O que é que a psicanálise e a neurologia se ensinam mutuamente?

 

Síndromes de falsos reconhecimentos e somatoparafrenias [1]

 

Stéphane Thibierge, Catherine Morin

 

Queremos mostrar aqui de que maneira a psicanálise e a neurologia podem esclarecer mutuamente certos elementos e certos aspectos de suas práticas e de suas problemáticas respectivas. Nos apoiaremos para tanto em certos fatos clínicos que se relacionam com as desordens do reconhecimento, em particular o reconhecimento das pessoas e o do corpo próprio ou de algumas de suas partes, nas psicoses e em certas patologias neurológicas.

 

Trata-se para nós, com isso, de propor uma contribuição ao debate contemporâneo sobre a epistemologia da psicanálise, dando relevo em particular ao que ela traz para o neurologista sobre uma noção tão fundamental quanto a de reconhecimento, e também ao que ela recebe, em retorno, de esclarecimento da neurologia. Esse trabalho nos parece assim poder contribuir para situar de maneira mais precisa as questões do debate contemporâneo entre a psicanálise e o que chamamos de “neurociências”.

 

Psicanálise e neurologia: duas disciplinas clínicas

 

A psicanálise e a neurologia são, uma e outra, disciplinas clínicas, e seus encaminhamentos provêm, por isso, de alguns princípios elementares que lembraremos aqui brevemente.

 

1) Primeiramente, elas consideram que a patologia ou os sintomas nos informam sobre o que podemos chamar de uma “fisiologia”, isto é, sobre o que se poderá designar a partir daí como um funcionamento, se não normal, pelo menos identificável a partir das desordens que ele admite.

2) Em segundo lugar, a psicanálise e a neurologia consideram, uma e outra, que um sintoma só tem sentido em relação com outros sintomas. Ele deve ser considerado em um contexto, isto é, no conjunto dos traços que constituem o que se chama de síndrome.

3) Enfim e correlativamente, considera-se que, por trás da aparência ou da superficialidade dos sintomas, há que se buscar patologias específicas, isto é, a disposição em série de traços específicos. É apenas com esta condição que, em neurologia e em psicanálise, é possível identificar o que podemos chamar de fatos clínicos.

 

A fim de por em prática os três princípios que acabamos de evocar – princípios elementares que, repetimos, são comuns à psicanálise e à neurologia – é absolutamente necessário escutar o doente. Só as palavras do doente podem com efeito nos informar sobre cada sintoma, sobre a relação eventual de um sintoma com outros sintomas, enfim, sobre a sua disposição em série, como por exemplo sua identificação como síndrome. Em neurologia e em psicanálise, é indispensável passar pelas informações que recolhemos da boca de um doente para poder identificar corretamente o que diz respeito a sua patologia.

 

Psicanálise e cognição: reconhecimento, imagem e objeto

 

De início, evocaremos a psicanálise e a maneira como ela nos esclarece sobre as condições e sobre as funções do reconhecimento. O reconhecimento é uma noção que não interessa apenas aos psicanalistas, interessa mais geralmente aos clínicos e especialmente aos neurologistas.

 

A função do reconhecimento nos conduz logo de início a examinar como e sob que termos a psicanálise dá conta da neurose. A neurose designa para os psicanalistas uma certa estrutura da relação entre o narcisismo, ou seja, o eu, de um lado, e o objeto do desejo de outro, objeto que Freud designou como fundamentalmente recalcado na neurose. Para caracterizar, breve, mas precisamente, essa estrutura, podemos dizer que nela o sujeito humano desconhece seu desejo e a permanência desse desejo, recobrindo-o com seu eu. É precisamente o que o narcisismo efetua. E o resultado desse recobrimento consiste no que chamamos de reconhecimento da realidade.

 

Jacques Lacan pôde mostrar como a forma princeps do reconhecimento nos é dada com o reconhecimento pelo pequeno humano de sua imagem no espelho, numa idade compreendida entre 6 e 18 meses.

