Lógica da ciência, formalismo e forclusão do sujeito*

Francisco Leonel F. Fernandes e Fernanda Costa-Moura

A ciência está presente em nossas vidas de inúmeras maneiras, que ultrapassam muito o âmbito do conhecimento. Nosso mundo hoje é povoado por gadgets[1] que são inteiramente tributários do progresso extraordinário da ciência. Trata-se de uma nova forma de aparecimento do objeto que concretiza o saber articulado cientificamente e que nenhum processo “antigo” de fabricação, orientado simplesmente pelas práticas e valores da cultura, teria sido capaz de produzir (LACAN J. , 1969-70/1991, p. 184). Mas não são apenas o conhecimento e a realidade que a ciência transforma. Sua marcha incide também, diretamente na linguagem, impondo-lhe certos modos operatórios que acarretam remanejamentos importantes no plano dos discursos.

O presente trabalho visa discutir a incidência da ciência na contemporaneidade não tanto pelo viés das novas condições de vida social daí decorrentes, mas pelas próprias transformações que a ciência impõe à linguagem como campo a partir do qual o sujeito se constitui. Trata-se de examinar, a partir de uma perspectiva psicanalítica, a conseqüência das operações de formalização da linguagem que estão na base do curso da ciência – na correlação que tais operações mantêm com o funcionamento social contemporâneo e tendo em vista a questão da sustentação do lugar do sujeito no discurso.

Algumas premissas orientam tal proposta. Em primeiro lugar o fato, já assinalado por diversos autores (KOYRÉ, 1966a/1985; 1966b/1986; KUHN, 1970/1998; LEBRUN, 1997) de que a matematização que deu origem à ciência moderna não implicou apenas, como se costuma pensar, a substituição de uma linguagem antiga (linguagem da natureza ou aristotélica) por outra (a linguagem dos caracteres matemáticos de Galileu) e sim, uma radical alteração de toda nossa relação à linguagem. Além disso, a suposição de que esta alteração tem implicações diretas para a sustentação da presença do sujeito no campo do discurso. Tal implicação foi assinalada por Lacan e materializada na tese da forclusão do sujeito pela operação da ciência (LACAN J. , 1965-6/1998). Tese que fundamenta ainda os outros dois pilares nos quais este trabalho propõe sustentar-se: a noção de sujeito do inconsciente como o que se constitui, a partir dessa forclusão, como o resto (pontual, heterogêneo e no entanto ineliminável) da operação da ciência; e a concepção da ciência enquanto operação discursiva que nunca deixa resto zero e se define justamente pela impossibilidade de seu esforço de suturar o sujeito (fazê-lo desaparecer sob suas coordenadas).

Lacan introduz essa via de reflexão, de forma sistemática, desde o seminário A identificação (1961-2), quando se esforça por caracterizar a lógica do significante demarcando-a da lógica clássica – num empenho que percorrerá toda sua obra. Hoje portanto, partindo de um levantamento bibliográfico e análise do que foi articulado por Lacan e por autores como Melman (2002; 2004; 2008), Lebrun (1997; 2001), Lacôte (2004) Garnot (2004), Chemama (2002; 2007) e, especialmente, Sampaio (2000a; 2000b; 2001), entre outros, é possível identificar os remanejamentos discursivos correlatos à incidência dos modos operatórios da ciência. Neste trabalho buscamos evidenciar, sobretudo as manobras formais através das quais a ciência transforma a linguagem desde seu interior.

Dentre tais operações destacaremos especificamente, e por razões que exporemos a seguir, a tentativa de redução da linguagem à lógica de 1a ordem e à teoria dos conjuntos, como indicador privilegiado para uma análise da operação da ciência e de seus efeitos no campo do sujeito. Examinaremos especialmente, sob este ponto de vista, o destino que tem – face à algebrização crescente imposta pela ciência – a dimensão significante da linguagem. Vale dizer: aquela dimensão da linguagem que não se reduz às leis algébricas de grupo; que é a própria subversão destas leis. Dimensão que sustenta a subjetividade na medida em que suporta a ação operatória da diferença (e não a anulação da mesma).

Com esta reflexão como guia, almejamos reunir subsídios para interrogar que representantes (ou que possibilidades de representação) nossa contemporaneidade atravessada pela ciência pode oferecer à subjetividade, e mais amplamente, que efeitos a ciência tem produzido em termos da sustentação – ou não – da possibilidade de que um sujeito advenha em ato, responsabilizando-se por seu desejo.

Discutiremos aqui três aspectos do funcionamento ordinário da linguagem que são completamente alterados pela incorporação das codificações científicas. Isolaremos estes aspectos – tentando indicar suas conseqüências para o laço social – e em seguida procuraremos demonstrar o aspecto formal dessas restrições. Veremos assim, que elas se constituem por uma espécie de domesticação, ou anulação da ação dos operadores identitários[2] da língua. Dado que estes operadores realizam justamente a função de demarcação do (lugar tenente) sujeito na linguagem, pode-se aquilatar o efeito de tal encaminhamento para a operação de representação do sujeito na linguagem. Esperamos deixar patente que o tratamento “científico” da linguagem implica necessariamente algumas manobras através das quais se recalca as estruturas de linguagem que respondem pela subjetividade. Com a conseqüência exorbitante de anular a possibilidade desta última se medir aos seus próprios atos.

Em primeiro lugar isolamos o efeito de apagamento da dissimetria radical presente na linguagem, produzido na substituição do sistema significante (sustentado na diferença) pela axiomática matemática (que se constitui pelo movimento automático de proposições que se sucedem a partir da aplicação de regras aparentemente “sem comando”).

A seguir destaca-se a tendência de redução da linguagem ordinária (multifacetária) à lógica binária (especialmente a lógica de 1a ordem e à axiomática da teoria dos conjuntos) no uso e entendimento que a ciência promove do funcionamento da linguagem.

Finalmente ressaltaremos o fato – prenhe de conseqüências – de que a emergência da ciência esvaziou a eficácia da palavra na ordenação do laço social. Vejamos de que forma e em que condições tais efeitos são acionados.

Um laço sem sujeito? 

Sabemos hoje que a ciência não tem compromisso nem com o vivo, nem com a cultura. No discurso científico, diz Lacan (1972-3/1975, p. 37) “não há mais o mínimo mundo”. Se a ciência perpassa os problemas humanos, isso não significa que ela se comprometa com eles a ponto de limitar sua atividade neste escopo. A atualidade tem demonstrado não existirem razões exteriores à própria ciência que efetivamente restrinjam seu curso[3]. As alegações de que a ciência produz o bem para humanidade não resistem à observação mais trivial: até hoje, nenhum experimento que ofenda o que quer que seja admitido como essencial para a definição de espécie humana deixou de ser realizado. As experiências genéticas, com armamentos, a informática, etc. não deixam dúvidas quanto a isso.

