ciência deixou de lado, ao foracluir o sujeito, para se constituir em A ciência, para constituir a matemática. O que Lacan demonstra em seu percurso – e ao mesmo tempo a isso se submete – é que há sempre um resto na operação significante ou mesmo literal. Mesmo com o uso instrumental do matema, ele mantém sempre presente essa idéia da impossibilidade de tudo dizer. E é justamente por isso que ele vai poder aí desenhar seu objeto a e acabar por nos propor a fórmula o homem pensa com seu objeto, onde não é só a alma de Aristóteles que despenca, mas é a própria realidade psíquica em Freud que balança.

É, então, através de rupturas e descontinuidades que o Seminário se organiza, reproduzindo, na exposição teórica, os impasses em que sempre esbarra o significante ao tentar dizer aquilo que, ao contrário, é pressuposto para que alguém possa dizer o que quer que seja. Trata-se portanto, muito menos de exprimir na adequada exposição didática um pensamento, uma teoria, do que imprimir no corte, a sombra de uma ausência, pressentida nos soluços, tropeços e paradoxos do significante, aquilo que aí falta para que ele permaneça como significante e não se dissolva em signo. É essa falta que precisa ser conservada e que, por assim dizer, não pode faltar, pois é justamente como obstáculo à compreensão que ela pode permitir o pouco de sentido da comunicação. É ela que desenha, a cada vez, no corpo da exposição, mais ou menos matemática, a imposição ao sujeito do objeto com que ele pensa.
b) a estruturação dos conceitos

Lacan avança, portanto, impondo-se a disciplina da ciência, e fundando-se nos conceitos com que a psicanálise se construíra até ali. É submetido a eles, submetido a Freud, que busca trabalhar a necessidade que os constitui e encontrar a razão que os determina. A tal ponto, e com tal radicalidade, que os construtos conceituais que resultam acabam por nos fazer pensar se o que tínhamos em Freud não eram mais operadores, mesmo que absolutamente rigorosos e sem dúvida fundadores da práxis com que ele inaugurou o campo da psicanálise. O modo como Lacan articula o desenvolvimento é tão estrutural na sua demarche que, a rigor, quase pode se dizer que o Seminário poderia ser retomado a partir de qualquer de seus pontos cardeais (qualquer dos quatro conceitos abordados em seu trajeto). Tal é, por um lado, a implicação dos conceitos uns nos outros e, por outro, o ritmo sincopado em que nitidamente se escande o discurso e que a versão escrita, naturalmente, tende a empobrecer.

Por exemplo poderíamos partir da transferência: definida como a mise en acte da realidade do inconsciente, ela introduz, ao mesmo tempo, a dimensão amorosa e aquilo que ela escamoteia, o objeto causa do desejo; ou seja, o pedido de amor e o que ela esconde da dimensão pulsional. Ora ambos, amor e pulsão, são tributários diretos do significante – a linguagem é a condição do inconsciente – e do que ele produz, a repetição do encontro faltoso com aquilo de que tenta dar conta e que sempre lhe escapa.

Se partirmos da pulsão, que é aqui, sem dúvida, pela primeira vez, conceituada enquanto tal, como essa força constante que submete o ser do homem a se realizar num circuito cuja borda cria um exterior que lhe é interno, o objeto que ele tem de mais extimo, veremos que o que a organiza é, já desde Freud, uma certa gramática, proporcionada pelo jogo significante e pela indestrutibilidade do desejo no inconsciente, que só visa ao encontro com o que o causa, ou seja, o objeto faltoso da repetição. Da mesma forma que se demonstra que seu conceito só pôde ser produzido, no campo da transferência: pois foi na cura do neurótico e na análise do objeto transferencial, que Freud pôde pensar e estabelecer o repertório das pulsões.

Se partirmos do inconsciente: se, por um lado, como acabamos de dizer, a linguagem é a condição do inconsciente, não é menos verdade que o significante em causa (seria o caso de dizer), o significante em causa para nós tem sua especificidade, radicalmente diferenciada do significante lingüístico. É certo que o inconsciente se estrutura como uma linguagem. Mas para nós o significante apenas representa um sujeito e por isso se distingue do signo.

É por isso que ele se constitui em cadeia autônoma em relação aos significados. E é por isso que ele cria as bordas da exterioridade extima ao sujeito de que acabamos de falar e em torno da qual a repetição é percurso obrigatório para o sujeito. Ora já está implícito também pelo que foi dito antes que é esse percurso que faz o oco do objeto pulsional que, por sua vez, só pode ser descoberto na análise da transferência.

Essas seqüências evidenciam claramente a implicação recíproca dos conceitos, cujo circuito poderíamos resumir: a transferência é a mise en acte do inconsciente que, estruturado como uma linguagem, se constitui com o significante e pelo encontro necessariamente faltoso que este produz na repetição, que é repetição desse objeto causa de desejo em torno do qual gira a pulsão como se pode verificar na cura pelo movimento da transferência, que é a mise en acte do inconsciente…, ou seja, voltamos ao ponto de partida.

