Psicópolis*

Charles Melman

 

É divertido verificar que para entender os impasses de qualquer organização social, basta observar a dos psicanalistas.

O que eles querem, com efeito?

Um chefe? Com certeza, mas a falha própria ao significante mestre é que ele não o é nunca totalmente, exceto em caso de fundamentalismo; e, então, arranja com o lugar Outro a divisão subjetiva apropriada para alimentar a revolta daqueles a quem se acha recusado, por boas ou más razões, o reconhecimento de serem, no grupo, seus representantes modelos, supostos completos, como o carvalho o é pela glande.

Assim, há regularmente nos grupos aqueles que não fazem nada[1], enquanto esperam que seja celebrada sua folhagem (o fato de ter bom ouvido[2], é claro) de modo a fazer sombra àqueles que ainda vegetam.

A solução clássica desse mal-estar é matar o chefe, quando se trata daquele de uma escola, produzindo uma teoria que o contradiga mas agrade: primado concedido à vontade de poder por Adler, ao traumatismo do nascimento por Ferenczi, a sei lá mais o que por Jung ou Reich; em todos os casos trata-se de vir ao lugar suposto de origem para derrubar o ídolo consagrado a fim de aí instalar o seu.

Freud só encontrou recurso para preservar o primado da sexualidade na expressão dogmática de sua teoria, condenada de antemão, pois a sexualidade nutre um desejo que é aquele de sempre outra coisa… A instituição, como a Igreja, tornar-se-á a partir de então o tribunal encarregado de descobrir qualquer heresia, qualquer progresso na elaboração do dogma, preocupado ao mesmo tempo em consagrar, senão sagrar[3], seus membros.

No entanto, verifica-se que, numa disciplina em que a teoria é sempre um artefato, uma defesa ética, possa-se gostar e querer sustentar aquela que assegure fortemente o presente e o futuro: a divisão do grupo entre os que cortam e os que são cortados[4], com promoção no final, entregue ao capricho dos que cortam – ela não é bela, a vida? Admiraremos assim que um pobre coitado, inocente ainda por cima porque não sabe o que faz, para quem o texto lacaniano funciona como um livro vermelho – mas a ser melhorado, hein? porque somos modernos e é preciso tomar lugar ao lado da estátua (nos acreditaríamos na Coréia do Norte) -, consiga criar ilusão, devoção, se faça lavar publicamente os pés com lambidas, lustrar onde quiserem, e, ao voltar pra casa, zombe de tudo isso alegando seu esgotamento em se devotar assim pelo Doutor, e como Eneias carregar nos ombros Anquise a fim de fundar o quê? nada além de uma coleção de servidores, e que não sabem que estão caindo do alto da falésia.

Mas deixemos essas bobagens[5], alimentadas pelo perigo das massas sempre prontas a se deixarem embarcar, para considerar a democracia, nossa invenção menos pior.

Se uma sociedade é sempre organizada por um discurso, o do saber para o comunismo, da histeria para o jihadismo, o do mestre na democracia tem a particularidade de prometer a cada um que, conforme seu mérito, ele poderá aceder ao lado certo. Eu dizia um dia a M. Gauchet, para implicar com ele, que a democracia era o direito reconhecido a cada um, e não mais reservado à aristocracia, de explorar seu próximo.

Não seria isso que ordenaria nossa sociedade sob o primado de um sadismo generalizado, para nos fazer o bem, com doçura e humor, é claro?

De todo modo, o jogo democrático supõe uma báscula do poder entre possuidores e possuídos, cada um capaz de tomar o lugar do outro, quando vierem as eleições. É mesmo preciso um gozo partilhado para que uma sociedade se mantenha, com cada um alternando no papel do patrão.

O problema das sociedades psicanalíticas é que não há gozo a partilhar. A decepção do gozo só podendo desta vez satisfazer os masoquistas. O “a” em posição de mestria remete cada um a uma fantasia singular da qual identificamos mal o traço que ela teria em comum com a do vizinho, a verificação então de uma dissonância com ele, mais do que um acordo (um coral seria terapêutico?), na medida em que o maestro pode estar, para cada um, munido de uma batuta diferente… Lacan via os psis como ouriços infelizes por se esfregarem juntos e também por se separarem. Minha invenção foi supor que a promoção da chefia própria às eleições democráticas poderia ser temperada por um Conselho de direção constituído em dado momento por aqueles que, naquele momento, experimentam o silêncio e a vacuidade do Outro, que não há um Outro, e que se fica só.

O voto que teve lugar no curso da assembleia geral extraordinária de 23 de janeiro de 2016 mostrou que eu não o estava completamente.

 

* La Revue Lacanienne no 17 – Editorial
Tradução: Juliana Castro Arantes
Revisão: Sergio Rezende


 

[1] NT – No original, “ceux qui glandent”, num jogo de palavras com glande (fruto do carvalho)
[2] NT – No original, “avoir de la feuille”, literalmente “ter folha”
[3] NT – No original, “sacrer”, que tem também o sentido de xingar, blasfemar
[4] NT – No original, “sciants et sciés”, do verbo ‘scier, que além de evocar ‘science’ (ciência) e do significado cortar, serrar, tem também o de incomodar, chatear.
[5] NT – No original, “fadaises”, que ressoa com “falaise” (falésia) na frase anterior.

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