Por outro lado, a realização da marcha da ciência é inseparável da infiltração de seus implícitos na ordem social. Até o advento da ciência moderna, como diz Koyré (1962/1998) o mundo era fechado e ordenado pelo sentido. Para que a ciência transpusesse os limites do mundo fechado e o universo se apresentasse escrito em caracteres matemáticos foi necessário que a matematização pudesse ordenar o real, constituindo-o; em lugar de simplesmente se aplicar a ele. A matematização não fornece apenas inteligibilidade. Ela arranja interiormente a ordem do fenomênico – e mais importante – ela o faz sem requisitar o recurso da representação. Introduzindo o mundo numa rede de cálculo que possibilita equacionamentos independentes das diferenças qualitativas (sensíveis) envolvidas (HENRY, 1998).

É importante ressaltar que os efeitos dessa manobra não se restringem a um ganho de saber. Há vários efeitos que emergem, inseparáveis da matematização do real. Em primeiro lugar, o matemático, e não mais o sensível, se oferece como o real. Não é a matéria sensível que, como uma superfície recebe a precisão matemática como roupagem, pois matematizar não consiste em quantificação, em mensuração simplesmente. Pelo contrário, a matematização trata de expulsar do real todo dado sensível, toda diversidade que seja irredutível como tal. Vê-se por aí por que a matematização extrapola a matemática e tende a substituir até a matéria que ela deveria regular. Por sua rede estabelece-se um real que prescinde da semântica e cujos problemas e impasses – longe de convocarem o ato do sujeito para seu desdobramento – podem ser remetidos ao jogo sintático próprio ao cálculo. Campo que não deve sua justeza ou exatidão senão ao respeito por um certo número de regras formais que independem do conteúdo dos enunciados em questão e, também, de qualquer enunciação.

Estamos aí muito longe do real tal como é definido por Lacan, através de uma das categorias da lógica modal, como impossível. Impossível que emerge, aqui e ali derrogando nossa pretensão cientificista, de tudo regular. Tomado não mais como em Aristóteles (como aquilo que não pode ser), mas sim como “o impossível é o real”. Aquilo que “não cessa de não se escrever” (LACAN J. , 1972-3/1975, p. 55) e que é o correlato antinômico e necessário do que a ciência escreve como regularidades; do que “não cessa de se escrever” (idem). Por isso mesmo, de forma alguma podemos confundir o domínio em que realmente a ciência opera, com o simbólico tal como o entendemos a partir de Lacan. Trata-se antes, daquilo que Lacan nomeia como “função do escrito” (1972-3/1975, p. 29 e segs.) – e que perfaz um real que ex-siste ao mundo. Vale dizer: um real que não permite nem unidade, nem sentido.

O real concernido pela ciência e obtido da formalização de suas operações impõe esse distanciamento necessário do plano das representações, plano que requer a interpretação, sempre forçosamente aproximativa. Efetua-se deste modo a substituição de um mundo alfabético, nuançado – para o qual se poderia tentar encontrar um sentido – por um saber “numérico” que pode ser acumulado. Um saber que sustenta uma pretensão universalizante no sentido de valer para todos, de deter a boa resposta para todos e poder prescrever nosso bem[4]. Mas ao qual não somos mais chamados a dar sentido (o que implica em que estamos, como sujeitos, foracluídos deste saber).

Neste sentido se pode dizer que a matematização da ciência traz consigo não somente a exatidão, mas também aquilo que poderíamos chamar de tentação formalista. Tal tendência, inerente à formalização da ciência deve-se ao caráter não representacional das formas matemáticas. A matematização da ciência tem esta inclinação – ou o efeito – radical de fazer da matemática tudo, de identificar a matemática ao real. Excluindo de seu campo tudo o que daí para frente aparecerá como mero resíduo (metafísico, religioso, subjetivo) do processo de formalização do real que vigora na ciência. E implicando, inevitavelmente, um apelo ao descarte daquelas questões – sobre o ser, a causa, a verdade – que insistem em não se medir pelo passo da ciência e exigem o posicionamento do sujeito; em prol do poder e da rigidez implacável do número e do formal.

Como conseqüência, temos a emergência de um novo imperativo: a “certeza matemática”. Mandamento moderno, correlato da passagem do modo de legitimação das asserções, da autoridade – definida a partir do lugar e função de quem profere – para o autoritarismo (Lacan diz “tirania”[5]) do saber. Saber aí designando o saber autônomo, formal, definido e validado unicamente em função da coerência interna de seus enunciados. O novo imperativo vigora atrelado ao projeto científico de erradicação do conflito através da “numerização”, da abolição da questão sobre o sentido e, neste roldão, do lugar do sujeito. Por outro lado esses efeitos são oriundos da própria formalização matemática e dispensam completamente a ideologia, como veremos adiante.

Com o nascimento e a hegemonia da ciência moderna nasce também uma modalidade de laço social que não é mais ordenado pela palavra, pelo dizer, e sim por um saber acéfalo, um saber de enunciados. Um conjunto estanque de verdades – que substitui a relação do sujeito à palavra (de alguém, do Mestre, ou mais amplamente, da cultura) por uma relação direta do sujeito ao saber. Lacan o consignou no matema do “discurso do Capitalista”, que ele chama o “mestre moderno”: uma variante do discurso do mestre que seria o colapso deste; o onde o mestre recai no lugar da verdade como comando recalcado e o sujeito se eleva para a posição de agente numa relação direta e curto circuitada com o Saber (LACAN J. , 1969-70/1991, p. 34).

Neste sistema, não é estranho que o sujeito não encontre mais nenhum significante que possa vir representá-lo. Lacan (1955-6/1985; 1969-70/1991) observa a ciência demarca no mundo significantes que se organizam, que respondem a leis, sem estarem relacionados a um sujeito ou a uma essência que se expressaria por seu intermédio. A formalização e virtual redução da linguagem à lógica dissolvem, por assim dizer, a soldagem entre o significante e o sentido que era articulada desde sempre pelas diversas culturas. De modo que, ao mesmo tempo em que a ciência promete (implícita ou explicitamente) nos emancipar pela razão, livrar-nos da religião e da referência a um pai fundador cujos desígnios incompreensíveis temos que seguir; quando almeja emancipar-nos de todas as impurezas que habitam nosso saber enquanto ele é do Outro e acena com a redução de todos os fanatismos, as superstições, as crenças e a substituição dos mesmos por um saber unívoco, sem falhas, numérico, evidente, incontestável, a ciência libera, no mesmo golpe, o significante para o seu jogo literal. A partir da ciência o campo do significante não será mais o das letras hebraicas onde subsistia a presença de Deus, mas sim o das pequenas letras intercambiáveis; definidas a partir da ordem de suas comutações. Paradoxalmente trata-se do mesmo significante que, exatamente por não ter significação fixada, constitui a “instância da letra” (LACAN J. , 1957a/1998, p. 496 e segs.) que Freud encontrou – compondo o sonho e constituindo o sintoma em sua equivocidade – e cuja função de representação do sujeito ele restituirá, no interior do campo psicanalítico.