 

Os psicanalistas se ocupam particularmente com a relação, para um sujeito, entre o narcisismo e o objeto do desejo. O que chamamos de nosso eu, ou ainda de nossa imagem, resulta, com efeito, do recalque do objeto de nosso desejo, objeto que Freud determinou como objeto pulsional. E os analistas podem mostrar, pois isso constitui o essencial de sua prática cotidiana, que o sujeito humano ordinariamente desconhece seu desejo: o objeto desse desejo, com efeito, bem como sua permanência, ele os encobre com seu eu, isto é, com sua imagem especular.  No artigo que citamos, Lacan mostra como esse eu, ou essa imagem, tem exatamente a mesma estrutura que nossa apreensão imediata da realidade, ou seja, que o reconhecimento. Nós só reconhecemos, com efeito, a realidade com a condição do recalque. Ela supõe a manutenção em segredo, sob o regime da censura, do objeto efetivo do desejo.

 

  1. Lacan resume o que podemos considerar assim como uma aquisição da psicanálise, dizendo que o sujeito desconhece seu desejo dissimulando-o sob a imagem de seu eu, ou sob o reconhecimento, pois dá no mesmo. Na sequência de seu ensino, ele forneceu uma fórmula elementar desse reconhecimento ou dessa imagem. Com efeito, ele escreve i(a): i para imagem, de a, essa letra que remete ao objeto.

 

Esta fórmula muito concisa quer indicar principalmente que a imagem que reconhecemos, ou ainda nossa percepção mais imediata da realidade, repousa sobre o recalque do objeto do desejo, e designa esse recalque como sua condição necessária. É o que Lacan resumirá da seguinte maneira:

“O sujeito transfere a permanência de seu desejo a um eu, no entanto evidentemente intermitente, e inversamente se protege de seu desejo lhe atribuindo essas próprias intermitências.”

 

Precisemos aqui brevemente as condições desse recalque do objeto. São aquelas mesmas que permitem a entrada da criança num contexto de linguagem, contexto em que vai se jogar para ela o acesso à função simbólica. O que a psicanálise mostra aqui é que a criança só pode aceder à linguagem sob a condição de uma perda do objeto designado por Freud como pulsional.

 

A criança não entra voluntariamente num mundo de linguagem. Ela entra nele, por assim dizer, a contragosto. É apesar dela que ela é representada num mundo em que o outro lhe fala, ou em que se fala dela. Cada sujeito humano pode fazer a experiência dessa questão eventualmente angustiante: o que o outro[2] quer de mim? O que ele espera de mim? O que deseja ele de mim? Que parte do meu corpo ele quer?

 

Como se pode apreender facilmente, é do outro que o sujeito recebe essas questões, e elas visam sempre concretamente ao corpo da criança, enquanto sujeito que veio ao mundo.

 

Assim, é a demanda do outro, tal como ela se exprime através da linguagem, que isola um objeto no corpo da criança.

 

Esse objeto, nós podemos especificá-lo, seguindo Freud, inicialmente como objeto oral, objeto da demanda de amor por excelência: trata-se do seio materno, o objeto que imaginamos facilmente como o primeiro de todos. Isolaremos também o objeto anal, as fezes, objeto por excelência da demanda da mãe, e que corresponde na criança ao voto de satisfazer aos pais: é o objeto que ela tentará restituir ao outro, lhe dar, e assim tentar responder ao que o outro espera.

 

Ressaltemos também esses dois objetos precisamente identificados por Lacan, mas que Freud já havia mencionado, a saber, a voz e o olhar, que são igualmente de início objetos do desejo do outro, antes de se tornarem objetos do desejo do sujeito. No começo da vida, o corpo do lactente é inteiramente investido por esses objetos pulsionais. A psicanálise designa esse estado do corpo assim investido com o termo gozo. A criança é de início inteiramente tomada nas necessidades do gozo, isto é, dos objetos pulsionais que a demanda do outro delimita em seu corpo. Como se constata facilmente ao observar um lactente, esse gozo não é um estado fácil nem confortável. A criança mostra muito mais uma aflição e uma dependência muito marcantes em relação ao outro. De fato, essa relação primeira com o objeto e essa primeira tomada do gozo sobre o corpo da criança são chamadas, a princípio, a passar para as formas socializadas da troca humana. Em outros termos, a criança é chamada a deixar cair uma parte desse gozo inicial dos objetos pulsionais. Trata-se dessa parte que ela deve abandonar ao outro para poder entrar na troca humana, ou seja, para poder aceder à linguagem, à função simbólica.