Mas o que é importante ressaltar, também, é que essa implicação recíproca dos conceitos tratados não cai nunca, evidentemente, no que poderia ser uma exposição circular, ou meramente matemática em que os termos se implicam e equacionam de tal forma que excluem o sujeito. Não se trata disso: no discurso, no curso do Seminário, não é assim que se opera, não se passa de modo linear de um conceito ao outro. Se há efetivamente a tentativa de formalização rigorosa dos matemas, uma demonstração da implicação interna a que eles estão submetidos, há, ao mesmo tempo, como vimos no “item a”, a clara intenção de não evitar, a cada vez, o colapso, a ruptura, a descontinuidade. O trabalho do discurso, através de uma espécie de forçagem dos conceitos, visa a produzir, sempre metodicamente, um percurso pelo qual o sujeito é levado, não à construção de uma positividade, mas antes à invenção de um impasse, à produção de um impossível, a uma perda, perda seca, como diz Lacan, pois é o próprio sujeito que cai, é ele que se perde. A cada vez, um ponto de ruptura. Sobressai aí esse ponto ao qual se volta sempre, quase como num refrão. Por oposição ao puro formalismo da ciência, onde o ideal é que se esqueça no dito que, ali, um sujeito disse, aqui o apelo à letra, à máquina formal visa, justamente, de modo paradoxal, a produzir também esse ponto de queda, de perda do sujeito. Daí as dificuldades intrínsecas à abordagem do texto, que não se deixa capturar e que surpreende inevitavelmente o sujeito, a cada vez, nas sucessivas leituras, sempre necessárias ao trabalho de se deixar atravessar pelo que ali se diz. Não há travessia linear possível: e tal como numa função exponencial há sempre a passagem por um ponto limite.
c) pontos de suspensão: a figura do ponto

Falando da operação e do manejo da transferência (lição de 24/06) Lacan diz: “é preciso regulá-los de um modo que mantenha a distância entre o ponto de onde o sujeito se vê e um outro ponto onde o sujeito se vê causado como carência.” Em outro lugar, falando do objeto a diz: “é neste novo termo onde se aloja o ponto que introduz a dialética do sujeito do inconsciente. Este ponto… ponto absoluto sem nenhum saber. É absoluto precisamente por não ser nenhum saber mas apenas o ponto de ligação que une seu próprio desejo à resolução do que se trata de revelar” (lição de 17/06). Referindo-se à psicanálise didática Lacan fala em algum momento de uma psicanálise que completou a volta (a bouclé la boucle) até o fim. Mas, acrescenta logo, a volta tem de ser dada muitas vezes. Esse seria o único sentido a dar à necessidade da perlaboração, passagem e re-passagem pelo mesmo ponto onde se fecha a volta. Por que passar e repassar pelo mesmo ponto? O que significa isso, passar e repassar pelo mesmo ponto? De que ponto se trata nisso tudo? No último parágrafo do Seminário Lacan fala do desejo do analista de obter a diferença absoluta e dessa primeira vez em que o sujeito vem se encontrar em posição de assujeitamento ao significante primordial. Ponto de basta na análise, onde a volta se completaria? Será que essa diferença absoluta seria dada pelo ponto absoluto sem nenhum saber logo acima referido?

São formulações pinçadas aqui e ali no Seminário e onde o que há em comum é a emergência do ponto como significante. Isso chama a atenção, esse ponto que é uma presença permanente no texto. Do começo ao fim do Seminário do que se trata é disso, é sempre da indicação, para o sujeito, de um ponto. E como devemos certamente levar a sério e literalmente a palavra de Lacan, é preciso explorar a insistência desse significante, do ponto enquanto tal, sua pregnância nas mais variadas articulações e marcações do percurso. Em todo caso, é, por assim dizer, um ponto de partida. E de partição.

São muitas, é claro, as acepções do ponto enquanto tal. De que ponto se trata a cada vez? Comecemos pelo mais simples. A própria fala, é claro, só é possível porque, gramaticalmente, há pontos que fazem uma escansão temporal, que ordenam as palavras e o sentido numa sucessão, que introduzem o intervalo. A comunicação, os pontos de vista também só são possíveis porque lugares se instituem a partir de pontos, desses pontos que constituem o espaço como descontínuo. Na verdade, se formos mais rigorosos, até dizer isso já é uma certa incorreção. Porque é só o imaginário que nos permite reconstituir uma continuidade e até mesmo fazer parecer que ela é anterior àquilo que, só depois, teria vindo introduzir o descontínuo. Em todo caso, esse ponto do nosso senso comum é aquele que é definido como a unidade mínima de uma sucessão e que é conceituado e estabelecido na geometria pelo cruzamento de duas retas: o ponto cartesiano.