De qualquer modo o sujeito, como diz Lacan depois de Freud, perdeu sua casa e está em exílio, forcluído da rede simbólica (LACAN J., 1965-6/1998). É aí que a rigor podemos falar de um sujeito que emerge como sujeito da ciência. E é preciso que se diga que o sujeito da ciência é uma hipótese de Lacan – não é uma preocupação da ciência. Uma conseqüência tirada por Lacan de sua aguda reflexão sobre a ciência guiada por uma perspectiva cujo ponto de convergência é uma injunção ética colocada por seu lugar como psicanalista.

Lacan (1965-66 – lição de 01/06/66) diz que a ciência forclui o sujeito – referindo-se ao termo jurídico que remete à impossibilidade de integração (ou reintegração) de um dado termo de uma operação uma vez que seu ciclo se complete. E referindo-se também ao termo utilizado por ele para traduzir o alemão Verwerfung empregado por Freud para designar o modo de defesa próprio da psicose. Onde o sujeito, ao tentar livrar-se de uma idéia que o acomete, acaba tendo que arcar com o ônus do seu retorno – não como sonho ou ato falho que poderiam ser remetidos ao registro simbólico da experiência, mas como “retorno desde fora”; retorno (no) real, jamais inteiramente simbolizável. Quando Lacan fala então de forclusão do sujeito pela ciência é neste sentido de uma caracterização do modo específico de exclusão promovido pela ciência e o jogo do capital – sem deixar de implicar o efeito de retorno que pode advir dessa operação, que é fundadora da ciência e característica do discurso.

Podemos divisar esse sujeito, quando não podemos mais espelhar nossas questões na experiência coletiva da cultura (e mais radicalmente, no cosmos) e temos que arcar com a responsabilidade inédita de construir nossas referências e saídas singulares, à revelia de nós mesmos, de nossos ideais e conforto, e da ordem social ou familiar. Em tais circunstancias, se temos alguma possibilidade de nos reintroduzirmos como sujeito em nossos ditos, será freqüentemente como negatividade: lapso, sintoma, ato, enunciação. É este sujeito, que subsiste apenas como ponto de fuga, que o discurso psicanalítico concerne. E é este também o sujeito que a ciência tenta reintroduzir no cálculo. O que, no contexto das sociedades capitalistas, significa reduzi-lo ao cálculo da demanda.

Assim, vemos que a mesma ordem significante que dá lugar ao sujeito numa certa relação a sua enunciação e ao desejo constitui a ciência e também a ordem discursiva. Esta última possibilita que o laço do sujeito com o Outro não deságüe pura e simplesmente na barbárie que habita a lógica do significante. Pois esta lógica não tem nenhum compromisso a priori com a identidade, com a vida (nem com a vida natural, nem com a cultura). A ciência por sua vez, o Outro dos efeitos possíveis do significante, vai trabalhar com a entropia gerada pelo próprio funcionamento significante, para domesticar sua incidência, reduzindo-a a um dos efeitos da diferença, que é seu decaimento em identidade, na “monotonia” de uma variação que tende a ser nula. Daí decorrendo, no limite, o banimento do sujeito enquanto referido ao desejo.

Mas será possível conceber um laço forjado a partir de um desdobramento tal da lógica significante que abole a si mesma enquanto condição de possibilidade para os laços sociais? Lacan (1955-6/1985) identificou desde sempre, por ex., na clínica das psicoses, um fracasso do discurso, interno à própria lógica significante. Esta clínica mostra que o significante pode trazer como conseqüência paradoxal de sua realização em determinado sujeito, sua própria abolição. Demonstrando que o significante não tem um compromisso intrínseco e inelutável com sua própria manutenção, que ele pode muito bem articular seu próprio fim e limite. Implicando nisso a economia da ordem do discurso, que permite ao sujeito atar-se à vida, e um compromisso com a pulsão de morte. Se essa pretensão é formulável e, até mais do que isso, ensaiada no âmbito dos laços sociais, isso definiria um limite e uma possibilidade de abolição desse laço, interna àquilo mesmo que o torna, por outro lado, possível.

Podemos ver na incidência da ciência na cultura e de maneira mais ampla nos rumos em curso no capitalismo atual, o terreno onde se trava – em instâncias sempre problemáticas, provisórias, dependentes do ato e da enunciação – este combate na atualidade.

Operação significante e leis de grupo 

O aspecto formal em jogo nessa infiltração dos efeitos da ciência na ordem social está no fato de a ciência acionar estruturas algébricas – neutralidade simétrica, fechamento e associatividade; veremos o que esses termos significam a seguir – que abolem a efetividade das dissimetrias e encerram a linguagem num campo de operações reversíveis. A prevalência destas estruturas modifica diretamente a linguagem ao fixar valores sintáticos e semânticos que realizam uma manipulação (quiçá, a mais eficaz) que não é (meramente) ideológica e atinge a própria forma do campo do discurso; com a conseqüência de um controle estrito da pragmática e de toda gama de efeitos de linguagem que ordenam a vida humana.

Vamos tomar em consideração cada elemento listado. Iniciamos pela simetria do elemento neutro.

Sem fazer recurso a formalismos mais avançados resumimos como segue, o axioma que introduz o elemento neutro: a*0 = 0*a = a. Escrevemos o elemento neutro como zero e afirmamos que qualquer coisa operada com o elemento neutro – o signo * simbolizando uma operação genérica – é igual à operação desse elemento neutro com essa qualquer coisa, que por sua vez é igual a essa coisa ela própria[6]. Outra maneira de dizer isso, espacializando a formulação, é afirmar que tanto faz colocarmos o elemento neutro à esquerda ou à direita; pois o resultado da operação é o mesmo (o propalado dictum “a ordem dos fatores não altera o produto”), ou seja: o resultado é a própria coisa que está sendo operada com ele.

O zero traz implícito em sua função histórica (KAPLAN, 1999) a transcendência – a “origem” mítica (nas sociedades a-históricas) ou ex-nihilo (explicitada pelo judaísmo/cristianismo, nas sociedades históricas) das coisas. O fato de cada coisa, no limite, em sua conformação fenomênica, espaço/temporal já aparecer como superação de um nada absoluto – a eterna presença, encenada no mito – ou ter nascido do nada pela vontade de Deus (idéia cristã de criação).

Se fizermos valer o nada como essa diferença pura e absoluta, temos que introduzir algo que marque a profunda dissimetria que existe entre isso e uma coisa já instalada em sua identidade, já conforme a si mesma, já dizível numa predicação qualquer – uma coisa já tão oferecida à sua identidade consigo mesma que podemos inclusive dizer, numa dada circunstância, que há nada dela ali (por exemplo, quando dizemos que não há hipopótamos nessa página). Enfim, temos que distinguir um nada que é interior à identidade da coisa já constituída, e um nada que é radicalmente anterior a essa coisa sob qualquer ponto de vista.

É justamente esse nada anterior e originário, que é anulado enquanto diferença pura – pura indeterminação como tal impensável –, pelo fato da coisa advir em sua identidade. E, esse nada de onde a coisa se origina, é simbolizado retroativamente, após o advento da coisa, como zero – o zero da “origem” daquela coisa. Faz diferença portanto preservar a dissimetria entre o zero da origem – que simboliza a diferença absoluta como ponto de partida suposto pela retroação significante – e a simples ausência dessa mesma coisa enquanto já-constituída, ou seja, sua extensão nula.