Isso nos explica por que os diferentes objetos que evocamos – o seio, o objeto anal, a voz e o olhar – são chamados a serem essencialmente cedidos ao outro: em uma palavra, e segundo o conceito que Freud elaborou, recalcados.

 

O acesso da criança à linguagem e à função simbólica supõe que sua relação com o objeto possa passar para as formas socializadas da troca. É o que explica que esse objeto, o objeto do desejo, não seja reencontrado tal e qual, realmente, mas seja sempre buscado sob estas formas socializadas que acabamos de evocar. São por exemplo a alimentação e suas preparações, ou então o dinheiro, ou os presentes, é o que uma criança representa para sua mãe, ou o que uma mulher representa para um homem, etc.

 

Psicose, imagem e objeto

 

Venhamos agora ao que a psicanálise permitiu descobrir e estabelecer a respeito das psicoses. Trata-se, em relação à nossa exposição, principalmente do seguinte: que o recalque não se encontra instalado nela. O que chamamos de psicose tem a ver com efeito com o fato de que a criança não pôde abandonar a parte de gozo, ou o objeto, que se veem comumente abandonados ao Outro, como acabamos de ver. O recalque não é posto em função. A psicanálise pôde mostrar, e um de nós desenvolveu isso em outro lugar, que essa ausência de instalação do recalque é correlativa de um comprometimento da imagem do corpo, ou seja, da forma princeps do reconhecimento: a imagem do corpo, isto é, a forma princeps do reconhecimento, não se sustenta.

A psicose nos permite assim observar uma estrutura clínica na qual encontramos correlativamente ligadas a ausência do recalque e a decomposição, ou a não consistência, da imagem do corpo. Essa imagem se apresenta como despedaçada, decomposta, enquanto o objeto pulsional vem para o primeiro plano da experiência do sujeito.

Esta vinda para primeiro plano do objeto se traduz por fatos clínicos notados regularmente numa psicose: são especialmente os fenômenos elementares, o automatismo mental magistralmente descrito por Clérambault, ou ainda as alucinações.

Resulta daí que, na psicose, a fórmula i(a) que vimos indicar para Lacan a consistência da imagem especular, ou ainda do reconhecimento, não é sustentável. Com efeito, a imagem do corpo na psicose não é, propriamente falando, da ordem do reconhecimento. Ela é marcada por traços do objeto, ela é mesmo mais precisamente decomposta pela vinda desse objeto para o primeiro plano. É o que podemos escrever não i(a), então, mas i <=> a como propôs Marcel Czermak, e como um de nós pôde desenvolver em outro lugar.

Essa vinda para o primeiro plano do objeto, na clínica das psicoses, tem consequências marcantes na ordem da cognição e da percepção. São as alucinações e os fenômenos elementares, nós vimos, mas também as desordens cognitivas como as ruminações estéreis, as vozes alucinatórias ou as alucinações visuais, os fenômenos de dispersão da percepção da imagem, os fenômenos de reduplicação do rosto ou da imagem do corpo, e geralmente um despedaçamento dessa imagem.

 

Algumas síndromes ilustram precisamente, no campo das psicoses, essa vinda do objeto para o primeiro plano e sua incidência sobre a percepção e sobre a imagem do corpo.

 

Mencionemos logo de início a síndrome de Cotard, isolada no fim do séc. XIX e estudada por Marcel Czermak em 1986. Nessa síndrome, observa-se regularmente um delírio de pequenez ou de enormidade, ou então a imagem do corpo é despedaçada. Tal como nos evoca o sujeito, ela não tem forma estabilizada. Por outro lado, o sujeito observa de maneira regular como os orifícios de seu corpo estão tapados: nada vem fazer ruptura ou limite no interior ou no exterior desse corpo.