Mas há pontos e pontos. Porque topologicamente são outras as implicações do uso da figura do ponto. Como vêem, já se passa aqui a falar da figura do ponto. A topologia só trata de superfícies e mesmo o ponto, portanto, tem de ser tratado como uma superfície, como um lugar, o mais simples e irredutível desses lugares, e onde, inevitavelmente, coincidem o espaço, a superfície e a coisa eventualmente aí contida1, o que equivale a dizer que nada aí pode ser visto, dito ou pensado, em si mesmo, nenhuma coisa, nenhuma superfície. Nem mesmo do chamado ponto de vista intrínseco em que é o apelo à motricidade que daria ao sujeito alguma orientação. Pois se o movimento é possível na reta, no plano e no espaço tridimensional, ele não é concebível no ponto. Numa superfície onde o espaço, o lugar e o que ele contém se confundem, deslocamento não há. O ponto enquanto superfície é aquele que tem dimensão zero, que não se pode dimensionar. É, por assim dizer, ponto de impasse e que se torna, pela via paradoxal, essa figura fundamental como operador no discurso. Como se sabe, é sempre através da forçagem, da torção que impõe aos conceitos, que Lacan opera. Essa coisa contida, que se confunde com a superfície que a contém e com o espaço onde esta última está mergulhada, mostra aí que há algo, na figura do ponto, de absolutamente irredutível e que, por isso mesmo, se presta a, por assim dizer, pontuar a descontinuidade como tal, ou seja a impossibilidade lógica de que qualquer resgate pelo imaginário possa apagar o que o simbólico tiver recortado ou furado no real.

Esse ponto, naturalmente, é muito diferente do ponto cartesiano. Ele é de outra natureza: ele não está na natureza, na extensão, não pode mais ser definido por nenhuma geometria. Seu estatuto é topológico. Mais tarde, Lacan vem a falar desse ponto como uma amarração (coincement) de três consistências, substituindo a definição geométrica do ponto como o cruzamento de duas retas. Mas já aí, desde este Seminário, essa insistência, evidente no discurso, do apelo à figura do ponto isso já não antecipa de certa forma essa amarração das três categorias lacanianas, a consistência do real, do imaginário e do simbólico? O espaço como real, a coisa como imaginário e o lugar como simbólico?

O que esse ponto, essa figura do ponto, assim definida, situa como limite, na descontinuidade e no impossível, é o lugar por excelência do sujeito. Lugar de onde ele nada pode dizer ou imaginar, onde só conta e se conta como sujeito barrado. Lugar onde finalmente se encontra com o que o causa, o objeto que ele é, esse ser só objetal, que, por definição, disso nada pode saber. Pois isso constituiria uma contradição nos próprios termos. Antecipo, com isso, desde já, o ponto onde chegarei. O puro corte do discurso, a afânise do sujeito que fala. É possível imaginar isso? Certamente que não. Por isso, para falar do que seja da ordem desse ponto, é preciso escrever, circunscrever. Porque ele é sempre ponto de inflexão, suspensão, ali onde nada mais pode ser dito, justamente para que – e paradoxalmente – um dizer seja possível e que será sempre dizer do Outro, em Outro lugar. O Seminário todo, o que aí se articula é escandido em torno de pontos que assim se constituem. Eles se introduzem, portanto, como operadores imprescindíveis, ressurgem no discurso como passagem obrigatória, passagem de nível onde, a cada vez, o sujeito cai de seu próprio movimento.
II) O INCONSCIENTE E A REPETIÇÃO

a) o ponto da dúvida em Freud e Descartes

Há um primeiro ponto, desde logo, no começo do Seminário, com o qual nos deparamos, no qual já tropeçamos, esse ponto de partida que poderíamos também dizer, é claro, ponto de entrada. Em todo caso, é desde onde Lacan se situa para articular o Inconsciente e a Repetição: o ponto de encontro entre Freud e Descartes. Ambos partiram, diz Lacan, do mesmo ponto, o ponto de queda do sujeito e da emergência da dúvida. É aí, nesse ponto da dúvida que fundaram um ponto de certeza. Porque duvido, tenho a certeza de que penso, diz Descartes, abrindo o caminho para que Freud, dois séculos depois, tivesse a coragem de dizer que ali onde o sujeito duvida há pensamentos, abrindo com isso o espaço de Outra cena, fundando um outro lugar, o lugar do Outro. Mas é preciso assinalar, desde logo, que é aí também, nesse mesmo ponto, que rapidamente eles se separam. Há o desvio de Descartes apontado por Lacan: dar consistência ao ponto onde caiu (ou de onde caiu?), supondo fazer do penso um saber articulável pelo mesmo sujeito – eu penso –, que com isso, se supõe existir, pré existir, desde antes, somente pelo fato de ter sido pensado a partir do ponto da dúvida: condensação do enunciado com a enunciação. O passo seguinte não poderia ser outro, senão o resgate de uma garantia divina, mesmo que isso tenha vindo com a elegância sublinhada por Lacan da fórmula: se dois e dois são quatro é porque Deus quer. Freud, ao contrário, nesse lugar, nesse ponto, disse: aí onde há dúvida há o inconsciente, aquilo que pensa, que pensa em nosso lugar, que nos pensa. Há, portanto, no desdobramento imediato que cada um dá àquilo que ambos ousaram sustentar, a partir de um mesmo ponto – esse mesmo ponto de suspensão absoluta do sujeito, ponto sem retorno, ponto sem dimensão, descontinuidade pura –, há, portanto, essa diferença fundamental, essa diferença que Lacan nos mostra: ali onde Descartes acaba relançando a filosofia, Freud – porque pôde dizer que ali, no inconsciente, o sujeito está em casa (está em causa, poderíamos dizer hoje, ali naquilo que claudica) – veio a abrir um novo sulco no real e fundou uma práxis.

