O novo dos “Novos estudos sobre a histeria”

O que há de novo nestes Novos estudos sobre a histeria de Charles Melman? Poderíamos começar dizendo que são estudos… lacanianos. Isso implica que retomam os problemas que a histeria coloca, não apenas enquanto patologia ou posição subjetiva, mas também como discurso. Um dos protótipos de como se articula o laço social para nós, especialmente na contemporaneidade. Lacan pôde distinguir na histeria sua feição de estrutura necessária, que ultrapassa em muito seu caráter de disfunção (sempre mais ou menos ocasional), e configura uma relação fundamental. Aquela onde um sujeito surge interpelando um significante, que não remeterá senão a outro significante. Um laço onde cabe ao sujeito o encargo de pagar em desejo, em divisão, pela subtração do objeto que é constitutiva para ele. Estes Novos estudos partilham desta visada do discurso da Histérica como estrutura que se oferece a todo sujeito que toma a palavra. 

Melman parte do que foi enunciado por Lacan, não para explicá-lo, menos ainda para substituí-lo. E sim para levar adiante e tirar consequências do que nos foi legado por ele; para se responsabilizar e tomar lugar nessa problemática, a partir de seu próprio percurso teórico e à luz de sua experiência clínica. E transmiti-lo, primeiramente a seus colegas, que no contexto do Seminário original fundavam com ele, e a partir dele, a Association Freudienne – que mais tarde viria tornar-se a Association Lacanienne Internationale, ALI – e, com a publicação pela primeira vez no Brasil do texto integral do Seminário pelo Tempo Freudiano, neste momento, a nós. Isto é: a todos que puderem tomar para si o ímpeto deste texto que, como sublinha Denise Sainte Fare Garnot, no Prefácio à Edição Francesa de 2010, convida a prosseguir o encaminhamento das questões fundamentais da psicanálise. Único meio de orientar e dar corpo à práxis. 

Em seu estilo singular, que conjuga o mais vivo da psicanálise, a precisão conceitual e uma erudição saborosa, Melman reedita o esforço de Freud para arrancar a histeria da dicotomia “doença x farsa” em que o paradigma médico a confinara. Assinalando nela a implicação do sujeito e de sua resposta ao sexual, assume, sem pretender naturalizá-la, a questão que foi de Freud, e que perpassa, desde sempre, a história das ideias sobre histeria: a de por que, e em que a posição feminina coincide tão frequentemente com a histérica. A propósito da diferença sexual, destaca o enorme salto freudiano que consistiu em considerar as “consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos”, em lugar de sancionar simplesmente a dita distinção, e deslocou a questão do campo da anatomia para o da atribuição fálica. Melman recolhe os efeitos de como Lacan retoma o drama, evidenciado por Freud, que gira em torno da emergência do falo. Relê a “primazia do falo”, não como artefato cultural, sempre mais ou menos ligado às acepções culturais de virilidade e fertilidade, mas como conceito propriamente lacaniano. Ligado ao que de fato está implicado nessa importância que o falo adquire para nós. Ou seja, as teorias sexuais infantis enquanto esforços do sujeito para atribuir um sentido Imaginário, e Simbólico, ao Real que Lacan escreve com o matema S(A). Confrontando o que nessa emergência acossa o sujeito, traz à tona o que Lacan demonstrou, com a sexuação, quanto à impossibilidade de nomear a posição feminina, uma vez que esta se define por ocupar, não um lugar secundário, em espelho, em relação ao fálico, e sim um lugar Outro. Lugar da multidão dos significantes, cujos limites não estão dados, e ao qual nenhuma consistência vem dar fundação. Nesta articulação o que sobressai é a função fálica, a presença do falo como um limite, e não como positividade, para todo falante. Uma via e não um centro, do qual se poderia derivar uma atribuição definidora. Campo de que todo falante participa, e em que tem que se situar, mas que porta a obstrução que determina, no caso de uma mulher, que a referência se revele sempre, inevitavelmente, oblíqua. Não toda. Na medida em que ela tem que lidar também com um gozo não limitado pela via fálica. Rompendo com séculos de atribuição que define uma diferença relativa e complementar entre homem e mulher – baseada seja na anatomia, seja na cultura, no sexo ou no gênero -, Lacan afirmara, muito mais radicalmente, que A mulher não existe. Isolando aí um negativo que é constitutivo do sujeito e de seu acesso a uma posição sexual. Melman o retoma para sublinhar a presença do feminino enquanto Outro sexo, nunca inteiramente apreensível para qualquer falante. Presença que impele e exige a posta em ato de um homem (que não pode mais que) se fazer valer como homem, e de uma mulher (que só pode) se fazer valer como uma mulher. 

