Observações sobre situações de desespecificação pulsional em sua relação com as funções na psicose

Marcel Czermak, Stéphanie Hergott e Jean-Jacques Tyszler

Extrato (Jean-Jacques Tyszler)

Convocamos e evocamos mais frequentemente a oralidade, a analidade ou o escópico como se o objeto assim designado fosse evidente, de algum modo naturalmente especificado. Se Lacan designa muito precisamente uma série de objetos, a clínica das psicoses enfatiza a pura adequação entre um objeto, uma pulsão e uma função. E o termo desespecificação nos pareceria convir melhor para reunir fenômenos de outro modo descritos como regressivos e arcaicos. A oralidade psicótica obriga a definir mais seriamente o que faz furo e corte na estrutura. A desespecificação que opera nela esclarece igualmente um destino pulsional que talvez não esteja restrito às grandes loucuras.

Insistindo numa topologia dita de borda, Lacan não contrariou fundamentalmente os elementos principais que Freud tinha trazido para qualificar a pulsão: fonte, pressão, objeto e alvo. A essa montagem vêm se associar as quatro vicissitudes conhecidas: recalque, sublimação, inversão no oposto e retorno sobre a própria pessoa. Freud não vai encerrar a lista possível das pulsões: numa primeira aproximação, digamos que Lacan coloca em relação quatro objetos a, e, por conseguinte, quatro tipos de pulsões: oral, anal, escópica e invocante; essas duas últimas não sendo autonomizadas enquanto tais em Freud, principalmente a última. É de se notar que, em Freud, como em Lacan, a montagem pulsional necessita de certa plasticidade, seja pelo jogo gramatical, seja nas relações que o sujeito, pelo viés do significante, estabelece com o Outro.

Do ponto de vista do objeto

Em seu artigo de 1820, “Sobre a lipemania ou melancolia”[4], Étienne Esquirol já nos faz apreender, para dizê-lo como Lacan no Seminário 11[5], a libido; esse órgão, irreal, mas essencial para compreender a natureza da pulsão, pode se encontrar num estado de defecção: “Há os que se dilaceram as mãos, a extremidade dos dedos, e se destroem as unhas. Atormentado pela tristeza ou pelo temor, o olho e a orelha incessantemente à espreita, para o lipemaníaco o dia é sem repouso, a noite, sem sono. As secreções não se fazem mais”.

E, para ficar na oralidade, o relato da doença da revolucionária Téroenne ou Théroigne de Méricour, que contribuiu durante os acontecimentos de 1789 para corromper o regimento de Flandres, trazendo para suas fileiras moças de má vida; de sua hospitalização em La Salpêtrière, Esquirol relata os elementos, de resto clássicos, que permitem situar por que irreal não é imaginário e como, na falta de se articular, a libido desvela um real diferentemente cru:

Téroenne não quer tolerar nenhuma roupa, nem mesmo uma camisola. Todos os dias, de manhã e à noite, e várias vezes durante o dia, ela inunda seu leito, ou melhor, a palha de seu leito com vários baldes de água, deita-se e cobre-se com seu lençol […]. Ela anda de quatro, deita no chão; com o olhar fixo, recolhe todos os detritos que encontra sobre o piso e os come. Eu a vi pegar e devorar palha, pluma, folhas secas, pedaços de carne arrastados na lama etc. Ela bebe a água das sarjetas enquanto lavam os pátios, embora essa água seja imunda e cheia de lixo, preferindo essa bebida a qualquer outra.[6]

E, para dar a ouvir a infatigável pressão, o Drang freudiano:

Ela se aborrece, se exalta quando a contrariam, sobretudo quando querem impedi-la de pegar água. Uma vez ela mordeu uma de suas companheiras com tanta fúria que arrancou um pedaço de carne.[7]

Esquirol ressalta que, no psicótico, as grandes funções do corpo, aquelas ditas biológicas, podem se desintrincar completamente: o calor, o frio, o molhado, o seco, o sono, a vigília… tudo isso é revirado, como lembra frequentemente M. Czermak. Os orifícios do corpo se reduzem então a um só, estranha boca que pode também ser a orelha, o olho, o ânus etc. A mania exemplifica esse tipo de oralidade desespecificada, mas a melancolia ou o Cotard também o demonstram à sua maneira.

