O que é uma transferência de trabalho?

Charles Melman

Giornate di studio “Lacan in Italia”
Roma 1-2-3 de novembro de 1991

Serei muito rápido por causa da hora.

Como vocês sabem, Lacan se queixava freqüentemente. Ele começava, freqüentemente, uma de suas intervenções por um grande suspiro: Pffff…! Entre suas queixas, havia uma que dizia: “Os psicanalistas não fazem nada.

Isso tem, pelo menos, a vantagem de levantar a questão de nossa relação ao trabalho para todos; pois é verdade que somos fundamentalmente, essencialmente, preguiçosos. E se é verdade que, para Lacan, a transferência de trabalho é suscetível de vir substituir o amor de transferência – ou seja, vir marcar o que seria o fim de um tratamento – a questão de nossa preguiça fundamental nos concerne duplamente.

Por que é que somos fundamentalmente preguiçosos?

Pois bem, porque sabemos, na medida em que temos um inconsciente, que o esforço de trabalho nunca é recompensado à altura, como teríamos querido; que, se trabalhamos, é sempre a fundo perdido. Em outras palavras, que o gozo que experimentamos no trabalho sempre se acompanha de uma decepção que lhe é essencial. É certo que isso concerne primordialmente ao trabalho do inconsciente, ao trabalho próprio do inconsciente, pois ele nunca conseguirá apreender o objeto que o anima, falo do caso comum, do caso habitual, o que faz com que nunca possamos senão repetir o malogro dessa apreensão. E é por isso mesmo que somos tomados, todos, por essa neurose constituída pela repetição do malogro.

Aqui, duas questões rápidas: de onde nos vem a injunção a trabalhar, por que é que nossa preguiça é sempre ressentida como culpável? E depois, a quem então beneficiaria nosso trabalho?

Essa injunção a trabalhar, que nos faz ressentir nossa preguiça como culpável, nos vem, incontestavelmente, do efeito que sofremos do significante mestre, na medida em que ele se refere, toma sua autoridade, desse ao-menos-Um, essa instância isolada por Lacan, e que a figura paterna situa no limiar, cuja emergência ele situa no limiar de nossa cultura. Sem esse referente, se esse referente falta, pois bem, fazemos parte dessas populações que vivem, felizes, da caça, da pesca, da colheita, ou mesmo da vida pastoral; em outras palavras, que vivem perfeitamente sem conhecer o trabalho, ou seja, que estimam que Deus é quem tem que trabalhar por elas e lhes fornecer aquilo de que elas têm necessidade.

Se me permito essa pequena digressão é para sublinhar o quanto os psicanalistas estão comodamente, justamente na mesma posição que essas populações. Quero dizer que eles esperam que, no inconsciente, o achado lhes seja enfim fornecido, que ele venha a eles. Ou seja, eles estão cansados de, eles próprios, produzirem sem cessar para esse Outro que se cala obstinadamente e gostariam bem que ele lhes cedesse essa recompensa que viria, de algum modo, sustentá-los, alimentá-los.

É, igualmente, essa figura paterna que reencontramos no lugar daquele que é suposto gozar desse produto de nosso trabalho, aquele a quem esse a mais, essa mais-valia, esse mais-de-gozar agradaria. Em outras palavras, esse explorador que teríamos, assim, que abastecer continuamente e que nos privaria do gozo perfeito que teríamos o direito de esperar…

Eu me permito lembrar-lhes nessa ocasião que foi aqui, em Roma, que Lacan deu a fórmula do discurso do capitalista, o que ele nunca fez na França – por razões que concernem a ele. E trata-se de uma fórmula – acho que não há quadro-negro… Sim, desculpem! há um. Então não vou usá-lo… – muito interessante, na medida em que ela nos dá testemunho… Vocês sabem que se trata de uma inversão da parte esquerda do discurso do Mestre e S é que aparece em posição de agente, em posição de mestria, enquanto S 1 aparece em posição de verdade. Suponham o discurso do mestre, cujos quatro elementos estariam inscritos em uma faixa, vocês operam uma torção moebiana dessa faixa e terão essa inversão que faz com que seja S quem apareça em posição de mestria, S 1 em posição de verdade.

