Novos estudos sobre a Histeria – Prefácio

Escolher publicar atualmente o seminário dos Novos estudos sobre a histeria, em edição de bolso[1], é responder ao voto de Charles Melman de oferecer ao seu público preferido, o dos estudantes e dos jovens analistas, um acesso ao que pensamos ser um texto maior da clínica psicanalítica. 

Ainda que mais abordável do que o livro publicado por Clims em 1984, esse texto continua sendo um instrumento de trabalho difícil. Seu autor o situa como uma investigação ligada ao tempo de sua enunciação e aberta a desenvolvimentos ulteriores. Não estaria ele modestamente convidando seus ouvintes a darem prosseguimento a esta pesquisa? 

Trata-se aqui de seu primeiro seminário, antes que ele fundasse a Association freudienne. Ele manifestava ali seu desejo de transmitir o que carregava em si de Freud e de Lacan, de quem foi um colaborador muito próximo. Ele trazia o mesmo ardor deste último em formar rigorosamente os futuros analistas. 

No período tumultuado que se seguiu à dissolução da École freudienne de Paris e à morte de Jacques Lacan – período tumultuado pelas querelas que turvavam as referências, e muito particularmente para os jovens –, pôr a trabalhar os textos de clínica era a única via capaz de fixar os espíritos e dar corpo a um recomeço. 

Pouco importavam as condições precárias da organização. A partir de abril de 1982, a sala Chaslin, na Salpêtrière, entulhada de mesas, colchões de refugo e algumas cadeiras, se tornou – graças ao crédito dado a Charles Melman pelo professor Duché e por nosso amigo professor Basquin – o lugar escolhido, investido com entusiasmo e mesmo com certa avidez pelos ouvintes. 

No regresso de outubro, o número de candidatos tendo aumentado consideravelmente, Charles Melman obteve a sala Magnan, emblemática pelo fato de que Lacan fazia ali suas apresentações de pacientes. Foi ali, aliás, que elas foram restabelecidas desde a fundação da Association freudienne, em junho de 1982. Conduzidas alternadamente por Charles Melman e Marcel Czermak, elas re-enodaram, assim, de saída, o que Lacan tinha iniciado e considerava como um ensino maior para a clínica analítica. 

Mas voltemos a esta publicação de Novos estudos sobre a histeria, “novos”, já que retomam o título – e não somente ele – do livro que Freud publicou com Breuer em 1895: o conteúdo desse livro e de muitas outras investigações de Freud, o caso Dora, Schreber, a Traumdeutung, o manuscrito G, por exemplo, dão a Charles Melman a trama de seu seminário. Uma verdadeira navegação através de Freud, se não falarmos de lavramento, se podemos tomar esta metáfora para ressaltar o que, dos fundamentos freudianos da histeria, a saber, a ênfase no desejo sexual e seu recalque, permitirá a Charles Melman fabricar uma nova tessitura. 

Em um texto de 1973, extraído das Lettres de l’École freudienne de Paris (que se encontrará no anexo), Charles Melman ressalta que Freud não deu prosseguimento à sua investigação no sentido de suas primeiras descobertas: que ele foi sensível à dimensão da palavra e particularmente à sua ausência, isto é, ao mutismo eventual das histéricas. Esse texto é praticamente contemporâneo do seminário Mais, ainda, que retoma os “Quatro discursos”. Uma das novidades desses Novos estudos, dez anos depois de Mais, ainda, é o apoio, precisamente, em um destes discursos, o da histérica, que evidencia o lugar das expressões linguageiras das pacientes em relação à sexualidade, lugar que estabelece então a prevalência da palavra sobre o sexual, sem, no entanto, minorá-lo. É um deslocamento notável em relação a Freud. 

Atento ao que a linguagem veicula, tanto nas mulheres quanto nos histéricos masculinos, Charles Melman alimenta seu ensino, ligando-se a um só tempo aos traços constantes e às modificações conjunturais, sensíveis na sociedade dos anos 1980, e à sua influência sobre cada um. Do mesmo modo, na sequência, podemos notar em seus textos o quanto ele segue essa evolução contínua dos sinais clínicos da histeria e traz elementos novos… Ele mostra assim que esta neurose é mais complexa do que pensava Freud. 

Há mais. É fato que Lacan não fez um estudo longitudinal da histeria, mas este livro prossegue o ensino lacaniano. Charles Melman desenvolve a economia da histeria, insiste na distinção da posição histérica em relação à da feminilidade, no polimorfismo da histeria, e traz uma contribuição considerável sobre a histeria masculina. Ele esclarece os critérios diferenciais entre a histeria e as outras patologias neuróticas e psicóticas. 

Seguindo Lacan, ele se apoia na oposição entre S1 e S2, fazendo valer sua articulação não apenas intersubjetiva, mas também intrassubjetiva. 

Ele introduz conceitos retomados de Aristóteles e dos escolásticos, que não são utilizados habitualmente, tais como a abaliedade e a asseidade. Estes conceitos, aliás, não parecem ter sido desenvolvidos ulteriormente. No entanto, a abaliedade, essa dependência do Outro que Charles Melman situa como uma fase, evoca o que diz Lacan, retomado frequentemente por Jean Bergès: “O simbólico é primeiro”, antes mesmo do estádio do espelho, e isto não é sem consequências clínicas. 

Charles Melman realça com insistência a contribuição lacaniana da insatisfação na histérica como seu sintoma específico e como motor da sua resistência no tratamento. E, partindo da questão: “Curamo-nos da histeria?”, ele responde de modo um pouco evasivo em razão dessa própria resistência, deixando entretanto uma esperança fundada na qualidade do analista! 

Este livro é um estudo apaixonante da clínica histérica, extremamente detalhado, erudito, e a enumeração acima negligencia muitas contribuições essenciais que serão descobertas na leitura aprofundada e dialética desta obra, importante como são os outros seminários de Charles Melman, a quem devemos um ensino psicanalítico fundamental. 

Denise Sainte Fare Garnot 

[1]Em francês, o Seminário aqui traduzido foi publicado em formato de edição de bolso pela editora Érès.

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