A oralidade, não esqueçamos, convoca tanto a alimentação quanto o fôlego, a respiração ou a voz.

Desde o começo e por vezes ainda hoje, experimentei as maiores dificuldades para tomar minhas refeições. […] Ninguém pode ter ideia dos obstáculos que eu tinha que combater; enquanto eu comia minha boca era alvo de milagres incessantes.[8]

É Schreber que comenta assim uma função tornada bem problemática: ele devia, com efeito, falar alto com a boca cheia. Seus dentes se quebravam enquanto ele estava comendo, ou então era o milagre da mordida na língua, ou ainda os pelos do seu bigode regularmente introduzidos na sua boca. A encruzilhada da oralidade convoca outros contratempos, como o milagre do uivo apoiado nos músculos que concorrem para o mecanismo respiratório. Passo por cima dos fenômenos referentes à palavra e à voz, múltiplos e cuidadosamente detalhados nas Memórias de um doente dos nervos.

Nas configurações frequentes da psicose, encontramos vestígio dessa desespecificação pulsional. Insistimos, em primeiro lugar, numa clínica do objeto caído: a intercambialidade se torna indiferenciação, o objeto, qualquer um, chama a boca. Interroguemos agora a gramática da pulsão.

Do ponto de vista do alvo (Ziel)

Os alvos pulsionais são situáveis, uns em relação aos outros, através do jogo sintático: ver/ser visto ou fazer ver/fazer-se ver. No tocante à pulsão oral, Lacan substituirá pelo fazer-se sugar o demasiado evidente fazer-se comer, para nos descolar da metáfora.[9]

O trajeto pelo Outro, o circuito que, de uma zona erógena, vem buscar algo de uma resposta no Outro, era muito esclarecedor no caso de uma jovem paciente que apresentava a eclosão de um automatismo mental.[10] Os traços principais do quadro clínico inicial constituíam-se de um mutismo, de uma recusa alimentar e do começo de um fenômeno de automatismo mental, intuição e eco do pensamento.

O automatismo mental tinha começado pelo eco simples (“eu me ouço pensar”), depois o pensamento tinha se difundido (“os outros também me ouviam”) para se transformar em síndrome de influência característica (“eu sou pensada”). O mutismo vinha fazer barragem contra essa imisção, esse sentimento de preenchimento automático.

A paciente não podia responder a demandas simples, às interrogações mais cotidianas; de cada fala, palavras fazem xenopatia e a precipitam do lado do real do objeto; assim ela não podia mais aceitar compartilhar a refeição familiar: “Se aceito o desejo de minha mãe de comer, eu me ligo interiormente a ela; ‘minha franguinha’ (um pequeno apelido) faz relação entre mim e ela, acaba-se por acreditar que se é o outro”.

A “franguinha” no Outro indica bem a ligação entre os reviramentos sintáticos (comer/ser comido – falar/ser falado) e a mistura das funções: a oralidade em sua totalidade se torna fonte de perplexidade e problemática; a palavra e a alimentação tornam-se corpo estranho, e a paciente só pode lhes opor o mutismo e a recusa alimentar.

O automatismo mental se explicitará com muita amplitude e a paciente só achará refúgio num messianismo delirante. Parafraseando a fala de M. Czermak referente à mania, poderíamos dizer que essa jovem paciente psicótica é engolida tanto quanto falada: isso a come, isso a suga, isso a dissolve, isso a comenta etc. É, portanto, a figura do Outro que assume aqui toda a importância, mas Outro sem barra, boca que não para de falar do lugar do sujeito e em seu nome, e que tende a reintegrá-lo, mecanicamente, automaticamente.

