Ensino em Cartel

Este ano, o Tempo Freudiano introduzirá uma experiência nova no modo de organizar o trabalho de ensino e transmissão.
Até aqui, temos funcionado, nas Oficinas, em torno do binômio ensino– cartel como espaços diferentes. Ou se privilegia um ensino temático na oficina, a partir do qual se formam os grupos e cartéis, ou são os pequenos grupos e cartéis que se reúnem e fazem da oficina o lugar de endereçamento de seu produto. No primeiro caso, com frequência, a oficina acaba se transformando em ensino propedêutico, por parte daqueles que, mais qualificados, ali tomam a palavra. No segundo caso, ela tende a se transformar num encontro pontual de cartéis, sem chegar a se constituir num lugar mais permanente e fecundo de trabalho. Ou seja, nos dois casos, o tempo do ensino e o trabalho de cartel estão separados.
Em 2009 faremos de um modo diferente. Vamos introduzir o Ensino em Cartel. Vamos submeter o tempo do ensino ao trabalho do cartel em sua incidência estrutural, à transmissão que aí opera, tal como está posta por suas exigências formais, que implicam as noções de ato e de sujeito. E na qual lógica e ética não se excluem. Enquanto operador lógico, o cartel visa a encaminhar uma modalidade específica de produção de saber, de um saber barrado, marcado pela incompletude, e onde é o real que é suplementar. A categoria crucial que sustenta essa produção e distingue o cartel de um grupo é a noção de “mais um”, operador que impede a totalização, isto é, a possibilidade de o saber absorver o real.
Vamos criar, então, os Cartéis de Ensino. Para cada campo em que se divide a psicanálise, haverá, na respectiva Oficina, um Cartel de Ensino, composto por aqueles que já tenham dado prova de que podem sustentar esse lugar. É um cartel que trabalhará normalmente, como todo cartel, tal como está posto pelo conceito: alguns, mais um, operam, cada um com seu próprio objeto, dentro de um tema comum escolhido. Mas será um cartel aberto, que funcionará e trabalhará na presença dos integrantes da Oficina. Não há nele nenhuma alteração no seu funcionamento interno. É só por acréscimo, de viés, que esse trabalho interno, por ser público – o que cria outra borda –, estará produzindo ensino, para outros, presença externa interior à Oficina.
Conversa em diagonal onde a palavra dita a terceiros vira fragmento e pode minar, driblar a resistência de quem ouve, e mudar a voz de quem fala, dificultando o movimento circular próprio ao diálogo, à interlocução e suas aporias em torno do mesmo. Aqui, o corte dentro – borda interior – faz fresta, vazio e visa à heterogeneidade de espaços, ou seja, a criar um ensino submetido à transmissão. O Cartel de Ensino, por ser aberto a um público interior, implica, para cada um de seus membros – a responsabilidade é singular –, a presença mais forte do Outro, no que vem a ser, num certo sentido, uma acentuação na função do “mais um”. Ensino, portanto, em pura perda, a fundo perdido: pois é do que fica ressoando, como resto da palavra enunciada, é só daí que poderão surgir efeitos de transmissão para aqueles que aí constituem público como presença. Toda palavra só chegará de forma oblíqua, partida, obrigando cada um a uma certa torção em sua escuta, o que certamente não facilitará a mera incorporação do homogêneo, do saber pronto. Ao contrário, naquilo que é dito ao Outro, aí os presentes estarão convocados a dar de si, a trilhar, nesses fragmentos, alguma enunciação no seu próprio ato de ler, de escutar.

Antonio Carlos Rocha

 

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