Há, portanto, sem dúvida, no ponto de partida, essa diferença radical e evidente. Mas se ampliamos o desdobramento do caminho de Freud, o que verificamos – a partir dos desenvolvimentos que Lacan pôde introduzir na clínica e na teoria, sobretudo no que concerne ao final da análise –, o que se impõe reconhecer é que, no fundo, Freud acaba, também, por incorrer no mesmo tipo de apelo a uma garantia, no mesmo equívoco, na mesma recaída, a de voltar a substancializar o ponto radical a que juntamente com Descarte tinha acedido (ou sucumbido?): esse ponto de basta, de onde a enunciação pôde se fazer e o ato de criação se produziu para cada um, como fundadores de novos campos do saber. Lacan mostra como Descartes transformou a evanescência do ponto, que criou o objeto d’A ciência, no conteúdo de um enunciado – eu penso, ou seja, eu sei que eu penso –, reportando-se, com isso, de novo, ao significante e ao saber e, portanto, voltando a ter de submeter-se à questão sobre o que o Outro quer de mim. Conhecemos sua resposta: Deus é honesto, Deus não me engana. Mas a verdade é que Freud também acaba por não suportar o que o inconsciente implicava, nos seus limites extremos – que o significante não poderia dar conta de tudo –, vale dizer, não pôde sustentar, na teoria, o que, entretanto, certamente havia feito na sua vida (sem o que, por exemplo, não teria inventado a psicanálise, não teria inventado coisa alguma): o fato de que do pai podemos prescindir e até temos de poder prescindir, à condição de nos servir dele. Observe-se que Lacan não diz à condição de saber se servir. Isso faz toda a diferença. O sonho de Freud foi supor que ele poderia fazer o sujeito aceder a um saber sobre o pai, paradoxo com o qual pretendeu salvar o pai e que veio a se constituir no seu próprio rochedo da castração.

De uma forma ou de outra, ambos, Freud e Descartes, acabam, portanto, vindo a substancializar o ponto evanescente em que a dúvida fundou uma certeza. Ora, essa certeza só se constitui na ruptura e pela descontinuidade com todo saber anterior. Ela não é a certeza que o sujeito fabrica com o significante e que está sempre sujeita a algum questionamento, a alguma dúvida posta pelo próprio significante. Ao contrário, a certeza de que se trata ali é uma certeza que – ela sim – constitui o sujeito naquele ponto evanescente. É o que poderá saber, o que poderá se produzir como saber a partir dela – se ela se mantém como ponto de ruptura – é isso o que, eventualmente, virá iluminar aquilo que antes era obstáculo ao que agora, só depois, emerge do limbo à luz do dia. Tentar apoiar o que de novo se criou nas fantasias do passado é a forma defensiva que o sujeito dificilmente consegue se impedir de construir, por não poder suportar simplesmente o colapso, a fenda, o descontinuo, ou seja, o real de sua ex-sistência, que não pode ser contida em nenhuma extensão – seja Deus, seja um pai fundador que garantisse o significante e onde Freud acabou se encontrando com o interminável na cura. Não há como reconstituir um tecido anterior ali onde um furo se fez. Só na ilusão de um tempo linear e espacializado é que supomos possível uma anulação retroativa que pudesse recompor, reconstituir o tecido rasgado. Ao contrário, a partir do furo, o que há é a figura do ponto de ruptura de onde a possibilidade do ato se coloca. E é de seu advento, disso que poderíamos chamar talvez ato absoluto, ato zero, que outros atos tornam-se possíveis e o mundo pode ser relançado.
b) a causa e uma certa ontologia