É neste ponto que o livro coloca a questão central – que é nova, e extremamente pregnante para nós, hoje, mais do que nunca – sobre o exercício da palavra a partir desse lugar Outro. Como é que aquele que fala desse lugar onde, por estrutura, nada faz limite à castração, pode se autorizar? Como uma palavra que emana daí pode se justificar, se fazer ouvir, uma vez que a instância Um, que a autenticaria, falta nesse lugar Outro? Essa é a questão das mulheres, que não dispõem de um Universal que as nomeie, mas é também a do reconhecimento social e cultural de todas as chamadas minorias e, possivelmente também, o caminho por onde chegamos a privilegiar a histeria como laço social contemporâneo. Na impossibilidade de uma mulher se autorizar pelos significantes mestres da cultura, advindos da via fálica que não basta para defini-la, vemos hoje os discursos de gênero reivindicando politicamente uma revisão da ordem do discurso que garanta o lugar a partir do qual uma mulher fala. Mas a cada dia constatamos também que essa manobra, longe de superar a lógica atributiva que exclui, pode reiterar essa lógica pela criação infinita de classes positivas, pela multiplicação vertiginosa das identificações, sem atentar para o que essas identificações produzem de segregação. É que quando demandamos às mulheres, e a todos, qualquer um, que compareçam sempre num registro identificável e cada vez mais minucioso, forçosamente caímos numa entificação do falo. Fazemos dele uma caricatura, uma positividade graduável, que faz de uns “mais”, de outros “menos”. E acabamos produzindo minorias, não no sentido numérico, estatístico, mas enquanto aquilo que é marcado com o atributo “a menos”. Se esta lógica vigora, somos lançados num risco de exclusão permanente; uma vulnerabilidade não só subjetiva mas também social, que tentamos compensar a todo instante por um sem-número de políticas de inclusão. Mas as identidades constituídas unicamente a partir do discurso e da performance sexual ou de gênero são formas precárias de tratar o real do sexo – que exige o ato. Enquanto tentamos escapar do ato por uma solução fálica de regulação, pela incidência de mais e mais leis, mais princípios, mais definições, as inúmeras novas castas e identidades sexuais que surgem, proclamando sua nomeação e reclamando seus direitos, perigam nos fazer girar em torno da velha e conhecida insatisfação ordenada pelo discurso da Histérica – que busca instituir uma distribuição mais justa, mais apurada do falo; sem conseguir jamais fazer consistir o Outro. 

A partir do ensino de Melman, então, a histeria aparece como a economia que sustenta nossa queixa e, às vezes, até a nossa sanha. Uma forma de evasiva, aflorada hoje, talvez, mais drasticamente, com consequências cada vez mais difíceis, e através da qual resistimos ao que está posto como questão ética para nós por esse negativo que nos constitui e que Lacan isolou como a mulher (que não existe), a relação sexual (que não há) e o falo, que não consiste, não pertence a ninguém e apenas lhe faz suplemento. Em lugar de um Outro que nos asseguraria, somos nós que temos que garanti-lo, com os elementos da cultura e a partir da relação que entretemos com o desejo de que somos feitos. Está aí o aspecto crucial em que o livro de Melman não para de se renovar. De seu ponto de vista não há nada “a corrigir”, nem “a curar”. Por isso mesmo – ele insiste –, a psicanálise é requerida. Não para mitigar a insatisfação que, de resto, fazemos tudo para conservar, mas para abrir a chance de um encontro com este ponto de dissimetria, de conflito, e para convocar o sujeito a bem dizer o seu sintoma. 

Fernanda Costa-Moura 

Ângela Jesuíno 

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