Ora, a matemática para constituir seu domínio precisa apagar essa distinção, nos fazendo crer que o zero da origem é o mesmo zero da extensão nula da coisa já- constituída. E mais: ela faz equivaler o zero da origem ao zero da extensão nula e não o contrário. Vale dizer, a matemática derroga, disfarça que a “origem” da identidade está na pura diferença. Diferença que – segundo constatamos, da perspectiva da psicanálise – constitui o campo e aparece para o sujeito como imperativo vindo do Outro (e não como relação horizontal, igualitária, entre os entes).

Esse “sem-comando”, presente na matemática, esse movimento automático das proposições que se sucedem a partir da aplicação das regras dedutivas (como se fora um jogo que se desdobra num computador) tem como efeito apagar a radical dissimetria presente na linguagem. A diferença tal como é tratada pelo matemático é “inofensiva”. A rigor, todos os números são iguais – trata-se de uma diferença domesticada; uma perfeita “democracia”, em que, por exemplo, não há porque o número 6 ser melhor do que o 47, nem tampouco haverá duelo entre o círculo e o triângulo para decidir quem vai comandar as coisas. No plano da matemática as significações se equalizam, elas não introduzem rupturas nem passagens de nível. É próprio do discurso matemático excluir qualquer dissimetria no plano semântico, isto é: toda sentença matemática bem construída (mesmo as falsas) embora diferentes quanto ao que denotam, são idênticas quanto ao valor. O plano semântico, próprio da linguagem ordinária ao contrário, é radicalmente dissimétrico[7].

A “simetrização” do elemento neutro é justamente o apagamento dessa “força dissimetrizante” que habita a linguagem, tendo em vista apenas fixar a coisa em sua identidade no curso de uma operação. Assim, tanto faz a*0 ou 0*a, pois o resultado é o mesmo: a. Através dessa manobra o zero, nome da diferença, para retomar a expressão de Frege, “daquilo que não é idêntico a si mesmo” (FREGE, 1884/1974, p. 262) perdeu sua potência para apenas garantir, em sua nulidade de coisa nenhuma, a monótona identidade da coisa quando é operada com ele, ou a extensão nula dessa coisa.

A linguagem, através das línguas e das culturas nas quais ela se realiza sempre ofereceu as estruturas lógicas e os cenários imaginários delas decorrentes, para que as situações de dissimetria fossem consideradas pelos homens enquanto tais. O pensamento mítico nada mais é do que a estrutura na qual essa situação da origem das coisas em relação a um absoluto “nadificado”, mas por isso mesmo sacralizado, “transcendental” (signo da relação criador/criatura) é passível de ser retomada pelos homens desde os tempos imemoriais. Podemos mesmo dizer que é a dissimetria presente na linguagem, que nos força a desdobrar a realidade em níveis ontológicos hierarquicamente distintos, para equilibrá-la, criando mundos e forjando os cenários do imaginário, mais ou menos ricos conforme as culturas.

No plano formal essa estrutura poderia ser pensada no âmbito de um formalismo mais “primitivo”, de natureza lógica e não matemática[8], onde a ação do elemento neutro não seria a mesma, caso ele viesse antes ou depois; à esquerda ou à direita de algo com o que ele se compõe numa operação. Escreveríamos esse formalismo da seguinte maneira: a*0=a ≠ 0*a≠a . Na primeira equação (que se lê: uma coisa operada por nada à direita dá nela mesma, isto é, na identidade dessa coisa consigo mesma), o elemento neutro é apenas a oportunidade dessa coisa se recolocar em sua identidade ‒ em termos freudianos poderíamos aproximar tal operação do juízo de atribuição puro, aquele cuja jurisprudência não implica na existência das coisas convocadas ao ser, pelo ato atributivo. Por outro lado (figurado na segunda equação), o nada originário, operado com alguma coisa produz, dá “origem”, a algo distinto da coisa em questão.

Lacan sempre esteve às voltas com essa problemática – cujos termos freqüentemente ele tomou da filosofia (Por que o Ser e não o Nada?) – mas sempre buscou tratá-la formalmente. No formalismo presente em seu escrito sobre o conto de Edgar A. Poe “A Carta Roubada”, por ex., institui algo análogo ao que examinamos nesse momento. Com efeito, não é indiferente percorrer a seqüência estabelecida naquele formalismo, da esquerda para a direita ou da direita para esquerda, isto é: não existe simetria no prosseguimento da cadeia. Ele mesmo assinala esse ponto quando diz nesse escrito que “A ligação, levando-se em conta sua orientação, é de fato recíproca; em outras palavras, não é reversível mas retroativa.”. (LACAN J. , 1957b/1998, p. 54) – grifo nosso.

A retroação significante é ruptura com a simetria. No formalismo do escrito em questão, há “palavras” que podem operar o efeito identitário (caso das “palavras” α e γ) e outras o diferencial (caso das “palavras” β e δ). Mas é claro que embora a simetria possa ocorrer, ela pode ser quebrada, isto é, a ordem significante é marcada pela dissimetria. No entanto, tal formalismo padece da característica do fechamento, isto é: cada palavra produzida através de sua operação pertence ao escopo dado do conjunto.

Tomemos agora o fechamento. 

Escreve-se o axioma do fechamento da seguinte maneira: ∀aia∈ C, ∃ (um único) ak tal que ai * a= ak . Lê-se essa fórmula como: “para todo a índice i (uma coisa qualquer) e todo a índice j (uma outra coisa qualquer, mas que pode inclusive ser a mesma que anterior, onde teríamos então ai =aj ) encontramos uma e apenas uma qualquer coisa (aqui nomeada k) que é o resultado da operação da coisa índice i com a coisa índice j. Essa formulação aparentemente complicada garante a seguinte propriedade formal que pode ser ilustrada de maneira bem simples: um número operado com um outro número dá como resultado um número. Por exemplo: ao somar 2 com 5 o resultado não pode ser uma garrafa térmica, deve ser necessariamente 7; um outro número. Não um outro número qualquer, mas tão somente o 7.

Entendamos o compromisso que se estabelece aí: se uma operação visa uma transformação, por outro lado, para que seja determinística ela tem de garantir a priori o escopo de seu produto – isto é: que este produto seja “ontologicamente” o mesmo daquelas outras duas coisas unidas pela operação[9].

Observemos por exemplo o que se passa com a “intuição” mais imediatamente reduzida pela matemática, que é a espacial. Para a ciência com efeito, tudo o que acontece, produz espaço e tudo o que acontece no espaço acontece de maneira determinada (isto é, podemos estabelecer a posição a partir de uma cadeia dedutiva). Finalmente, o espaço é permanentemente aberto ao que acontece (isto é, tudo que acontece o supõe enquanto lugar das articulações e conexões entre as coisas e eventos). Compare-se isso à visão de espaço inerente a uma língua natural: nem tudo o que acontece, acontece na extensão (há o oculto, o não-localizável, etc., as narrativas míticas e religiosas dão conta exatamente de indicar isso); nem tudo o que acontece, acontece de maneira estritamente formalizável, obedecendo a uma lei de composição definida (fala-se do “ilógico”, do enigmático, do intuitivo, dos mistérios, etc.). Vê-se que é perfeitamente concebível pela linguagem – claramente factível e sempre mais ou menos admitido pelos falantes – a possibilidade de acidentes, as contingências, em suma: a ocorrência de algo completamente heterogêneo ao que seria esperado numa dada circunstância.