Os psicanalistas, e em particular Marcel Czermak, puderam ressaltar através desses sintomas uma vinda para o primeiro plano do objeto pulsional, obstruindo, literalmente, todo o campo da experiência do sujeito. A isso se acrescenta o que se pode provavelmente ressaltar como desordens cognitivas específicas, em particular o que o inventor dessa síndrome, Jules Cotard, chamava de “a perda da visão mental”. O sujeito se queixa de uma visão de alguma maneira ausente, a entender como uma visão sem olhar, dessubjetivada, que se efetua sem que nenhuma questão a anime mais.

 

Mencionemos também, para ilustrar essa vinda do objeto para o primeiro plano e essa decomposição das coordenadas do reconhecimento, a síndrome de Frégoli, identificada por Courbon e Fail em 1927. Essa síndrome apresenta de notável o seguinte: o sujeito identifica sempre o mesmo, isto é, a mesma pessoa por trás das aparências variadas de seus interlocutores. Assim, no caso princeps de 1927, a paciente reconhece a mesma perseguidora, a atriz Robine, por trás das imagens variadas dos outros que ela encontra.

Ela se queixa igualmente do fato de Robine utilizar partes de seu corpo para aumentar sua própria beleza, ou que Robine lhe envia ordens impostas, “influxos” e outros fenômenos xenopáticos, etc.

Contrariamente ao que às vezes se pode ler, a síndrome de Frégoli não é de modo algum rara entre as psicoses. Um autor como Mojtabai, estima aliás que a síndromes de falso reconhecimento, as “misidentification syndromes”, como as chama a literatura anglo-saxã, são justamente… “sub-identificadas”. O presidente Schreber já escrevia em suas Memórias, no capítulo 8:

 

“Quase todo o público dos doentes do estabelecimento trazia a marca de personalidades das quais eu mais ou menos tinha tido a ocasião de me aproximar no curso de minha existência passada.”

 

O que Schreber descreve evoca muito de perto a síndrome de Frégoli. Erik Porge descreveu em 1986 o caso de uma paciente para quem todos os homens que ela encontrava eram o mesmo, Peter. Peter tomava emprestado o lábio inferior da paciente, o que modificava sua voz, ela dizia.

Além disso, certos traços “frególicos”, por assim dizer, podem ser identificados em outras psicoses de forma paranoica. Assim, um de nós pôde descrever um caso no qual uma religiosa toma a aparência da paciente, ou ainda vem se alojar em tal ou qual parte de seu corpo, em particular em sua mão.

 

Lesões cerebrais, narcisismo e objeto

 

As lesões cerebrais inatas ou adquiridas podem alterar diversas funções. Pensa-se mais frequentemente em funções sensório-motoras, mas as lesões cerebrais podem também alterar cognição, discurso ou comportamento, isto é, causar desordens de natureza “psicológica”.

 

O que a neurologia trabalha para estabelecer é o laço entre disfunção cerebral e lesões cerebrais. Por exemplo, diante de um paciente cuja família julga apático e irritável há vários meses, que se queixa de dores de cabeça e cujo exame revela uma perda do olfato, o neurologista pensará em um tumor benigno, o que a RM comprovará. Neste caso, se a sintomatologia psicológica desaparece depois da ablação do tumor, ela só tem um interesse diagnóstico.

 

Mas o neurologista é às vezes constrangido a refletir sobre a significação das desordens neurológicas de origem cerebral. É o caso quando ele trabalha em medicina de reabilitação. É habitual em reabilitação raciocinar em termos de compensação das funções perdidas, e ver na “motivação” do paciente e na sua capacidade de “aceitar sua deficiência” elementos essenciais para uma readaptação bem-sucedida. No entanto, a experiência cotidiana mostra que para o paciente se trata também de encontrar uma imagem aceitável de si mesmo, isto é, de restaurar um certo narcisismo, e que o desejo que o anima, que lhe permite estar “motivado”, permanece opaco para os terapeutas.

