PATRONIMIAS – Prefácio

A liberdade é coisa bem estranha, pois se apresenta para a maioria de nós como um objeto que nos faltaria, e cuja propriedade deveríamos reencontrar. No melhor dos casos, é um usufruto – usus et fructus – que está separado de seu nu-proprietário; um usus e um fructus quanto aos quais nossas vidas testemunhariam mais que nos comportamos como nu-proprietários, enquanto o usus e o fructusseriam para o outro. A liberdade, então, não apenas nos faltaria, mas seria ela própria portadora de uma falta fundamental. Esquece-se então que, tal como a verdade, seu caráter insatisfatório, incompleto, se deve menos a uma falta hipotética do que à sua estrutura, pois esta depende do significante de uma falta no Outro, ponto de amarração que, ainda por cima, não responde[1]. Lacan o escrevia S(A). Quando, por circunstância clínica, nos encontramos tanto como nu- proprietários quanto como usufrutuários, a dita liberdade se mostra nula e não advinda: sem ponto de aplicação, por causa da ejeção de todo laço social. É a conjuntura da psicose, mas também a que produz a exclusão. O último caso deste livro, “Sarjeta”, demonstra isso, conjugando psicose e mendicância. Num caso assim, nenhum significante de uma falta no Outro, nenhum S(A) que venha nesse Outro alienar, bloqueando-a, a significação.

Esse objeto estranho, cujo nome está gravado no frontão das instituições republicanas em sua divisa, tem a notável virtude de indicar que uma revolução só pode inscrever no real pedras a um só tempo o lugar de onde se origina esse objeto, como o que ele determina. Não há revolução que não seja tomada, em suas reviravoltas, pelas reconduções, ainda que às vezes invertidas, do que ela gostaria de ver desaparecer. Há, contudo, desaparecimentos que não se deixam realizar facilmente: assim acontece com o que Lacan chamava de Nome-do-Pai[2], que, pelo recorte que ele introduz, estabelece os limites de nossa ação, assim como os objetos em torno dos quais giramos sem poder apreendê-los, e que fazem todo o nosso equívoco assim como nossa dor. Com efeito, são eles que demandam, comandam, até mesmo exigem. A liberdade seria assim, no real do Direito, um dos aspectos do Nome-do-Pai.

No caso das psicoses, em que nu-proprietários e usufrutuários são os mesmos, em que o Nome e o objeto são idênticos, Lacan falou de foraclusão do Nome-do-Pai. É um registro absoluto e irreversível, mesmo se ele comporta suplências: pois o que desapareceu realmente não está mais ali como se jamais tivesse estado, e não pode se deixar apreender materialmente de forma direta. Só pode ser apreendido indiretamente, em seus efeitos, sejam eles clínicos ou sociais. Serem livres do Nome-do-Pai é o que fazia Lacan dizer que os psicóticos eram os únicos homens livres, o que ele designava também como sendo “o normal”. Esse tipo de qualificação tomava então em sua boca uma tonalidade assustadora. Mas a foraclusão do Nome-do-Pai, mesmo se ela joga no registro do tudo ou nada, permanece uma rede de malha bastante larga para deixar passar inúmeros peixes, pequenos e grandes. Questão “de extensão da foraclusão”, como o ouvimos dizer um dia. Daí uma clínica das psicoses, estruturadas diferencialmente, apesar do que guardam em comum.

Fora do campo das psicoses, a clínica poderia ser igualmente tratada sob o ângulo das modalidades segundo as quais o Nome-do-Pai é triturado. Até mesmo nas consequências produzidas sobre o sujeito pela globalização das trocas, pelos fenômenos migratórios, pelas modificações, por razões econômicas e científicas, do que faz valor comum entre grupos e nações, mas também entre pai e filhos, homens e mulheres.

Daí decorrem múltiplas contradições, frequentemente sancionadas pela determinação em última instância do Direito: contradição entre direito privado e direito geral, circuncisão e excisão entendidas como castração real, até mesmo “golpes e feridas voluntárias em menores”, ao passo que – operação simbólica – é a parte abandonada ao Outro que integra o sujeito em sua comunidade e o socializa. Contudo, em nossos climas – contrariando o princípio de indisponibilidade do estado da pessoa –, a Corte Suprema pode aceitar a mudança de estado civil dos transexuais, respondendo pragmaticamente com um “o que está feito está feito” – no modo compassivo de uma passagem ao ato própria a nossas sociedades de ferocidade. Poderíamos também examinar as modalidades heterogêneas de socialização conforme elas fabriquem, pelas crianças das escolas, cidadãos que aderem ao corpus de textos que lhes são transmitidos, ou conforme elas operem sua transmissão pela família, pelas raízes.