O que o axioma do fechamento restringe é justamente a possibilidade de rupturas, de cortes, enfim, daquilo que através da linguagem vai aparecer como historicidade. Ou seja, o advento de uma outra ordem em ruptura com uma ordem anterior dada. O fechamento abole, por assim dizer, a historicidade que está contida como potência na linguagem[10] restringindo a variação das proposições ao escopo calculável pela operação. Mais especificamente ele limita a própria ordem dos acontecimentos: nada acontece, pois todo estado de coisas já está inscrito como dedução possível do formalismo. Tornando sem efeito o poder “criativo” da linguagem através de uma redução da ação das operações metafóricas e metonímicas ao já sabido, ou ao produzido pelo cálculo.

O capitalismo realiza isso com excelência. Se toda transformação é relevada da perspectiva da acumulação do capital, temos a historicidade reduzida ao progresso econômico, aprisionada (é justamente isso o fechamento) nos aparelhos que garantem que o passo seguinte pertencerá ao escopo do momento anterior. O mercado ilustra bem a exigência de fechamento: tudo que é produzido pelo homem é uma mercadoria (inclusive ele próprio) cujo valor tem uma vetorização unívoca e calculável. Não há mais ruptura; as variações são sempre “neutralizadas”: as mudanças de hábitos e costumes não indicam mudanças de ordem social; passam a indicar modas, ajustadas ao mecanismo calculista e fechado do mercado.

Lacan tematizou de maneira muito profunda essa questão. Em 1960, no seminário A identificação já aponta nessa direção quando propõe a escritura S = S ⇔ S ≠ S mostrando que o retorno do significante, através da retroação, ela própria operada por esses significantes, produz o inassimilável de uma diferença que é essencial para que a linguagem produza efeitos subjetivantes. Assim, pode-se ler o algoritmo “o Significante é igual ao Significante se e somente se o Significante é diferente do Significante” como o que escreve a impossibilidade da simetria e conjuga a identidade inelutavelmente à sua origem na diferença.

A distinção posterior que estabelece entre S1 e S2 vai também na direção de garantir a quebra não só da simetria, como do fechamento no interior da linguagem, pois a diferença entre esses dois significantes não é meramente distintiva; ela coloca uma dissimetria radical. Se Lacan pode isolar a diferença de notação S1, S2 foi justamente para afirmar que S1 não continua em S2, o que perfaria um fechamento. Esses termos são radicalmente heteróclitos: a partir de um corte, o que surge é um novo S1 e não um Sn qualquer; que seria um mero sucessor na cadeia dos S. S1, S2 articulam justamente a heterogeneidade como tal.

Assim Lacan faz valer o fato – que a psicanálise demarcou – de que todo ato é inaugural (LACAN J. , 1967-8, p. lição de 10/01/68) e a relação de fechamento só poderia vigorar, se fosse o de tal coisa existir como propriedade de estrutura que regesse a linguagem, no plano do saber[11]. Reservando o fechamento para 2, atribuiu ao S1 a exceção (a sentença particular negativa) fundadora da totalidade; e ao objeto a, por sua radical e absoluta subtração ao modo de ser de ambos os anteriores, a função de marcar o que é pura diferença. Daí, toda a sutil argumentação que Lacan produz em torno dos universais e das noções de totalidade, de conjunto e classe ao longo de seu ensino[12]. O fechamento é justamente a forma de uma totalidade implacável, já que a operação garante que qualquer que seja seu resultado uma certa propriedade deve ser necessariamente preservada.

Finalmente, consideremos a associatividade.

Podemos escrevê-la do seguinte modo: (ai *aj )*ak = ai *(aj *ak ). E traduzir isso em prosa da seguinte maneira: duas coisas processadas com uma terceira dão o mesmo efeito do que se processássemos uma dessas coisas com a terceira e tomássemos a coisa que sobra como se fosse a terceira. Outra forma de dizer: “se uma coisa é igual à outra e se essa outra é igual a uma terceira então a primeira coisa é igual à terceira”. Ocorre que nos assuntos humanos, nem sempre isso é verdadeiro. Por exemplo, numa família pode acontecer de Pedro ser irmão de Paulo, Paulo ser irmão de Joaquim e não obstante Pedro não ser irmão de Joaquim.

A associatividade congela ou mumifica o ilimitado poder conotativo da linguagem porque fica garantido que a operação, ao se disseminar através de novos elementos, preserva nessa disseminação uma significação fixada. Uma significação que não se modifica, qualquer que seja o termo que venha se conectar à seqüência por força da operação. Sampaio (2000a) nos dá um exemplo anedótico de como a linguagem natural está liberada trivialmente da exigência da associatividade. Considerem-se as frases: 1- papai mande-me dinheiro; 2- papai mande-me dinheiro para saldar dívida de jogo; 3- papai mande-me dinheiro para saldar dívida de jogo de um amigo desesperado; 4- papai mande-me dinheiro para saldar dívida de jogo de um amigo desesperado, ele dará um imóvel de grande valor em garantia; etc. Vê-se que na linguagem ordinária, a cada nova sentença o sentido da frase se modifica substancialmente. Ao passo que, no funcionamento da linguagem regulado pelo axioma da associatividade, ao contrário, garante-se a limpeza da linguagem de tudo aquilo que pode introduzir a heterogeneidade, a dissimetria e a irreversibilidade na ordem do discurso.

Lógica da ciência 

A ciência incide na linguagem e no discurso, portanto, através de manipulações (estas, entre outras) perfeitamente legítimas do ponto de vista formal e radicalmente acéfalas (independentes de qualquer intencionalidade). Até aqui vimos que a formalização, efeito do significante, tem o propósito (algo delirante em suas pretensões) de limpar a linguagem da lógica do significante que é sua condição de possibilidade, reduzindo-a a uma lógica infinitamente mais pobre e que excerta da linguagem sua operação maior que é a retroação significante. Veremos agora que, ao fazê-lo, a ciência anula justamente a efetividade operatória dos significantes responsáveis por vetorizar a retroação significante; a saber, os significantes do Nome-do-pai e o Falo.

