Pecado e Redenção no Palácio do Progresso

Charles Melman1

 

A palavra parecia ter quase desaparecido do vocabulário dos partidos políticos de esquerda, quando, nos dias 21 e 22 de novembro de 1999, em Florença, os principais responsáveis do mundo ocidental, associados ao presidente brasileiro2, se reuniram sob o signo do progressismo. Tratava-se para eles de definir as regras que corrigiriam suficientemente a economia liberal para dar-lhe uma face humana. Redistribuição de renda, saúde, educação e aposentadoria representavam os domínios examinados, sem que se saiba a priori se o progresso deveria ser o de preservar suas conquistas, amplia-las ou então liquida-las.

Os historiadores das ideias lastimarão certamente que essa bela palavra não remeta atualmente senão a um prosaísmo contábil. Mas, a lembrança das paixões que ela suscita e dos cadáveres que se espalharam por seu caminho, podem, afinal, fazer com que se prefira um aburguesamento pacífico.

Para ir rápido, digamos que o “progresso” foi o nome dessa divindade gulosa de sacrifícios humanos cujo amor permitiu justificar os reviramentos mentais, sociais e políticos ligados ao desenvolvimento do capitalismo. A passagem de um uso filosófico do termo ao vocabulário político e jornalístico marcou o declínio da análise em proveito do slogan e da celebração pontual das vitórias da tecnologia. A fantasia que ele abriga, de uma humanidade liberada da maldição do trabalho e dotada de poderes multiplicados, o opôs ao Deus reputado coercitivo e interditor da religião, perfumando o “progresso” com um anticlericalismo “científico”. A grosso modo, apenas os escritores do século XIX souberam decifrar aí a promessa de uma vitória da perversão; estamos nela.

Os ideais progressistas propagandeados na política – enfraquecimento do Estado, sociedade sem classes, administração das coisas mais do que dos homens – passaram da especulação aos fatos. A reunião de Florença, que evocamos, parece assim ter tentado sobretudo precisar o mínimo de intervenção estatal necessária ao bom funcionamento da máquina econômica. Isso dá a cada um um lugar na medida de seu talento, bem mais do que naquela de seu nascimento ou de sua fortuna. Enfim, o Direito evolui no sentido da liberalização dos costumes, reconhecendo a primazia dos anseios do indivíduo sobre as tradições culturais e religiosas. É estranho que não se identifique essa vitória de Marx e de Freud, sem dúvida porque ela não foi alcançada pelos meios que eles propunham: luta de classes e tomada mundial do poder por um, difusão das ideias pelo outro.

Precisaríamos supor que seus caminhos não fizeram senão seguir o trajeto de uma toupeira muito mais subterrânea, e cuja toca agora se abre sobre o céu perdido das nossas decepções: aquela que, embora cega, ao nos guiar em direção ao controle do objeto, nos mostra que, ao consegui-lo, somos nós que caímos sob o seu golpe.

As maravilhosas fabricações da tecnologia preenchem o gozo dos orifícios do corpo, enquanto o sexo tem a escolha de satisfazer livremente sua fantasia ou então desaparecer, em proveito de uma reprodução clonada.

Os jovens, que esquecem uma tradição de revolta para aderir massivamente a um jogo social que promete a festa permanente, não se enganam, basta em seguida aguentar o tranco. Os excluídos constituem menos um fermento de oposição do que, ao bater os pés impacientemente para participar, um contraexemplo. Ainda que a promoção do gozo trash possa fazer disso um modelo do herói moderno: aquele que correu o risco da exclusão para ir ao termo de seu gozo, morte social que até há pouco somente a paixão amorosa justificava.

Mas não desprezemos nosso prazer. Como nunca – exceto em Roma, talvez –  um tal bem-estar atingiu o cidadão. O narcisismo encontra sua plenitude na possibilidade de uma troca de papel (até mesmo de identidade) sexual, e a fantasia deixa sua monotonia para se abrir, com o risco para um sujeito de se perder, ao devaneio.

A internet tornou-se o bazar planetário onde se pode adquirir tudo: amizades, passagens aéreas, órgão para transplantes, conselho filosófico e até mesmo “psicanalítico”, parceiros da fantasia, referência erudita, etc. O saber remetia, até há pouco, à figura de um mestre ou de um sábio respeitados. Ele se vê reduzido à realidade de um estoque disponível ofertado aos pedaços conforme a demanda para alimentar um autodidatismo cujos efeitos logo apreciaremos, o mais manifesto sendo por enquanto aquele que faz o docente parecer adequado hoje em dia para receber afrontas por usurpação de autoridade; ele ainda não compreendeu que se tornou um simples fornecedor de consumidores organizados que, por sua vez, detêm agora a autoridade,  tratando-o segundo seus méritos e faltando às aulas à vontade.

A pequena toupeira, que caminhava mais profundamente do que Marx e Freud imaginavam, merece seu nome: progresso, já que foi capaz, à nossa revelia, de extrair e propulsar sobre a cena o objeto que a civilização mantinha escondido a título de dejeto. Esta nova presentificação se chama: poluição.

É comum que ela provoque uma angústia coletiva –  como se vê com o alimento produzido fora dos padrões – bastante legitima para invocar e anunciar um retorno à ordem, moral e política. Ainda não chegamos aí, mesmo que se deva observar a coexistência esquizofrênica de correntes contraditórias na sociedade: paganismo desenfreado e retorno de uma religiosidade integrista.

A economia de mercado tem interesse demais nessa hubris para validar um reviramento de tendência, exceto se as ações industriais engajadas contra a poluição se revelarem mais suculentas do que a sua extensão.

Se o “progresso” conduz atualmente à votação de leis que favorecem o direito a gozar, amanhã ele poderá parecer se sustentar então em sua restrição.

Enquanto esperamos verificar esta tese, tentemos respirar, com a ideia de que um tal vai e vem deveria nos permitir acrescentar um parágrafo, talvez decisivo, ao uso dessa palavra. E não seria ainda um progresso?

 

1 Traduzido do original Faute et rédemption à l’Hôtel du Progrès publicado na revista La Célibataire nº3, inverno 1999-2000, EDK, Paris.
Tradução: Pedro Silveira
Revisão: Sergio Rezende

2 Fernando Henrique Cardoso

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