A psicanálise, com Lacan, pôde, depois de Freud, definir as reais implicações da dit-mension, a casa do dito. Porque passou a se fundar numa topologia da linguagem, na estrutura significante, descartando o registro do signo. O significante remete sempre ao significante e se constitui como pura diferença. Essa é a diferença do signo para o significante. Ou melhor é exatamente isso o que emerge na passagem do registro do signo ao do significante e que é o que uma análise em última instância deve promover. O signo é signo de algo para alguém. Mas ao oferecer algo, assim, nessa tentativa de preencher esse alguém no momento da emergência do significante, faz, inevitavelmente, dele também, um signo. O significante também se dirige a alguém mas só para remetê-lo a outro significante. O inconsciente é “a soma dos efeitos da palavra sobre o sujeito, no nível em que o sujeito se constitui dos efeitos do significante”. Fica excluída, portanto, qualquer substancialização, seja no nível do pathos ou do logos. O que se designa aí, portanto, é o sujeito cartesiano: aquele ponto que se precipitou e onde, como vimos acima, a dúvida se reconheceu como certeza. O sujeito, com isso, é apenas efeito do dito. Muda-se de registro. Porque o significante se põe como estrutura. E, como tal, não se reduz mais ao remetimento infinito e circular do signo. A estrutura não é sem resto. O significante remete sempre a um mais além. Por isso fica tão claro que a interpretação não é mera atribuição de sentido e o fim da análise não se resolve por nenhuma tomada de consciência, por nenhuma acumulação de saber. Se o significante não pode se significar a si mesmo, só a queda, o recalque de um significante originário (ur) pode garantir o funcionamento da cadeia e isso, graças a esse tempo de constituição do sujeito, como x, como ponto zero. É esse significante primordial, como puro ponto de nonsense, que produz a infinitização do valor do sujeito, diz Lacan. E acrescenta: isso não quer dizer que ele está aberto a todos os sentidos, na verdade o que é fundamental aí é que, com isso, todos os sentidos podem ser abolidos. Daí a função da liberdade. Por isso há dois tempos na estruturação do sujeito. À alienação se segue a separação, onde, ao se confrontar com o enigma do desejo do Outro, o sujeito se constitui, justamente, neste ponto nodal de divisão em que não cabe nenhuma substancialização e onde, ao contrário, o que se impõe é a questão da causa.

A estrutura da linguagem que implica esse lugar topológico do recalque originário – a expulsão definitiva de um significante – define uma certa posição para o sujeito, onde há um ponto de queda que opera a cada vez que palavra há, a cada vez que o sujeito toma a palavra. E que estruturalmente é o mesmo ponto com o qual o sujeito se encontra no final da análise. Por isso persistirá intacta, inalterável e sem efeito a manobra do obsessivo, que se empenha incessantemente em significar e re-significar isso que justamente não é significável e que só o leva a se distanciar cada vez mais do ponto zero, do ponto onde finalmente poderia advir o que é da ordem de um assujeitamento que o fizesse talvez sujeito, vale dizer, o desejo do Outro como tal. O assujeitamento ao significante primordial de que fala Lacan, no final do Seminário e onde poderia surgir a significação de um amor sem limites.

O inconsciente freudiano, portanto, só pode ser pensado como aquilo que faz ruptura: na dúvida, na falha, no lapso… nesse ponto, onde – diz Lacan – entre a causa e aquilo que ela afeta há sempre o que claudica. Já se disse muito o quanto foi surpreendente e admirável que Lacan não tenha hesitado em introduzir a questão da causa e, mais que isso, que tenha feito dela o ponto nodal do inconsciente: aquilo que causa o sujeito, a causa do desejo. Perplexidade para o filósofo. Entre a causa e o efeito, furo, hiância, esse ponto de algo da ordem do não-nascido, diz Lacan, acrescentando que, em seu tempo e através da topologia da linguagem, pôde introduzir aí, no domínio da causa, a lei do significante. É através da incidência desse ponto da ordem do não-nascido, dito pré-ontológico (e Lacan acrescenta que isso já é uma concessão à ontologia, ou “hontologie”, como ele dirá alguns anos depois) que se abre a possibilidade ética do advento aí de um sujeito. Isso, como vemos, nos introduz em outra temporalidade. Lacan fala de um evasivo, que, no entanto, pode ser cernido numa estrutura temporal, porque na ordem do inconsciente, como diz, não se trata nem de ser, nem de não-ser, trata-se do não realizado. Entretanto apesar de ter dito que o estatuto do inconsciente não é ôntico, é ético, e de que do que se trata na estrutura do inconsciente é do pré-ontológico, ele acrescenta o que é ôntico na função do inconsciente é a fenda. Ora, entre, de um lado o não-ser da hiância e o pré-ontológico e, de outro, o ôntico da fenda, na função do inconsciente, há a distância, mais que isso há o tempo de um ato, a distância temporal, a escansão de um ponto, o ponto do dever advir de um sujeito. Se este assim advém, ali no ponto de descontinuidade, ali onde a fenda se apresentou, esta se constitui como tendo sido, estruturando o inconsciente numa função ôntica. Qual é então o estatuto dessa função nesse ponto do inconsciente?