Lacan situou esses dois significantes – conectando-os à lógica e à topologia – a partir de uma função auto-referencial. O Nome-do-pai e o Falo são os “significantes essenciais” (LACAN J. , 1957-8/1998, p. 147) que no plano discursivo imiscuem os níveis de articulação sintático e semântico[13] – fazendo com que a linguagem incida sobre ela mesma, e se transforme sob essas operações; produzindo toda a gama de efeitos que lhe são próprios. Inclusive o sujeito. Dizer que estes significantes possuem função auto-referencial é dizer que eles – mais radicalmente que qualquer outro – não denotam: eles reenviam a linguagem a ela mesma na medida em que é a própria ordem da linguagem, à qual pertencem, que eles significam. Ao Nome-do-pai Lacan define como “o significante que significa que, no interior do significante, o significante existe” (LACAN J. , 1957-8/1998, p. 147); enquanto o Falo “entra em jogo quando o sujeito tem que simbolizar, por oposição ao significante, o significado como tal” (LACAN J. , 1957-8/1998, p. 240). Vale dizer: o significante em seu conjunto se significa, no interior do sistema significante, pela operação do significante Nome-do-pai – que traz para dentro do sistema significante o significado deste sistema. O Falo por sua vez, “significante do significado” (idem) presentifica no sistema significante a significação. Observe-se que Lacan não homogeneíza as ordens: o plano da significação é heterogêneo ao plano do significante. O que traz para dentro da ordem significante a significação (o que a faz valer enquanto referida ao significante) é o Falo. Isso implica que a significação não pode ser inteiramente reconduzida ao plano do significante (e vice-versa). Diferente disso, o Falo e o Nome-do-pai indicam o caráter significante presente na significação: aquilo pelo que a significação é regida depende do significante.

Por isso mesmo, a auto-referência na linguagem ordinária não é uma relação reflexiva. O retorno significante que se dá através da retroação operada por estes significantes produz não a identidade, mas o inassimilável de uma diferença. Pode-se constatar isso em todas as esferas da vida cotidiana – e é mesmo a experiência mais elementar da clínica psicanalítica: a fala remetida a ela mesma (pela pontuação do analista ou do inconsciente, num ato falho, por ex.) não incide para nós como identidade (o mesmo) e sim como diferença, como enigma. Remeter a linguagem a ela própria é a operação pela qual a diferença se coloca para nós, constituindo o espaço heterogêneo próprio da subjetividade. Através dos significantes que sustentam esta operação a linguagem se arma como discurso produzindo todos os seus termos necessários.

Pela simetrização do elemento neutro, fechamento e associatividade, a ciência restringe a operatividade desses dois significantes, organizando a linguagem, como vimos, de tal modo que a retroação não produz mais a diferença. O que é antecipado pelo significante é igualado com o que é retroagido; antecipação e retroação coincidem sem produzir qualquer diferença capaz de atingir ou pôr em questão o sujeito no interior da ordem simbólica, ejetando-o para o campo do real. Para dizê-lo ainda de outro modo podemos observar que se obtém assim a anulação da diferença entre S1 e S2, recaindo na circunstância denominada por Lacan (1964/1973, p. 215) como holófrase.

Quando incide sobre o Nome-do-pai não é apenas a alocação de cada um na ordem simbólica que a ciência põe em questão; é a ordem simbólica ela mesma. Uma série de fenômenos sociais muito amplos, que vão dos efeitos do colonialismo aos choques de culturas com as respectivas guerras fundamentalistas, dizem respeito a problemas em torno da dificuldade moderna de situar e constituir autoridades legítimas. O real da economia à frente das organizações sociais – em detrimento da palavra e da liderança (política) dos grandes e pequenos mestres que se espalhavam em função de comando pelas culturas – afirma cada vez mais um comando tão mudo quanto efetivo. Operante por equalizar, através do cálculo, as variações e diferenças em função desse imperativo aparentemente neutro que é o mercado. Do lado de sua incidência sobre o Falo, a ciência ajuda a desarticular a regulação do gozo. Sem o vetor fálico o gozo não situa mais a diferença sexual; apagando portanto o lugar do sujeito que se localiza por relação a esta ordem (como homem ou mulher, como pai ou como filho, criança ou adulto). Goza-se das mais variadas sensações e circuitos sem finitização.

Estamos pois diante de um círculo vicioso: de um lado, a matemática é ela mesma efeito da linguagem, obtida pela redução (via axiomática) de certas propriedades da linguagem que respondem pela dissimetria, pela irreversibilidade e pela heterogeneidade que constituem a condição humana como tal. E de outro, o que se constata é que, através da matematização a problemática da ação humana é assimilada ao automatismo da redução dedutiva (vigente na lógica formal) e submetida às leis algébricas do grupo fundamental.

Por esta via, um processo formalizador como o da ciência tende a ignorar e virtualmente eliminar a contingência, a irreversibilidade da temporalidade e a diferença como modos articulados pela linguagem. Com isso, o impossível desaparece ante os nossos olhos como referencia real. Perde-se a referência ao negativo como intrínseco à vida e, especialmente, à problemática do desejo. Lançando o sujeito na ordem da demanda que é comandada pela positividade do objeto, sem qualquer alusão a uma dimensão Outra.

Este movimento da ciência é auto-engendrado e hegemônico. Somente a posição concreta dos falantes por relação às leis da linguagem pode sustentar a ordem do discurso e por extensão do laço social – pontualmente e sem garantias. A linguagem possui inúmeras virtualidades e a organização humana sempre procurou adequá-las de modo a tornar possível a ordem do discurso. Não podemos, é claro, prescindir da matemática, nem das estruturas que regem a ordem humana pautadas nela. Isso seria irrealizável, e uma tolice. O funcionamento institucional tal como o conhecemos (quando buscamos, por ex., informações sobre nosso saldo bancário) é tributário de processos que obedecem aos axiomas de grupo (elemento neutro simétrico, inverso, fechamento e associatividade). O que se pode discutir, entretanto é a extrapolação redutora que visa comprometer a linguagem com uma ordem social específica e histórica – o capitalismo sustentado pela ciência – como totalidade que encerra e fecha em seu interior toda e qualquer realização discursiva Outra, ao preço exorbitante da própria abolição subjetiva.

Deste ponto de vista divisa-se uma lógica comum regendo circunstâncias humanas bastante díspares quanto a finalidades, meios, etc.[14], num movimento que constitui o fato da globalização, menos como a interconexão das regiões do mundo e mais como a expansão dessa lógica para regular os diversos laços entre os homens. Trata-se da lógica da ciência: a matematização penetrando, principalmente através da informática, e determinando os mais recônditos recantos da atividade humana, num avanço implacável e absoluto.

É importante também não confundir o debate lacaniano em torno da ciência com uma tomada de posição simples em relação a esta (uma tomada de posição que se acreditaria critica justa e humanista, por ex.). Lacan indica de forma cabal, ao longo de todo seu ensino[15] que a efetividade da ciência é de outra ordem – não afeita a debates. A expansão da ciência é interna ao aparelho significante, operando dentro da articulação mesma da linguagem, incidindo no campo do discurso, neutralizando-o, como procuramos demonstrar, sem depender do jogo da ideologia. Por outro lado, este matematismo em excesso – que não é apenas da ciência e nos acomete a todos, na medida em que demandamos e exigimos o saber que fecharia a cadeia significante –, é exatamente o que Lacan pôs em xeque fazendo o formalismo servir ao seu ensino e, por outro lado, utilizando as descobertas do próprio formalismo para apontar seus limites.