Dito de outra forma, aquilo que para nós faria apelo no Outro para que produzíssemos, para que cedêssemos esse mais-de-gozar, seria S em posição de mestria, ou seja, a pura hiância no Outro, o apelo, por que não dizê-lo assim, o apelo do vazio, o apelo de sua falta. E é a esse respeito que Lacan chamava a atenção para o fato de que o proletário gosta de chamar sua mulher de “a patroa”(2) : é para tentar satisfazê-la que ele responde a esse apelo do vazio que percebe nela.

Uma outra observação de Lacan a esse respeito, suscetível de nos interessar: é que, se somos, nessa situação, assim neuróticos em relação ao trabalho, quero dizer numa posição que é, ao mesmo tempo, de obrigação e de reticência, de recusa, pois sabemos que seremos roubados, que seremos explorados, que nosso trabalho não será pago, pois bem, se estamos nessa situação, portanto, de neuróticos, acontece também que esse trabalho, longe de nos liberar, na situação que acabei de descrever, contribui para nos tornar servos, nos tornar escravos.

Há, quanto a isso, essa fórmula notável de Lacan, plena de reflexões: “O que torna o proletário servo é, entretanto, esse gozo que o liga a seu trabalho. É disso, bem mais que do senhor que ele se torna servo.” Concebe-se, em todo caso, o quanto trata-se aí – poderíamos chamá-lo assim, se vocês permitirem – de um aspecto lastimável, eu diria, não da consciência, mas de nossa inconsciência, essa relação ao trabalho.

E o problema que, muito rapidamente, estou abordando é o de saber se nós, enquanto analistas, somos suscetíveis de sair disso, de escapar a isso.

Certamente que, a partir do momento em que estamos em condições de constatar que o mestre de que se trata é uma das figuras construídas por nossa relação à estrutura, um efeito de nossa relação à linguagem, na medida em que percebemos que o amor, o amor de transferência, pelo qual tentamos nos recuperar desse trabalho, interrompê-lo por um tempo, responder a esse grande Outro exigente dizendo-lhe: “Pois bem, então… eu te ofereço o que posso oferecer de melhor, ou seja, meu amor” – o que é, ao mesmo tempo, evidentemente, parar imediatamente com nosso esforço. “Vamos nos amar reciprocamente”: boa maneira de fazer uma pausa que pode, evidentemente, se prolongar por toda a vida – é mesmo por isso que se a transferência, no tratamento, pode constituir seguramente seu motor, pode também constituir o ponto de obstáculo, o ponto de parada definitiva do esforço empreendido na análise.

Portanto, se é possível, pelo tratamento, que obriga o inconsciente a trabalhar, quero dizer, fazê-lo sair dessa preguiça na qual ele gostaria de ficar, desalojá-lo do amor pelo qual ele tenta descansar de sua fadiga, pelo qual ele tenta responder à exigência do Outro, à injunção do Outro, então, se isso é verdade, pode-se ver como, efetivamente, o trabalho, a partir desse momento, se presta para nós a uma verdadeira reapropriação. Não mais essa alienação do trabalho para o outro, mas trabalho que se torna, a partir desse momento, aquele que o sujeito faz para si mesmo. E isso dentro de um objetivo muito preciso, na análise: ele trabalha para tentar se desembaraçar, o máximo que puder, dessa coerção na qual a linguagem o prende e que faz dele alguém que na vida é essa espécie de fantasma perdido: ele não sabe o que faz, não sabe o que quer, não sabe o que diz. E é essa mesmo, como vocês sabem, exatamente a condição ordinária de nossa existência.

Eu gostaria, a esse respeito, quanto a essa observação concernente à necessidade, para o analista, de considerar esse momento possível de uma reapropriação do trabalho, esse momento em que o trabalho tomaria para ele, e talvez para outros, um sentido totalmente diferente, gostaria de lhes chamar a atenção para o seguinte: os discípulos, os que são chamados por esse nome, são habitualmente pessoas que estão numa posição extremamente difícil e perigosa. Se fizermos um pequeno percurso do lugar dos discípulos na história do pensamento, podemos constatar que o que eles produzem é, em geral, ca-tas-tró-fi-co. Em geral, o que os discípulos fazem é o que há de pior.

