Será que podemos dizer com Lacan que a mulher é o sintoma do homem? (fragmento)

Certamente, vocês conhecem o artigo de Freud sobre a feminilidade. É um artigo que é, evidentemente, cheio de preconceitos que nós vamos tentar tratar. Que preconceitos? Freud diz que uma mulher é constituída como um homem, ou seja, que ela está ligada ao mesmo falicismo, mas que para realizar sua feminilidade, ela tem que renunciar a uma parte de sua virilidade e deslocar uma parte de seu erotismo do clitóris para a vagina. Eu não sei muito bem como uma mulher deveria fazer para seguir as prescrições de Freud, mas, em todo caso, o que é notável para Freud, é que uma mulher é simplesmente um homem diminuído, uma vez que ela renunciou a uma parte de sua virilidade. Seu gozo é deslocado para um outro lugar anatômico, mas permanece um gozo inteiramente fálico. Ou seja, Freud cai em cheio em nosso sintoma que quer que a mulher seja de um falicismo ao menos igual àquele do homem. Como vocês sabem, esse problema da vida conjugal deu origem a numerosos reformadores, numerosos utopistas e numerosos movimentos sociais que reivindicam uma evolução cultural para resolver o problema. E nós sabemos que nenhuma dessas reformas pôde se mostrar satisfatória, e há pouco, ao começar, eu lhes disse que há dois campos nos quais homem e mulher são infelizes: o primeiro é aquele da vida conjugal, o segundo é aquele da vida política. Da mesma forma que nós não conhecemos vida conjugal feliz, nós não conhecemos vida e sociedade política feliz.

Questão: por que, malgrado os esforços de pensadores importantes e corajosos, por que esses dois campos – o da vida privada e o da vida pública – permanecem tão insatisfatórios? A resposta, se nós somos freudianos e lacanianos, nós a conhecemos, é que se trata de problemas de estrutura, e que é preciso, primeiramente, conhecer a estrutura em causa para saber o que é possível com ela e o que é impossível, quer dizer o que é utópico. Vou dizer-lhes meu sentimento, é que… pela forma como as mulheres são tratadas, porque é claro que até hoje é um nível primitivo e arcaico e uma das questões de nosso encontro, hoje, é a de saber se nós vamos ser capazes de pensar essas estruturas que estão em causa.

Eis, portanto, eu diria, o interesse dessa questão provocadora de Lacan que diz que a mulher é o sintoma do homem. E ele acrescenta: o homem para a mulher é uma devastação. Vocês vêem que não se trata de uma igualdade perfeita, o sintoma de um lado, a devastação de outro, e é isso, pois, que nós vamos tão logo tentar compreender, colocando a questão do amor entre parênteses.

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