A “matemática” de Lacan, pode-se dizer, é solidária do significante. Onde não há a captura subversiva do significante, ele nos diz (desde o início de seu ensino), o toro não é necessário: podemos contentar-nos com a esfera e o plano (LACAN J. , 1953/1998, pp. 321-2). O que lhe interessa na topologia, por ex., não se opõe ao que se introduz em sua obra pela matriz do significante: os grafos, os esquemas L e R e até os matemas dos quatro discursos – fazem parte dos “exercícios” (LACAN J. , 1957b/1998, p. 59), como ele os chama, que servem a Lacan para destacar o que a topologia, a matemática e a lógica, enfim, tudo aquilo que se comporta como rede axiomática tem de relação com o sujeito. O recurso ao matemático servindo para “tornar palpável a relação do sujeito com a função simbólica” (LACAN J. , 1954-5/1987, p. 242) e conduzir os analistas por um caminho a partir do qual o inconsciente se esquiva do intuitivo e se liga a uma sintaxe engendrada pelo significante.

Do ângulo muito preciso pelo qual Lacan as aborda, o que estas redes revelam é que o que se deposita na cadeia significante cerceia progressivamente o que o sujeito pode dizer. Lacan demarca este heteros que compõe a estrutura, de inúmeras formas que vão do Caput Mortuum do significante (1957b/1998), até o “cerramento do simbólico, do imaginário e do real como nó” (1974/1975). Ponto máximo de constrangimento que se atinge numa análise, onde o sujeito “deixa o objeto insensato e especificado como a” (idem) que lhe constitui e de que se despega na temporalidade e na topologia próprias do ato (1967-8).

É preciso ressaltar portanto este ponto preciso onde Lacan limita o formalismo, cortando por assim dizer, a matemática da coisa e evitando que a psicanálise venha a constituir uma totalidade do significante. O objeto é o elemento propriamente psicanalítico que por se fazer presente impede que a psicanálise caia na tentação formalista de que falávamos. Pois diante do objeto e do desejo, seu correlato, o real em jogo se transmuta. Não se trata mais de cálculo e sim de ética. O sujeito só pode responder ao real do desejo em ato e às suas próprias custas.

Por ter atentado para isto, Lacan pode também realizar movimentos que se dão explicitamente em função de uma análise dos limites da formalização científica. A reconsideração das quatro proposições da lógica formal que empreende desde 1967-8 e que o leva à elaboração das fórmulas da sexuação em 1972-3 e, mais flagrantemente a teorização sobre os nós, onde Lacan avança por um caminho cuja matematização não está concluída e onde o algoritmo falta são maneiras que Lacan utiliza para evitar o que ele chama “o emprego filosófico” de seus próprios termos (LACAN J. , 1974/1975).

Em nossa época, que assiste o avanço da ciência outorgando-lhe o saber sobre o que nos convém e a responsabilidade de decidir por nós, esta prudência de Lacan é um divisor de águas. Não é a teoria, a ciência, que nos dará acesso ao real. Com Lacan compreende-se que é somente a partir do discurso analítico – se ele advier em ato, causando o trabalho de desbastamento do imaginário que a incidência do simbólico pode trazer, com tudo o que isso carreia de perda – que o real pode se colocar para o sujeito. Se a ciência em sua sustentação da diferença como infinitamente relativizável tende a subverter as categorias do real e do simbólico impedindo a dedução do impossível e o advento do sujeito[16]; a psicanálise é o discurso, efeito da ciência, a partir do qual o desejo como condição absoluta pode vir a se colocar para nós, desalojando- nos do registro da impotência em que nos mantemos diante do saber.


* Em: COSTA-MOURA, F. (org.) Psicanálise e laço social. Rio de Janeiro: 7Letras; 2009.

[1]Do Inglês gadget: “geringonça”, “dispositivo”. Referimo-nos aqui aos dispositivos eletrônicos que possuem funções bem específicas, práticas e supostamente úteis. O termo ganhou contornos específicos no campo da Psicanálise quando Lacan o empregou para referir-se aos objetos de consumo produzidos e ofertados pela lógica capitalista – nos quais estão agregados o saber científico e as tecnologias em geral.

[2]Por operadores identitários queremos indicar aqueles operadores que suportam a retroação significante na medida em que esta retroação produz a diferença irredutível que enseja o advento do sujeito. Os significantes do Nome-do-Pai e Falo tal como Lacan (1957-8/1998) os define são exemplos desse tipo de operadores. Voltaremos a isso adiante.

[3]Seria esta uma questão de ética, de conscientização? O avanço inexorável da ciência destrói qualquer possibilidade da questão ser colocada de forma tão simples. A ética diz respeito a um sujeito – mas há sujeito como agente no curso da ciência? Ou este é apenas seu efeito? Seu produto forcluído? Lacan observa que a ciência obteve dinheiro, créditos junto aos poderes e que isso não vem, para aqueles que estão na ponta mais avançada dela, sem uma certa culpa. Mas, observa, “isso não tem a menor importância, pois não se trata de uma aventura que os remorsos do Sr. Oppenheimer possam deter do dia para a noite” (LACAN J. , 1959-60/1986, p. 374).

[4]Lebrun (1997, p. 127) comenta que uma vez que sabemos que temos em média um grama de glicose por litro no sangue, esse saber que vale para todos passa a prescrever nosso bem.

[5]Lacan (1969-70/1991, p.35) utiliza a expressão “nova tirania do saber” para caracterizar a hegemonia do Discurso Universitário onde o saber se autonomiza ocupando o lugar de agente do discurso.

[6]O leitor pode tomar como referência a operação de soma:2+0=0+2=2. Se tomarmos em consideração a operação de multiplicação o elemento neutro será o número 1; temos então: 2×1=1×2 = 2.

[7]Lacan (1967-8, p. Lição de 06/03/68) fornece exemplos de proposições equivalentes termo a termo, que no entanto dizem coisas completamente diferentes: “Je ne connais pas tout…e Je ignore tout (de la poésie)” ou ainda “I don ́t know everything…” e I don ́t know anything (about poetry).

[8]Lógica num sentido bem mais amplo (que se diferencia do que se denomina atualmente lógica matemática) cuja formalização encontrou em Lacan todo um enorme esforço. A lógica formal matematizada, – parte bastante estrita da lógica com ambições de ser tomada como A lógica – nada mais é do que uma lógica submetida às leis algébricas da estrutura de grupo (princípio de identidade). Exemplos proeminentes dessa lógica matematizada são justamente a lógica proposicional, a lógica de 1a ordem ou de predicados e a lógica de 2a ordem ou Teoria dos Conjuntos.