E poderíamos começar, se vocês quiserem, pelo que Aristóteles fez com Platão, ou seja, a maneira pela qual ele transformou um ensino que estava organizado sobre o dizer, sobre a enunciação, que o fazia apoiar-se inteiramente na enunciação e no diálogo, ele o transformou em um ensino organizado por uma série de enunciados. Poderíamos, evidentemente, discorrer muito rapidamente sobre o que os discípulos fizeram com Hegel, sobre o que os discípulos fizeram com Marx e depois, naturalmente, teremos que nos interrogar sobre o que os discípulos farão com Lacan.

Por que é que os discípulos ficam presos habitualmente numa posição tão perigosa e tão imbecilizante para eles? Pela seguinte razão, que eu lhes proponho muito rapidamente, de que o que era o real do ensino de seu mestre e que, evidentemente, é essencial não para tentar compreendê-lo, mas para situá-lo corretamente, esse real que faz entrave no ensino de seu mestre, que constantemente faz problema, que constitui o verdadeiro objeto do ensino de seu mestre, pois bem, esse real, os discípulos inevitavelmente o esquecem, eles o perdem.

E aquilo que se torna o real deles é o texto de seu mestre, são suas palavras, são seus escritos. Em outras palavras eles se transformam em hermeneutas e trata-se, desde então, para eles, de interpretar, disputando entre si para saber quem interpretou melhor o pensamento do mestre; trata-se, desde então, de interpretar qual era o verdadeiro sentido do ensinamento desse mestre. E isso, mesmo se esse mestre permitiu – e isso foi tão bem lembrado essa manhã, entre outros, por Jacqueline Risset – quando esse mestre especificou claramente que todo o seu ensino era feito para nos desprender do sentido e nos desembaraçar dessa idéia de que o mundo era organizado por um grande Texto, que tratava-se, para nós, de decifrar.

Pois o inconsciente, se o inconsciente é organizado pela língua, pois bem, como vocês sabem, trata-se de lalangue, ou seja, de modo algum de uma linguagem. O inconsciente, não se trata de um livro, de um texto escrito, de um texto dotado de sentido. Trata-se, seguramente, de uma escritura, mas diante da qual não podemos, de modo algum, se justamente queremos nos colocar em uma posição correta frente a ele, comportarmo-nos como hermeneutas.

O problema, então, da transferência de trabalho, na medida em que ela vem responder e se opor ao amor de transferência, é um convite – em todo caso é assim que eu a proponho, que eu faço, no que me concerne, uma exegese dela – a nos servirmos do ensino de Lacan para apanhar aí os instrumentos que ele nos dá e dos quais ele mesmo se serviu, para tentar nos desembaraçarmos dessa dominação que sofremos, da qual somos os efeitos, que sofremos por parte da linguagem; de tal maneira que, entre outras, encontremos, nem que seja frente ao trabalho, uma relação que não seja mais nem neurótica nem alienada, mas que possa ser uma relação de alegria.

Se é que ela permite nos sustentarmos nesse esforço de que eu falava, que eu evocava há um instante e que, me parece, poderia ser aquele que faria, entre os alunos de Lacan – pois os alunos de Lacan talvez sejam diferentes, justamente, de discípulos, já que se trata dos alunos de Lacan, pois então, talvez seja esse ponto que pudesse fazer entre os alunos de Lacan o tipo de comunicação, o tipo de laço que, sejam quais forem, por outro lado, seus horizontes, suas opções, suas inclinações pessoais, seus amores transferenciais, etc… que pudesse fazer, se posso dizê-lo, seu signo comum de reconhecimento.

Aí está, então, o que eu queria lhes fazer observar essa manhã.

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1.Tradução do texto “Qu’est-ce que c’est qu’un transfert de travail?”, publicado no Bulletin de l’Association lacanienne internationale, n° 47, maio de 1992. Tradução de Sergio Rezende.
2. Em francês, la bourgeoise.

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