Provocado a falar da ontologia do inconsciente, diz Lacan na lição de 15/04, sobre a causa do inconsciente: não se trata de um ente, nem de um não-ente, um não-ente da possibilidade. Ele é um ente proibido, uma interdição. Ou seja, não se trata de um não-ente da possibilidade, que é sempre factual, hipotético, nos termos de qualquer coisa que poderia ser mas não é. Aquilo que é dito não ser a partir do lugar do ser; da ordem daquilo que o ser postula como, de fato, excluído, mas que poderia ser. Na verdade, do que se trata é de um não possível, não o não-ente da possibilidade mas – aqui pode-se fazer a torção – um ente da não-possibilidade, que como interdição produz um apelo ao ser, leva ao ser um ente, malgrado seu não advento como diz Lacan. Isso não é nada simples, há aí claramente uma dificuldade. A segunda parte da frase, aliás, aponta justamente para o paradoxal que se trata aí de enunciar, pois, na verdade, não haveria como falar de malgrado seu não advento, porque, justamente, esse é um ente que só se constitui por causa disso, desse não advento, que, como interdição, vem a se constituir, diz Lacan, nessa função do impossível sobre a qual se funda uma certeza. Por outro lado, como acabamos de ver, apesar de ter dito que o estatuto do inconsciente não é ôntico, é ético, ele evolui para acabar formulando que o que é ôntico na função do inconsciente é a fenda. Não me parece, portanto, descabido propor – e isso é absolutamente observável nos resultados da clínica – que sempre que o estatuto ético se atualiza com o ato de um sujeito, o ôntico da fenda efetivamente leva ao ser esse ente, malgrado seu não advento, o que nada mais é do que uma outra maneira de falar desse dito impossível sobre o qual se funda uma certeza.
Que o sujeito do inconsciente se constitua, assim, do interdito que leva ao ser um ente malgrado seu não advento, sela um destino em que sua existência ficará para sempre marcada pela referência da lei e, portanto da falta e das vicissitudes que ela toma em função das diferentes interpretações que o sujeito lhe dá. Porque há três níveis em que pode ser pensada a falta. Há, em primeiro lugar, a falta como esse ponto de ruptura onde a repetição institui o encontro faltoso, fato de estrutura, impossibilidade necessária à própria ex-sistência do sujeito barrado. É disso que temos falado até agora. Mas dessa falta, é claro, o sujeito nada quer saber até porque, num certo sentido, nada pode saber. Ele produz, então, uma outra falta, esta imaginária, da qual se ressente e que transforma esse encontro faltoso em mera incompletude, mera impotência, para a qual não hesitará em buscar um autor, um pai imaginário que não soube como fazer as coisas, que não esteve à altura de sua tarefa. Quando não opta pela solução mais fácil, a de se oferecer, ele mesmo, como culpado dessa falta. A língua portuguesa aqui nos ajuda a bem revelar o deslizamento (ou deslize) da falta como privação para a falta como pecado, como culpa. É então assim, entre a dúvida, a dívida e a queixa que o sujeito tece seu destino, por esquecer, por se obstinar em esquecer (é sua vida que ele dedica a manter esse recalque), que, na verdade “não é a lei em si mesma que barra o acesso do sujeito ao gozo; ela apenas – a lei – faz de uma barreira, quase natural, um sujeito barrado”. (Écrits p. 821), ou seja, é o próprio sujeito que deve sua existência a essa barra que lhe é posta pela lei. É da impossibilidade de seu advento, como um fato de estrutura, que se poderia dizer quase-natural – o gozo é interdito àquele que fala – que a lei faz dele um sujeito, embora barrado, destino que o condena a essa itinerância marcada que chamamos desejo. Ou seja, se quisermos simplesmente lembrar de Freud, é a interdição da mãe, pela ameaça de castração, que, na verdade, situa e regulamenta o gozo do exercício sexual, vale dizer, institui o sujeito na função fálica.

Todo o empenho de Lacan, sua preocupação, é para que não se caia em nenhuma substantivação do inconsciente, onde ele identifica um saber que não deve de modo algum ser concebido como um saber a se fechar e acrescenta que o que se trata de perceber, o que há para além – note-se o para além – é o modo como algo do sujeito está por traz imantado num profundo grau de dissociação. Ora, o que é isso que está aí nessa esquize – isso que é como que mutilado do sujeito – e que nenhum saber pode resgatar? Numa outra passagem difícil da lição, isso já tinha aparecido anteriormente, ilustrando já ali a dificuldade em questão. No terceiro parágrafo da parte dois e, muito significativamente, a propósito da presença do analista como uma manifestação do inconsciente, Lacan fala do movimento do sujeito que só se abre para se fechar numa pulsação temporal e acrescenta pulsação que marco como mais radical do que a inserção no significante, que sem dúvida a motiva, mas não lhe é primeira no nível da – surpresa! – essência, já que de essência me provocaram a falar.

Não deixam de ser curiosas essas alusões sobre ter sido provocado. Ora, todos sabem que não é por ser provocado que Lacan se dispunha a falar de qualquer coisa. A rigor, ele sempre ignorou as provocações, salvo quando estas lhe convinham, ou seja, quando lhe davam a oportunidade, nas brechas da transferência, de aí intervir, de avançar, sempre movido pela necessidade interna de seu percurso. O que é que o leva, então, aqui – para introduzir esse estranho mais além, esse estranho objeto que é produzido pelo significante sem que, no entanto, este lhe seja anterior, ao nível da essência –, o que é que o leva a falar de essência, de ente, de ser, como vimos acima e acrescentar, já que de essência me provocaram a falar?