[9]Há muitos desdobramentos desse axioma. Por exemplo, a operação de soma pode ser definida para o conjunto dos números naturais (1, 2, 3,….), vale dizer: qualquer número natural somado a qualquer outro é também um número natural e um número natural específico. Por outro lado, a operação de divisão não pode ser definida nesse conjunto, já que a operação 5 / 3 = 1, 66… tem como resultado um número real e não um número natural; muito embora 5 e 3 tomados isoladamente possam ser considerados números naturais. Incidentalmente essa ilustração nos permite aperceber que os operandos e os operadores se co-definem de uma certa maneira: sob a operação de divisão, 5 e 3 parecem números naturais, mas não o são; eles são números reais visto o fato de que essa operação só é possível nesse conjunto e não no conjunto dos números naturais. Do mesmo modo se divido 4 por 2, esse 4 e esse 2, e tampouco o resultado da operação, que é 2, não são números naturais. Embora pareçam números naturais, eles são, a rigor, ou números racionais (frações) ou números reais (ou outro conjunto numérico qualquer que permita essa operação).

[10]O que não é o mesmo, observe-se, que articular o “fim da História”. O pensamento mítico, por exemplo, envolve o senso de historicidade implícito numa língua e, no entanto, não podemos dizer que as sociedades míticas sejam históricas.

[11]Não é inteiramente correto dizer, que o saber seja regido de uma forma simples pelo fechamento. Não desenvolveremos esse tema aqui, mas importa notar que o S2 enquanto representante da seqüência significante é aberto e infinito, o que não se opõe ao fechamento, que estamos considerando mas coloca toda a complexidade da reflexão lacaniana sobre a totalidade. A este respeito Cf. (LACAN, 1969-70/1991 e 1972-3/1975).

[12]A este respeito, Cf. (LACAN J. , 1972-3/1975) e também (FERNANDES, 1999).

[13]Ou, para usar o vocabulário estruturalista empregado por Lacan, o plano do significante e o plano do significado.

[14]Melman (2002) conseguiu nos mostrar a mesma lógica regendo a vida dos casais, as modificações no campo do direito, o prolongamento contemporâneo da adolescência, a emergência de novas formas de adição e relação ao objeto, etc.

[15]A este respeito Cf. dois momentos da tematização lacaniana sobre a ciência – separados por décadas, mas ainda hoje tão radicalmente subversivos, um, quanto o outro: (LACAN J. , 1959- 60/1986, p. 370 e segs.) e (LACAN J. , 1974/1975).

[16](COSTA-MOURA & SILVA, 2009).

 

BIBLIOGRAFIA

CHEMAMA, R. (2007). Algumas questões sobre o neurótico contemporâneo. In operação do significante: o nome, a imagem, o objeto. (pp. 193-208). Rio de Janeiro: Tempo Freudiano Associação Psicanalítica.

CHEMAMA, R. (2002). Por que Lacan diz que o sujeito da psicanálise é o sujeito da ciência? In O seminário de Lacan: travessia – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (pp. 25-32). Rio de Janeiro: Tempo Freudiano Associação Psicanalítica.

COSTA-MOURA, F. & SILVA, M. E. de A. (2009). Função ética do real e advento do sujeito. In: ELIA, L. & BARROS, R. M. de (orgs.) Estrutura e Psicanálise (no prelo). Rio de Janeiro: Programa de PG em Psicanálise – UERJ.

FERNANDES, F. (1999). Psicanálise e Formalismo – Tese de doutorado apresentada ao programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica – IP/UFRJ. Rio de Janeiro. FREGE, J. (1884/1974). Os fundamentos da aritmética in Os pensadores (sel. e trad. L.H. dos Santos). São Paulo: Abril.

GARNOT, D. (2004). Herdeiros da ciência até que ponto? In A clínica psicanalítica e as novas formas do gozo (pp. 89-109). Rio de Janeiro: Tempo Freudiano Associação Psicanalítica.

HENRY, J. (1998). A revolução científica e as origens da ciência moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

KAPLAN, R. (1999). The nothing that is: a natural history of zero. Oxford: Oxford University Press.

KOYRÉ, A. (1962/1998). Du monde clos à l’univers infini. Paris: Gallimard. KOYRÉ, A. (1966a/1985). Études D’Histoire de la Pensée Scientifique. Paris: Gallimard.

KOYRÉ, A. (1966b/1986). Études Galiléennes. Paris: Hermann.

KUHN, T. (1970/1998). A estrutura das revoluções científicas. . São Paulo: Perspectiva.

LACAN J. , (1953/1998) “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise” in Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

LACAN J. , (1954-5/1987) O seminário Livro II: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise.Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

LACAN, J. (1955-6/1985). O seminário Livro III: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

LACAN, J. (1957a/1998). “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud” in Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

LACAN, J. (1957b/1998). “Seminário sobre A carta roubada”. In J. LACAN, Écrits (pp. 11 – 66). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

LACAN, J. (1957-8/1998). Le séminaire Livre V: les formations de l’inconscient. Paris: Seuil.

LACAN, J. (1959-60/1986). Le seminaire Livre VII: l’ éthique de la psychanalise. Paris: Seuil.

LACAN, J. (1961-2). L’ Identification. Seminário inédito.

LACAN. (1964/1973). Le séminaire Livre XI:les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse. Paris: Seuil.

LACAN. (1965-66 – lição de 01/06/66). L’objet de la psychanalyse. Seminário inédito. LACAN, J. (1965-6/1998). “a Ciência e a verdade” in Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

LACAN, J. (1967-8). L ́acte psychanalytique . Seminário inédito.

LACAN, J. (1969-70/1991). Le séminaire livre XVII: l ́envers de la psychanalyse. Paris: Seuil.

LACAN, J. (1972-3/1975). Le seminaire livre XX: Encore. Paris: Seuil.

LACAN, J. (1974/1975). “La troisième”. Paris: Conferência publicada originalmente nas Lettres de L’ École Freudienne de Paris, 1975,no.16, pp.177-203.

LACÔTE, C. (2004). Atualidade d’ A Terceira. In A Clínica psicanalítica e as novas formas do gozo (pp. 29-49). Rio de Janeiro: Tempo Freudiano Associação Psicanalítica.

LEBRUN, J.-P. (1997). Un monde sans limite. Ramonville Sainte-Agne: Erès.

LEBRUN, J.-P. (2001). Les désarrois nouveaux du sujet: prolongements théorico- cliniques au Monde sans limite. . Ramonville Saint-Agne: Erès.

MELMAN, C. (2002). L’ Homme sans gravité: Jouir à tout prix. Paris: Denoël. MELMAN, C. (2004). Formas clinicas da nova patologia mental e artigos inéditos. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife.

MELMAN, C. (2008). Como alguém se torna paranóico?: de Schreber a nossos dias. Porto Alegre: CMC.

SAMPAIO, L. S. C. de (2000a). A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa, nua, na passagem dos semigrupos aos monóides. In L. SAMPAIO, Lógica Ressuscitada:Sete Ensaios. Rio de Janeiro: EdUERJ.

SAMPAIO, L. S. C. de (2000b). Outra vez a matematicidade da matemática. In Lógica Ressuscitada:Sete Ensaios. Rio de Janeiro: EdUERJ.

SAMPAIO, L. S. C. de (2001). A lógica da diferença. Rio de Janeiro: EdUERJ.

 

Print Friendly, PDF & Email