 

Isto vale para qualquer deficiência, quer a lesão causal seja ou não cerebral. Quando a lesão é cerebral, uma outra pergunta se coloca: uma vez que não há atividade psíquica que não tenha inscrições cerebrais, narcisismo e desejo poderiam ser “mecanicamente” alterados pela lesão cerebral?

 

A síndrome hemisférica direita: uma patologia do narcisismo

 

A síndrome hemisférica direita presentifica um caso em que o narcisismo é diretamente alterado pela lesão cerebral. Essa síndrome acompanha em geral uma hemiplegia esquerda (paralisia do hemicorpo e em particular da mão esquerda); comporta sintomas que poderíamos chamar de “cognitivo-corporais”. O paciente não presta atenção aos estímulos provenientes de seu hemiespaço esquerdo, ele os “negligencia” da mesma maneira que pode negligenciar seu hemicorpo esquerdo (negligência visuoespacial). Ele pode assim se chocar contra os obstáculos à esquerda, não encontrar seu quarto quando ele está situado à esquerda da entrada do serviço, deixar a alimentação na metade esquerda de seu prato, só barbear ou maquiar a metade esquerda do rosto. No mais alto grau, o paciente não reconhece sua mão esquerda paralisada quando a mostram a ele ou quando o fazem tocá-la, pretendendo às vezes que ela pertence ao examinador (assomatognosia). Todos os pacientes somatoparafrênicos têm um certo grau de desconhecimento de sua hemiplegia, de suas consequências ou das desordens cognitivas que a acompanham. Este desconhecimento foi nomeado anosognosia por Babinski. Um paciente anosognósico pode negar ou recusar admitir que está paralisado de um lado, ou minimizar as consequências dessa paralisia (anosodiaforia). Esse desconhecimento aparente da realidade fisiológica das desordens, da natureza exata de suas desordens, não impede o paciente de se dizer diminuído, de empregar termos extremamente pejorativos ao falar de si mesmo.

 

A estas desordens pode estar associado, ou suceder, um discurso pejorativo, de desprezo ou odiento com relação à mão paralisada – Critchley falava de misoplegia – e uma personificação dessa mão da qual o paciente fala como sendo de ou pertencendo a outra pessoa. Gertsmann designava essa atitude com o nome de somatoparafrenia.

 

O estatuto dessa “mão-pessoa” deve ser examinado. Na literatura neurológica, uma de nós havia recenseado, em 2004, 29 observações neurológicas em que a personificação da mão era descrita de maneira detalhada. Em um terço dos casos (10 pacientes, dos quais 7 mulheres), os pacientes falavam de sua mão paralisada como de um filho. Podia também se tratar de um cadáver, de um esposo ou de uma esposa, de um animal de companhia virtual, de uma velha senhora, de uma mulher morta, do médico ou da enfermeira. A imagem do corpo está aqui desfeita, ela não é objeto de amor, mas de desprezo, de repulsa ou de ódio. O narcisismo é então bem comprometido pela lesão cerebral.

 

Síndrome hemisférica direita, imagem do corpo e objeto

 

O que acontece com a relação com o objeto na síndrome hemisférica direita? Apresentamos aqui observações recentes de pacientes que tiveram um acidente vascular cerebral do hemisfério direito nas semanas ou meses precedentes, atendidos em um serviço de Medicina Física e Readaptação. Estas observações esclarecem as relações entre corpo paralisado, imagem do corpo e objeto.