Parece-me que não é só para definir de um outro modo, de um modo mais aceitável, mais acessível, “mais filosófico” para seus interlocutores, a novidade radical que estava introduzindo ao formalizar outro registro, o registro do Outro. Não é só por isso que Lacan aceita a provocação e fala de essência, de ente, de ser, como se estivesse simplesmente aceitando os termos mesmos em que essa provocação se faz. O movimento, a intervenção dele aí, na verdade, parece-me, se dirige justamente ao que é topologicamente interno àquilo de que se trata na questão: ou seja, ao se apropriar dos termos do interlocutor o que ele vem a fazer é revelar o próprio conteúdo do que sustenta a pergunta, o apelo ao ser, a busca de essência, a que está meio condenado todo sujeito. Ou seja, sua resposta teria até, num certo sentido, um efeito interpretativo. Pois é claro que ele não responde à questão filosófica, ele não fica no terreno da filosofia, no nível da essência. Ao contrário, é de dentro do campo analítico que ele retoma a questão, situando-a no seu devido lugar, como puro efeito de estrutura, corolário necessário, inseparável da injunção do sujeito barrado, do sujeito do desejo, do sujeito do inconsciente. Isso mesmo que emerge num registro radicalmente Outro e de que ele fala como se falasse de entes, de essência, mas fazendo isso através da torção que assinalamos antes, é isso justamente o que está já aí operando, o que está na própria origem de qualquer questão sobre a essência: essa tentativa, sempre renovada do sujeito de resgatar pelo significante – vã filosofia – aquilo que, como fato de estrutura, escapa ao significante e se constitui como seu mais além. Foi em referência a uma pergunta (sobre minha ontologia e da qual ele diz: isso veio a calhar) que Lacan pôde introduzir justamente o que é da ordem da função da ontologia, de uma certa função que ela exerce na economia do sujeito e que ele tenta abordar ressaltando aquilo que aponta para o que poderíamos chamar uma ontologia perdida – o inconsciente não é ôntico, é ético –, esse ôntico da fenda, que se insinua como constitutiva do sujeito. Esta é a questão fundamental: a razão para estar falando de essência, de entes, como antes falou de não-realizado. Tratou-se aí, justamente de introduzir, de falar desse mais além, disso que está por traz da janela – a bela – , atrás de quem o significante correrá sempre, instituindo a função do fracasso no centro da repetição analítica. Se o sujeito se constitui no e pelo significante, se é verdade que é, como vimos, o próprio significante que possibilita a referência a um mais além, é preciso não esquecer que esse mais além institui o campo do Outro, definitivamente irrecuperável para o sujeito, e que o coloca numa divisão, numa suspensão irredutível. Que essa falta o reduza a esse ponto evanescente, essa figura sem dimensão do ponto, implica que sua ex-sistência esteja marcada por uma pulsação e por um subproduto, essa permanente nostalgia de um outro gozo, de um gozo do ser perdido, do objeto perdido, de algo que lhe garantisse um pouco mais do que a dura intermitência do desejo. Tudo isso indica como a ontologia, ou a religião, como o apelo ao ser, são muito mais do que uma mera especulação supérflua de filósofos e místicos, elas são parte integrante, constitutiva do sujeito que busca, tem de buscar no espelho do imaginário algo que lhe dê alguma extensão, algum suporte. Que Lacan portanto se aproprie dos próprios termos em que a filosofia o interroga, mas para lhe responder de um outro lugar, isso re-situa a própria função desses termos em que a questão foi formulada e nos faz entender melhor que Lacan fale de uma essência outra, anterior, como se essência existisse. Qualquer coisa assim como uma quase-essência do Outro, poderíamos dizer, talvez. Embora motivada pela inscrição do significante, o que se produz aí, mais além, é uma pulsação mais radical e que tem uma anterioridade lógica, uma quase essência anterior e que não pode, portanto, ser dissolvida, nem reabsorvida nem resgatada pelo significante.
III – A TRANSFERÊNCIA E A PASSAGEM PELO PONTO PULSIONAL.

Todo significante é diferente de si mesmo. É essa diferença de si mesmo que constitui para o sujeito o ponto do encontro faltoso e que gera para ele a pulsação a que está submetido. Que ele tente escapar a isso, que tente sempre resgatar pelo significante e pela construção imaginária aquilo que cai a cada corte do real, é inevitável, mas só o aliena sempre mais. Pois o pouco de sentido que daí resulta, que aí se recupera não basta para devolver ao sujeito seu signo e o mantém na errância, no movimento indestrutível do desejo. Por isso o campo freudiano é um campo que se perde. Essa é a sua diferença: é que é a diferença que o constitui como campo. É disso que se trata no que está em causa no inconsciente. E é a esta causa que Lacan quer introduzir para produzir o conceito de transferência. Percebe-se aí, então, portanto, o movimento do aparelho conceitual, que pode ir além da mera redução da transferência a um avatar da repetição. Os conceitos são solidários, diz Lacan. Se a transferência tem a ver, sem dúvida, com a repetição, como Freud percebeu e identificou em sua fenomenologia, seu conceito mesmo só veio a ser diferenciado por Lacan, que pôde isolar o objeto que está em questão e dar conta do real em jogo – aquilo que ele chamou a presença do analista. A partir daí foi possível ver mais claro sobre o estatuto, o lugar, a função de seu testemunho, o que veio permitir a identificação da dupla posição que ele ocupa, na cura, de sujeito suposto saber – como diz Lacan todos nós acreditamos em Deus – e a do lugar de objeto causa do desejo. Mas isso só foi possível, só se pôde identificar essa presença do analista e o objeto da transferência, justamente porque, a partir do conceito de significante, foi o próprio estatuto da repetição que pôde ser estabelecido, como se viu na primeira parte: a repetição é sempre o ponto de repetição do encontro faltoso. É essa a causa perdida, aquela que constitui esse oco, esse ponto nodal onde se pode produzir o analista como objeto a. É isso que permite dizer que a presença do analista faz parte do conceito do inconsciente.