Que modalidades de complexos e de conflitos de transmissão são então mobilizadas num mesmo sujeito? Trata-se aí de zonas mal exploradas, cuja topografia a psicanálise deixa a nosso cuidado estabelecer, deflagradoras no momento atual. Tocaríamos então em problemas políticos, guerras fratricidas, delinquência, mas também em outros fatos clínicos – mal percebidos, não mencionados – que tecem nossa vida social mais comum.

Esta coletânea trata dessas questões, mas raramente de forma direta. Como para um sintoma, é vão atacá-lo de frente: ele se aborda na estrutura em que é tecido. Entretanto, é seu fio condutor.

Escolhemos aqui ligar, daquilo que expusemos no passado, o que nos parecia fazer trama oportuna, embora nenhum dos textos que se seguem tenha sido redigido para ser reunido sob nosso título. Daí nossa apresentação.

Aqui se encontrarão, através de certos pontos expressamente formulados que devemos a Lacan, considerações de clínica social, política e jurídica que, concluindo-se com o transexualismo, evocam certos aspectos das sociedades atuais que se apresentam sem resíduo subjetivo, ou seja, sem falta, ao mesmo tempo em que não cessam de fabricar excluídos reais, em Nome dos Direitos do Homem. Indica-se aqui que o único pai real é a verdadeira mulher, única mulher completa, a que tendem essas sociedades.

Algumas breves observações clínicas, em seguida, sobre a diferença entre acting-out e passagem ao ato, que remetem a categorias essenciais que percorrem todo este livro, enodadas na “questão” do pai. Lacan, aliás, pôde dizer que o pai não é uma questão, pois ele é o “sujeito de antes da questão”.

Abordaremos, em seguida, aspectos desconhecidos da transferência nas psicoses, na medida em que os psicóticos são – contrariamente ao que se ensina – os que resistem menos à transferência. Assim, por exemplo, essa paciente chamada alucinatoriamente por nossa voz, e que, tendo se tornado erotômana, adquiriu a convicção de que devia portar nosso nome: queda da alucinação, mas exigência de casamento… Esse capítulo coloca a questão do furo no Outro, aquele que aspira e cospe, furo único – o que é que ele aspira?, o que ele cospe? –, onde se pode ver jogarem as carências pulsionais e fantasmáticas da estrutura: exemplificadas pela mania. No caso da erotomania que evocamos, nossa voz, como furo, a aspira, para cuspir sua demanda de usar nosso nome. Na mesma leva, um breve artigo sobre um ponto essencial: a frequente dissociação da voz e da palavra nas psicoses, vozes afonéticas, por vezes disjuntas de palavras informuladas, mas articuladas na passagem ao ato. Prosseguindo a título da não-relação sexual, apagada nas psicoses, traremos uma ilustração desse apagamento que produz relação, no capítulo “Um laço conjugal bem-sucedido”: psicose uniana mais frequente do que se pensa. Nas psicoses, há relação, mas relação Outra. No caso exposto, é o divórcio que, por subtração do nome, faz com que ela reapareça no real da voz. Lacan pôde dizer: “Uma mulher só encontra um homem na psicose”.

Com “o homem das palavras impostas”, que trouxemos a Lacan, e do qual ele fez uso em O sinthoma[3], produzimos um caso de psicose de uma riqueza extrema e única em nossa experiência. Aí se poderá constatar uma patronimia transformada de maneira tão eminente quanto feminizante.

Concluindo nosso trajeto, com a “Sarjeta” examinamos finalmente um sujeito reduzido a ser apenas um objeto a que rola, tomando-se por seu nome, cristalização pura da sínfise do ser e do ente, diante de quem éramos nós que perguntávamos, com o risco de enfiar sentido ali onde não havia nenhum, a não ser a potência significativamente bruta de uma língua inteiramente trazida pelo esqueleto de uma gramaticalidade assustadoramente impiedosa. Psicose “branca” para alguns: mas nossas categorias nos permitem dispensar esse tipo de metáfora, num quadro que não conta com nenhuma.

Para amarrar a coletânea, lembraremos de onde falamos: ou seja, qual foi a margem de nossa liberdade, inclusive do lugar de objeto ao qual nos deixamos ir, do qual esse percurso é uma das inscrições.

Marcel Czermak

NOTA AO LEITOR

Em relação à edição original, esta nova edição de Patronimias comporta alguns acréscimos. Uma ênfase particular foi dada à questão do transexualismo, da mania, da melancolia, assim como à problemática das pulsões. Destacamos também o acréscimo de três entrevistas de pacientes, como anexos.
 
Notas

[1] S(A): isso quer dizer “que isso não responde”, J. Lacan.

[2] SAINTE-FARE GARNOT D., BEKOUCHE F., PASMENTIER J. “Forclusion”. In: Le Discours Psychanalitique nº 10, Paris, março de 1984.

[3] LACAN, J. O seminário, livro 23 – O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

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