 

A mão paralisada como filho

 

Em vários pacientes assomatognósicos e anosognósicos, observamos a personificação do braço paralisado sob a forma de um filho. Essas observações são excepcionais pela persistência dos sintomas para além dos primeiros dias depois do acidente causal. Uma dessas pacientes, como lhe pediam notícias de seus filhos, sacudiu seu braço paralisado, gritando: “Lulu, diga bom dia!” Essa paciente havia estado um tempo persuadida de que seu braço esquerdo era o de sua filha Lulu, “que ficou colado depois de um carinho”, e ao mesmo tempo, ela não reconhecia a verdadeira Lulu, dizendo “isso não é minha filha!”. Uma outra inventava um cenário, que, dizia ela, a consolava, no qual seu braço esquerdo era uma filha nascida no dia do AVC, repousando no berço do braço da cadeira de rodas.  Ela havia lhe dado um nome: “folha” – já que, dizia ela sorrindo, as folhas ficam verdes novamente a cada primavera.

 

A mão paralisada como objeto sexual

 

O senhor L., durante uma entrevista com uma de nós, disse ter dado um nome a sua mão paralisada:

 

“Eu a chamo de minha franga”. Ele acrescenta: “Ela poderia bem fazer algo por mim, a saf.!!!” Sua interlocutora procura saber: “Minha franga… há alguém que você chama de minha franga, sua mulher, talvez?” e o senhor L. responde: “Ah, não, eu não me permitiria! Minha mulher, eu chamo de minha cabritinha!”

 

Como as observações femininas de “mãos-filhas”, esse caso masculino – tão classicamente freudiano pela dissociação entre as figuras da mulher como mãe idealizada e como objeto sexual desprezível – promove o estatuto de objeto da mão paralisada.

 

A mão paralisada como objeto oral

 

Uma de nós relatou o caso de dois pacientes que não reconheciam sua mão esquerda paralisada como sua, e nos quais essa mão estava cheia de qualidades orais: um destes pacientes, por um lado personificava seu braço esquerdo (“ele não tem mais vontade de trabalhar, ele não está errado, ele trabalhou demais também, ele gostaria de parar, ele é como eu”) e, de outro lado, declarou um dia que, acreditando ter visto passar “um braço esquerdo”, tinha tido “vontade de mordê-lo”. O outro, apesar de ser destro, gratificou sua interlocutora com um beija-mão “porque eu não posso apertar a mão” e, com a mesma justificativa, desenhou lábios (“um beijo”) ao lado de seu autorretrato.

 

Observamos nesses casos, de uma parte, um despedaçamento da imagem do corpo (lábios ao lado do rosto), de outra parte, traços evocando um objeto morto ou inanimado (filha-folha), partes do corpo autonomizadas (um braço que passa, um braço “colado”) ou animados por uma vida pessoal. Todos estes traços fazem parte daqueles que para Freud suscitam a impressão de “inquietante estranheza”, e para Lacan caracterizam a vinda para o primeiro plano do objeto normalmente recalcado.

 

Síndrome hemisférica direita, preocupações orais e anais

 

Discursos aparentemente mais banais testemunham também a intrusão do objeto oral ou anal na realidade psíquica dos pacientes. Assim, o senhor Z se espanta, anos depois de uma temporada de reeducação, com as brincadeiras de mal gosto que trocava então com seu vizinho de quarto: “nós dizíamos que, se a comida era ruim, era porque nos davam para comer os doentes falecidos”. O senhor H propunha uma técnica original de reeducação: “Creio que seria preciso me deixar sozinho num cômodo onde houvesse um banheiro, então eu creio que eu faria qualquer coisa, mas… era preciso que eu fosse até lá… isso seria quase uma experiência a fazer… sim… que poderia ser perigosa, mas enfim…”

 

Tais preocupações poderiam parecer banais em pacientes hospitalizados, submetidos a regimes mais ou menos frustrantes, obrigados a pedir ajuda para satisfazer suas necessidades naturais. Na realidade, pudemos mostrar, a partir de um estudo prospectivo nos primeiros dias depois de um AVC (Morin et col., em preparação), que a frequência dessas preocupações orais e anais estava estatisticamente ligada à da assomatognosia. Uma de nós também descreveu em uma monografia o caso de um paciente que, apresentando uma negligência persistente e muito invalidante do hemiespaço esquerdo, descrevia sua patologia em termos de desordens da oralidade.