Nesse ponto, a oralidade não pode mais ser considerada no registro unívoco da metáfora alimentar, pois sentimos bem que a questão pulsional nos remete também à diferenciação da imagem especular; na lição de 18 de junho de 1969 do seminário De um outro ao Outro[11], Lacan propõe relacionar a pulsão oral à coisa placentária. Para além do aspecto nutridor, há o lugar desse objeto-símbolo da troca simbiótica, objeto definitivamente perdido, mas cujo eco ruidoso o automatismo mental talvez sinalize. “O sujeito nasce na medida em que no campo do Outro surge o significante. Mas, por isso mesmo – quem até então não era nada senão sujeito por vir –, se fixa em significante”.[12]

O mito de Aristófanes, a busca do complemento sexual, Lacan substitui pelo mito da lamela, a busca pelo sujeito da parte para sempre perdida de si mesmo. Esse objeto, a seu modo, o psicótico o encontra, ao preço de desespecificar precisamente o que em todo sujeito não é imortal, mas sexuado e sexual, aberto por isso à troca erótica, mas igualmente à troca social. Se a desespecificação da pulsão opera na psicose, podemos pensá-la em outros registros clínicos?

Do ponto de vista das zonas erógenas ou da fonte (Quelle)

No seminário de 1964, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, J. Lacan retoma longamente a teoria da pulsão por intermédio de uma topologia dita de borda: “A lamela tem uma borda, ela vem se inserir na zona erógena, isto é, num dos orifícios do corpo, na medida em que esses orifícios estão ligados à abertura/fechamento da hiância do inconsciente”.[13] Ele precisa que, à medida que outras zonas são excluídas, as partes ditas erógenas tomam sua função, que elas se tornam “fontes especificadas para a pulsão”.

Trabalhamos longamente no âmbito do transexualismo uma estranha metamorfose: a esfera genital é atingida por uma rejeição, inclusive num modo hipocondríaco, ao passo que a pele em sua totalidade, enquanto invólucro, toma uma natureza erótica, uma qualidade de volúpia particular, não necessitando nem da montagem fantasmática nem da passagem pelo outro, o parceiro.[14] A toxicomania faz aparecerem, a seu modo, dificuldades próximas: a efração ritualizada da pele, os furos na pele vêm recompor o circuito pulsional do toxicômano de tal maneira que, frequentemente, como sabemos, o gozo sexual é sacrificado ou terrivelmente reduzido.

Isso aparentemente nos distancia da oralidade, mas eu gostaria de insistir na importância da especificação da zona erógena que, em princípio, e segundo Freud e Lacan, concerne a certas bordas do corpo em detrimento de outras partes dele, ou das zonas anexas ou conexas a essas bordas. Deveríamos assim entrever um outro tipo de desespecificação da pulsão: não cada orifício trazido a um orifício único, não uma grande goela indiferenciada na sua função, mas a busca de zonas erógenas substitutivas, de um trajeto que não seria mais marcado por esse movimento de ir e vir, mas que daria realmente acesso ao objeto curto-circuitando qualquer passagem pelo Outro. A oralidade pode convir para descrever uma apetência toxicomaníaca, mas a boca não está convocada aí como fonte da pulsão. Conjuntamente se apresenta também o desejo de fazer gozar “todo o corpo”, sem passar pela troca sexual.

Antes de prosseguir sobre o alcance mais geral do termo desespecificação, notemos o quanto os exemplos clínicos tomados na psicose permitem não situar a oralidade como mais arcaica que outro circuito pulsional, no sentido em que fala Karl Abraham, isto é, propondo um progresso na relação de uma pulsão parcial com a seguinte.

É em termos de encruzilhada topológica que a função é posta em questão; tal paciente, apresentando uma erotomania algo atípica, se vê pouco a pouco afetado por uma dificuldade que ele não compreende: “bon vivant” e amante de restaurantes, ele é agora obrigado a fazer “um trabalho permanente sobre a necessidade de comer”. “Tenho dificuldade para engolir, para aceitar o princípio de engolir a alimentação; algo me bloqueia na altura do tórax, dos intestinos, como se comer não fosse natural.” Passamos a uma tonalidade nitidamente hipocondríaca: “Estou apertado na altura do tórax, os intestinos estão mal colocados, as costas, travadas, devo fazer uma espécie de esforço para comer”. Esse paciente, como todo erotômano, estava cheio do outro, e também cheio no Outro; esse trabalho de unificação vem, em retorno, tornar enigmático o significante engolir e a função que aí se associa.