Ao contrário do que se pensa vulgarmente – e não tão vulgarmente assim (é incrível como é difícil se liberar desse engano) – a interpretação não é ganho, nem, como já dissemos antes, atribuição de sentido. A análise é sempre perda de sentido, sucessão de perdas que faz série e que o analista não só testemunha, como induz, causa, escande com sua presença, nesse ponto nodal que suspende o sujeito e mantém a pulsação. Aquele pedido que se revelou, a dimensão amorosa, o amor do saber, a busca do sentido, tudo isso no falasser é o movimento natural do sujeito e é o que tem de ser barrado na cura, produzindo a sucessão de perdas que resulta da intervenção do analista diante da transferência. O trabalho de liqüidação, de que se falava como se fosse o resultado do fim da cura, não é liqüidação da transferência, é um trabalho permanente de liqüidação de sua dimensão amorosa, e que deve produzir para o sujeito esse ponto de fratura no ideal em que ele se sustenta, fazendo-o cair no circuito pulsional, nesse nada que ele circunscreve para retornar sempre ao ponto de partida – partição do sujeito – como na linda imagem de Freud da boca que se beijaria a si mesma.

Mas só pode haver perda, é claro, daquilo que se apresenta. É preciso portanto que o sujeito se deixe levar pela associação livre, que ele se faça tolo diante do significante, para que aí se produza exatamente o que ele tem que perder. Aí se situa uma diferença importante a sublinhar na análise do movimento defensivo da histérica e do obsessivo. Enquanto na primeira é uma profusão, um excesso de sentido que se apresenta na cena, tudo é pleno demais, no outro, ou sua fala se esvai sem intervalo, na busca redundante do sentido do sentido, ou se reduz à elipse, à evasiva, manobra preventiva com a qual desdenha de antemão de todo sentido e com a qual, na verdade, se defende do que mais teme: a divisão, aquilo que o corte no real, a intervenção do analista engendra.

Lacan, já anteriormente, havia falado de presença, mesmo de presença real, referindo-se, no Seminário A transferência, por exemplo, ao Falo, como o ponto de basta que interrompe o fluxo interminável dos signos. Era o modo como conceituava esse significante especial, o único diz ele que merece, em nosso registro, o título de símbolo e que eu designei como símbolo no lugar onde se produz a falta do significante. Ora, o que quer dizer que um significante falte? Nada falta na bateria significante em si mesma. O que se mostra aí nessas passagens, é que, na verdade, elas já apontam inequivocamente para este ponto irredutível que se constitui para além do significante e que só a construção do objeto a no Seminário A angústia e sua articulação no Seminário Os quatro conceitos veio a estabelecer de forma definitiva. Que a presença do analista, definida como parte do conceito do inconsciente, venha agora circunscrever esse objeto como motor da transferência, é o que já estava inscrito, portanto, desde antes, na lógica do discurso. Esse ponto crucial, que já se evidenciava como operador e que, na conceitualização definitiva da transferência, se mostra de modo absolutamente articulado. Há a dimensão amorosa: é pelo ideal do eu que o sujeito barrado se vê capturado no pedido de amor – ponto de onde o sujeito quer ser visto como amado, ponto de vista, portanto, e em que o especular se acomoda perfeitamente no foco da visão, no registro do ponto geometral. Mas há outro ponto, o ponto no Outro, não especularizável e que resulta de uma topologia, a da dimensão pulsional, em que o sujeito desaparece afanisado pelo objeto. Para situar a heterogeneidade desses dois pontos e ficando no registro da pulsão escópica, já que falamos de ponto de vista, poderíamos dizer que há, de um lado, como dissemos, esse ponto onde o especular se insere numa geometria da visão e responde ao pedido de amor e, de outro, há aquilo diante de que o sujeito desfalece e pelo qual é menos conduzido do que causado, o ponto do olhar. É aqui que o sujeito tem de reconhecer seu assujeitamento, nessa espécie de auto mutilação da qual não pode escapar – o estatuto do inconsciente é ético –, pois é a única possibilidade que ele tem de fazer desse desfalecimento, dessa hiância, um ponto, ponto zero – o ôntico da fenda? –, o ponto absoluto de que estamos falando desde o início, esse único ponto onde o impossível pode fundar uma certeza.

Trabalho publicado na Revista Tempo Freudiano No 1, maio de 2002:
O Seminário de Lacan: travessia – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise

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