 

Constata-se nestes casos neurológicos a concomitância dos três elementos identificados nas psicoses: desordens cognitivas (anosognosia, assomatognosia), um comprometimento da imagem do corpo que perde sua unidade e sua individualidade, uma intrusão na realidade psíquica do paciente do objeto que deveria normalmente faltar, estar recalcado, e poder assim suscitar o desejo.

 

Podemos dizer então que, na somatoparafrenia, assim como nos falsos reconhecimentos psicóticos, a imagem do corpo está desfeita, o objeto presente demais, a cognição perturbada.

 

O que se ensinam então mutuamente psicanálise e neurologia?

 

Contribuição da neurologia à psicanálise

 

A neurologia apresenta variantes extremamente eloquentes e instrutivas da relação de exclusão mútua, que ressaltamos, entre a consistência da imagem e a vinda para o primeiro plano do objeto. Isso parece favorecer a hipótese que fazemos dessa correlação regular entre o recalque do objeto e a consistência da imagem, isto é, a forma do reconhecimento em geral.

 

Contribuição da psicanálise à neurologia

 

Do ponto de vista do neurologista médico de readaptação, uma leitura psicanalítica das observações expostas aqui apresenta um interesse prático. Ela convida, com efeito, os reeducadores a não aplicar rapidamente demais, sobre o comportamento de seus pacientes, noções psicológicas “simples”. Por exemplo, “luto” ou “tomada de consciência” são frequentemente evocados em matéria de readaptação. Na prática, mesmo se eles sabem que a anosognosia é de origem lesional, os reeducadores têm espontaneamente tendência a tentar, seja convencer o paciente da existência e da intensidade de sua deficiência, seja a compreender por que ele não pode “psicologicamente” suportar sua deficiência. No entanto, quando eles tentam fazer o doente tomar consciência de sua deficiência, os riscos que ela o faz correr, eles suscitam às vezes reações agressivas quase paranoicas, o paciente se sentindo maltratado ou infantilizado. De fato, parece ilusório esperar tomada de consciência e motivação por parte desses pacientes na medida em que a imagem especular, da mesma forma que as relações entre imagem do corpo e objeto, estão neles alteradas demais.

 

Conclusão 

 

De maneira mais geral, parece-nos possível sublinhar o valor clínico e teórico do fato que ressaltamos aqui, em psicanálise e em neurologia, a saber, a correlação regular entre a consistência da imagem especular e do reconhecimento de um lado, e o recalque do objeto de outro. Isso conduz a que se pergunte se é pertinente, utilizando as “normas” estabelecidas para sujeitos em quem a imagem especular está constituída e o objeto recalcado, tentar avaliar as capacidades cognitivas de sujeitos em quem, por razões de estrutura (psicoses) ou acidentais (lesões neurológicas), observa-se uma prevalência do objeto no campo do reconhecimento e uma desagregação da imagem especular. Poderíamos assim fazer valer, em consideração a nossos colegas que estudam os transtornos cognitivos de pacientes psicóticos, que, tomar como ponto de partida prático, teórico e metodológico o que eles consideram como uma cognição normal – as condições normais do reconhecimento – supõe precisamente o que evocamos aqui como as condições primeiras do recalque do objeto e da consistência da imagem. Tomando-se de saída como padrão de medida essas condições de um reconhecimento efetivo, cai-se em um círculo, supondo presentes a priori as funções e as modalidades funcionais que se trata por outro lado de pesquisar ou de  avaliar.

 

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[1] Recherches en Psychanalyse, 2009/1 (nº 7), pp.69-78.
http://www.cairn.info/revue-recherches-en-psychanalyse-2009-1-page-69.htm
Tradução: Anna Carolina Lo Bianco
Revisão: Sergio Rezende

[2] Lacan o escreve Outro, com maiúscula, para sublinhar como esse outro designa para o sujeito um endereçamento e uma demanda que levam bem para além de qualquer interlocutor na realidade, para tocar nos símbolos fundamentais que fazem as primeiras questões de sua existência.

 

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