O Seminário no Tempo Freudiano:

O ensino de J. Lacan

 

Em seus Seminários, Lacan sustentou um ensino durante 30 anos. Mas o fez sempre numa posição crítica e cautelosa. Porque o que ele visava, certamente, não era produzir enunciados. Menos ainda, fazer sistema. Reagia mal quando diziam que ele tinha uma obra. Lacan não era professor e fazia questão de afirmar isso. Ele sempre se perguntava: como ensinar a quem não pode aprender? Então, mesmo que se possa falar do saber do psicanalista, permanece o paradoxo: como saber do Inconsciente se é o Inconsciente que nos sabe, se o saber é do Outro (S2) e é para o sujeito sempre suposto? Ficamos tentados a parafraseá-lo: tal como a verdade se diz pela metade, será que não podemos dizer que o ensino de Lacan se fazia pela metade? É claro que ficaram certos ditos, máximas, aforismas: são apenas letras que se depositaram e fizeram escrito. Mas ainda assim, o que vale aí é muito menos o enunciado, o significado, e muito mais, tal como nas locuções e provérbios, sua função de significante.

Porque é isso que opera na psicanálise, é a ordem significante que resulta de um dizer. Lacan dizia. E, no dizer – e do dizer –, a rigor, não há ensino possível. Porque não há comunicação. Não se pode reduzir o dizer ao dito. Há sempre um resto. É isso o que introduz o Outro (sempre barrado) como lugar. E o que daí resulta é a emergência de uma outra lógica, a lógica do Outro, do terceiro incluído. Porque, nesse caso, o sujeito não fica fora, ele ex-siste, mas internamente, submetido ao significante e à estrutura: ele só se enoda em cadeia. E é aí mesmo, e só aí, que se constitui e se tece como elo na trama que se transmite. Portanto, somos parte dessa transmissão. Quando nos propomos a “fazer ensino”, a dizer, transferir a outros o que Lacan disse, estamos sempre, antes de mais nada, nos dirigindo ao Outro e, como tal, na verdade somos nós mesmos que somos transmitidos e transferidos.

Essa é a grande questão que se coloca para quem se proponha a tomar a palavra para, com Lacan, dizer de Lacan. E isso não é simples. Porque isso só se faz, como estamos vendo, por uma divisão do sujeito (S) nessa tessitura onde, afinal, ele é apenas representado. Ou seja, quem veicula a palavra é muito mais o elo do que ele. É assim que se faz, é esse o preço da enunciação. O que esse visa, como passador, é fazer passar o que Lacan diz. Mas ele só poderá fazê-lo, se estiver, ele também, no lugar de passante. Isso implica, claro, necessariamente, um custo para o sujeito, ele também tem que cortar em sua própria carne. É dessa divisão, dessa perda, que falávamos antes. Aí ele perde seu ser. Somos todos passantes e, portanto, estamos, da mesma forma, submetidos ao Outro, à divisão que possibilita entrar numa linha de transmissão. Como diz Lacan, “o caminho do discurso analítico só progride por esse limite estreito, por este corte da faca que faz com que, fora daí, só se possa suspirar” (suspiorar). É preciso ressaltar que esse corte esteve aí desde sempre. Ele é o avesso do significante. Ele é o próprio significante. Ele já estava lá, cortando a palavra do próprio Lacan, no ato mesmo de sua invenção. Foi com isso que Lacan se encontrou, como todo ser falante. Só que, como ele era Lacan, ele o nomeou. Foi essa a invenção do objeto a. E, na transmissão da psicanálise, não se pode tratar de outra coisa senão dessa invenção. O que se transmite é o corte.

O Seminário no Tempo funciona a partir desses pressupostos, operando de modo a não obliterar o lugar da falta e a fazer valer o impasse para passantes e passadores. Na travessia dos vários seminários de Lacan, buscamos seguir a trama de significantes e quase-conceitos, que operam em estrutura. E abrir, dessa forma, a possibilidade para que cada um possa (do ponto em que se encontra em sua formação) ser fisgado por um elo da cadeia. Tentamos, através dos recortes e segmentos que fazemos, a cada vez, buscar o fio que os percorre, mesmo que ele seja feito, como sabemos, de paradoxo e descontinuidade.

Nos últimos anos temos trabalhado alguns Seminários, desde o Ato – de que resulta a divisão do sujeito e seu (des)encontro com a causa do seu desejo – ao Outro que, furado, nos reenvia a S(A) e àquilo para o que aponta todo o significante. Passando pelo Avesso, que liquida com qualquer ilusão de uma realidade pré-discursiva e que nos remete assim ao inevitável do Semblant (a verdade não é mais do que sang rouge) e do imperativo fálico: pas plus d’un (não mais de um). …ou pire: y a de l’un (há o um). Para além de Freud, Lacan diz “o real é impossível”. E tudo isso é retomado no Encore porque “não há relação sexual”, “a mulher é não toda”, e no Aturdito, porque “que se diga fica esquecido por trás daquilo que se diz”.

No nosso Seminário deste ano de 2018, vamos continuar privilegiando essa sequência de questões que foram se constituindo ao longo deste percurso. Em especial, nos três últimos anos, com a travessia do Encore, onde nos encontramos com os riscos da errância dos sabidos: Os não-tolos erram. É aí onde Lacan vai nos dizer: é preciso colar na estrutura.

Já no final de seu ensino, sabemos que um dia Lacan desabafou, se perguntando, afinal o que era essa história de psicanálise? Estranho ensino este que, 30 anos depois de se exercer, se interroga sobre o que é seu objeto. Por isso talvez se possa dizer que os Seminários, afinal, tratam sempre da mesma coisa: tratam d’A Coisa. Cada um deles tentando – encore, encore… – responder a essa pergunta de Lacan. Porque o que se “ensina” da psicanálise, no dizer, é o que corta, é sempre o resto, é o que conta. O que se transmite não é o pai, como pensou Freud – e por isso se encontrou com o rochedo da castração –, o que se transmite é a falta, o que falta a transmitir. Isso tem um nome. O que se transmite na psicanálise é, naturalmente, o que Freud descobriu – o falo. Mas, muito mais radicalmente que isso – e de modo irredutível –, o que se transmite na psicanálise é o objeto pequeno a, a invenção de Lacan.

 

Antonio Carlos Rocha

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