Patronimias – Apresentação

É com grande satisfação que disponibilizamos para o leitor brasileiro o livro de Marcel Czermak, Patronimias, que é, sem dúvida, uma das mais importantes publicações da literatura psicanalítica nos últimos anos, em especial no que concerne à clínica da psicose.

Marcel Czermak foi aluno e colaborador direto de Lacan, sobretudo quanto ao trabalho com o psicótico. Chefe de Serviço no Hospital Henri Rousselle do complexo de Sainte-Anne, em Paris, era o responsável pelas apresentações de pacientes que Lacan realizava ali, escolhendo, entre os casos de maior dificuldade e valor doutrinário, os pacientes a serem entrevistados. Além dos benefícios diretos dessas apresentações para os profissionais envolvidos no tratamento e para os próprios pacientes, delas derivaram inúmeras referências retomadas por Lacan em seus Seminários.

Com Charles Melman, Marcel Czermak foi um dos fundadores da Association lacanienne internacionale. Atualmente, dirige a Escola Psicanalítica de Sainte-Anne, que fundou, e onde mantém um ensino da psicanálise que articula a prática e o trabalho teórico, visando à transmissão de um “saber fazer” da clínica, que não separa a elaboração conceitual do atravessamento subjetivo que ela implica. Nesse percurso, partindo de Lacan, Czermak e seu grupo vêm produzindo descrições clínicas e formulações conceituais que, como o leitor poderá comprovar neste livro, fazem avançar o trabalho psicanalítico com a psicose.

Patronimias aborda questões maiores da clínica lacaniana. Partindo do pressuposto de Lacan da unicidade de estrutura da psicose, os textos aqui reunidos abordam a diversidade de suas manifestações clínicas – as paranoias, o automatismo mental, a questão da pulsão na psicose, o transexualismo, a mania, a melancolia, a hipocondria –, não como “tipologia” ou catálogo, mas demonstrando que o fato clínico não existe sozinho nem antes da presença do clínico, que, com sua escuta e intervenção, causa a transferência.

Mas, longe de se limitar à clínica da psicose, o conjunto de textos aqui reunidos trata das mais diferentes formas de declínio, de recusa, de foraclusão do Nome-do-Pai e de suas consequências sobre a cultura, sobre a subjetividade do sujeito do nosso tempo, sobre a neurose. Assim, vemos alinharem-se ocorrências diversas que surgem na esteira de algum tipo de degradação desse significante fundante da ordem simbólica, que faz conjugar desejo e Lei, que compromete e constrange.

Discernindo clinicamente e examinando a concatenação estrutural dessas configurações, Marcel Czermak não se limita a indicar, descrever, mostrar o fenômeno da destituição do Nome-do-Pai na contemporaneidade. Ele faz mais do que isso, ele demonstra, evidencia que não estamos diante de mero efeito da globalização ou da modificação dramática dos valores promovida pela ciência e pela economia. Ao contrário, mesmo se esses fenômenos vêm redobrar as consequências do que está em jogo, o que desponta de sua análise do modo como a destituição do Nome-do-Pai é tecida é uma certa virtualidade, paradoxal, que já está contida na própria estrutura da ordem significante.

A psicose, claro, é a circunstância clínica que realiza essa anulação do Nome-do-Pai num registro absoluto e irreversível. Mas, quando Czermak se debruça sobre ela, é para aí evidenciar um fracasso do discurso que não é prerrogativa da psicose. Um fracasso que a psicose realiza, decerto, mas que é, ele mesmo, um revés interno à ordem significante. E que se manifesta em inúmeras e diversas “patronimias”, dentro e fora do campo das psicoses.

Discutindo a formalização dessas manifestações em outros campos, tão díspares como a prática científica, as delinquências, o funcionamento neurótico, a própria psicanálise, Czermak convoca os psicanalistas a se retificarem no campo teórico, para poderem lidar,
no real da transferência, com essa desordem significante. Ele nos interroga sobre as diversas manobras de que lançamos mão para evitar as dificuldades que se colocam para todo aquele que se propõe, em sua prática, a tirar as consequências do ensino de Lacan. E aponta, aí, as várias formas possíveis de uma certa degradação do próprio campo da psicanálise, advertindo-nos de que “a psicanálise é menos uma prática ou teoria do que uma ascese e uma ética em operação”.

Para nós, do Tempo Freudiano, a publicação de Patronimias – Questões da clínica lacaniana das psicoses é também a comemoração de todo um percurso, de um tempo de intenso trabalho com Marcel Czermak e seus colaboradores mais próximos, na abordagem, discussão e balizamento da clínica das psicoses.

Desejamos ao leitor que venha a descobrir nessas Patronimias a prova em ato que Czermak nos propõe, e da qual jamais abre mão: o exercício de praticar a clínica com uma interrogação incessante sobre a estrutura, que nos concerne a cada um, e não só aos nossos pacientes.

Os editores

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