Lacan não retomará a distinção entre pulsão sexual e pulsão de autoconservação, e a clínica da oralidade nos mostra bem a dificuldade de separar, por exemplo, o registro alimentar daquele da sensualidade. A síndrome de Cotard já nos tinha guiado para esse deslizamento da boca ao trato digestivo, sensível nas observações que reuni aqui.

Nos últimos seminários (L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre[15] e Le moment de conclure), Lacan trabalha os problemas de reviramento das superfícies e os diferentes cortes; na lição de 17 de janeiro de 1978 do seminário Le moment de conclure, ele volta à diferença essencial entre o toro e a esfera, em função da existência do furo na primeira figura:

O fato de que o ser vivo se defina mais ou menos como uma ereção[16], a saber, que ele tenha uma boca, até mesmo um ânus, e também algo que mobilia o interior de seu corpo, é algo que tem consequências que não são pequenas. A mim me parece que isso não é sem relação com a existência do zero e do um. Que o zero seja essencialmente esse furo, é o que vale a pena aprofundar[17].

A questão da especificação e da desespecificação da pulsão permite não considerar esta última unicamente no registro do arcaico, do pré-subjetivo, da fixação primordial etc. Ela mantém, de fato, com a língua, a linguagem, o significante, o mesmo tipo de inferioridade que Lacan traz com o toro. Muitos momentos de um tratamento, inclusive terminais, fazem aparecer em primeiro plano fenômenos clínicos em que a pulsão parece retomar a dianteira sobre o significante; a oralidade se presta bastante bem a essa demonstração. Essa emergência do pulsional é uma das consequências da colocação em tensão da fantasia, e indica que o objeto está bem no centro do trabalho interpretativo.

O mais interessante talvez esteja aqui: as psicoses nos trazem da maneira mais crua, e portanto mais clara, exemplos de cortes que operam entre o objeto e o significante, entre o objeto e a língua, para de algum modo furar uma superfície tornada compacta, isto é, sem furo verdadeiro. A oralidade psicótica, nós a consideramos como efeito desse buraco negro, engolidor de palavras; é um furo denso, lembrando certas configurações de astrofísica. O corte que opera aqui não tem nada a ver com a divisão do sujeito na fantasia, mas faz entrever toda a questão desse objeto a, colocado no centro do nó borromeano.

A desespecificação pode então ser pensada não como tara de origem, defeito estrutural primordial, mas como um tipo de defecção produzida, num enodamento que tem sua consistência, por esse trajeto singular, espécie de autofagia ou de autotravessia. O nó “enodado” se autodigere!…

 

[4] ESQUIROL, Étienne. “Sobre a lipemania ou melancolia”. Publicado no presente volume, pp.173-9.

[5] LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

[6] ESQUIROL, Étienne. “Sobre a lipemania ou melancolia”. Publicado no presente volume, pp.173-9.

[7] Ibid.

[8] SCHREBER, Daniel Paul. Memórias de um doente dos nervos. São Paulo: Paz e Terra, 2006.

[9] Cf. Lacan, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, op. cit.

[10] Cf. TYSZLER, J-J. “Clérambault”. In: CZERMAK, M. e JESUÍNO, A. (orgs.) Fenômenos elementares e automatismo mental. Rio de Janeiro: Tempo Freudiano, 2009.

[11] LACAN, J. O seminário, livro 16: De um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

[12] Id. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, 
op.cit., p.187.

[13] Ibid., p.188.

[14] Cf. TYSZLER, J-J. “A pele virada pelo avesso – Observações sobre o gozo do invólucro”. 
In: A clínica da psicose: Lacan e a psiquiatria, vol. 3 – O corpo: hipocondria, Cotard, transexualismo. Rio de Janeiro: Tempo Freudiano, 2006.

[15] LACAN, J. L’insu que serait de l’une-bévue s’aile a mourre – séminaire 1977. Edição não comercial da Association lacanienne internationale.

[16] N.T. – No original, trique, “porrete” e também “ereção peniana”.

[17] LACAN, J. Le moment de conclure – séminaire 1978. Edição não comercial da Association lacanienne internationale.

 

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