Stéphane Thibierge – evento 2018

O que chamamos de doença mental?
Conferência apresentada em 18 de março de 2013 na École Pratique des hautes Études en Psychopathologies (EPhEP)

 
Incidências subjetivas e políticas de nossa relação com o significante
Conferência apresentada em 25 de maio de 2018 na École Pratique des hautes Études en Psychopathologies (EPhEP)

 
 

O Nome, a Imagem, o Objeto[1]

 

Parte II

 

Abordagens neurológicas dos distúrbios do reconhecimento

e da imagem do corpo

Capítulo 1

 

A agnosia

Stéphane Thibierge

 

Não é inútil precisar o porquê de começarmos por um exame da agnosia, quando outros transtornos neurológicos que abordaremos na sequência se relacionam mais diretamente com as patologias da imagem do corpo ou do reconhecimento das pessoas.

É precisamente na medida em que a noção de agnosia é evocada na designação de muitos transtornos da imagem do corpo ou do reconhecimento que nos pareceu desejável precisar seu sentido, antes de abordar o exame desses transtornos. Esse ponto de partida permite expor os elementos primordiais das questões que evocaremos em seguida no campo neurológico.

A definição e a delimitação clínicas da agnosia foram, com efeito, a oportunidade de destacar e progressivamente recapitular um certo número de fenômenos que haviam sido inicialmente descritos separadamente a propósito de transtornos distintos.

Num livro que propõe uma tomada em perspectiva geral do problema da agnosia, a partir da agnosia visual, H. Hécaen e R. Angelergues retomam os diferentes fios que vieram se ligar nessa noção[2]. Eles lembram que foi na época dos primeiros trabalhos sobre a afasia que foi possível individualizar um certo tipo de transtorno que chamou de início a atenção particularmente pelo fato de que foi considerado como “distinto tanto da demência quanto do transtorno próprio da linguagem.” Dizia respeito a “certos modos de relação do sujeito doente com o objeto”, que foram globalmente designados como afetando o reconhecimento do objeto, em um sentido suficientemente amplo para recobrir tanto o que dizia respeito à capacidade de utilizá-lo, quanto ao fato de reconhecê-lo.

Esses transtornos, como se vê, colocavam os neurologistas diante da dificuldade de especificar, do ponto de vista etiológico, uma certa categoria de fenômenos cujo registro eles não distinguiam muito bem quando tentavam defini-lo segundo as coordenadas que eram as suas: não parecia dizer respeito à demência, e nem também a um transtorno próprio da linguagem.

O problema, em seu estado inicial, é assim resumido por Hécaen e Angelergues: “a primeira ideia que se destaca na análise clínica é que o reconhecimento do objeto implica na excitação conjugada dos diversos elementos que resultam na sua representação.” E acrescentam: “se alguns desses elementos faltam – perda posta habitualmente em relação com a interrupção de uma via de associação -, a evocação do objeto não é mais possível: ele será visto[3], ouvido ou sentido, mas não será reconhecido.[4]

Nas síndromes de falsos reconhecimentos que evocamos, encontramos também uma separação dos dois planos do percepto e do reconhecimento. É o que evocávamos dizendo que a imagem cai de um lado e o nome do outro. O que nos interessa nos dois casos são os efeitos da decomposição do reconhecimento que aí observamos. Essa decomposição não tem, em princípio, a mesma amplitude, nem as mesmas causas, nas psicoses e nos transtornos neurológicos. Mas, nos dois casos, ela tem efeitos sobre a relação do sujeito com aquilo que ele não reconhece mais, mesmo identificando algo, no entanto. Daremos aqui um exemplo do que visamos a título desses efeitos, a partir da descrição dada por Hécaen e Angelergues da agnosia para os objetos, entre as agnosias visuais: “esse transtorno é posto em evidência pedindo ao sujeito para descrever o objeto proposto e, de uma forma geral, evocá-lo. […] O comportamento do doente diante do objeto assim apresentado é inteiramente característico: ele o fixa, o envolve com o olhar, o aborda por diferentes ângulos, exprime por mímica seu espanto, sua ansiedade, e geralmente pede para tocar essa coisa que ele não identifica; tão logo ele pega o objeto, seu rosto se ilumina, ele o nomeia, o descreve e o utiliza sem a menor dificuldade” (grifos nossos). Os autores notam igualmente que “a apresentação prolongada do objeto não facilita constantemente seu reconhecimento e pode até mesmo entravá-lo”, e que, por outro lado, “a soma dos detalhes do objeto e a busca de um detalhe significativo parecem os procedimentos mais utilizados habitualmente pelo doente para superar seu déficit.”[5]

Nessa descrição, e ainda que autores não ressaltem particularmente esse ponto, parece que não é exatamente o objeto que o doente não pode mais nomear, mas que é o objeto enquanto apreendido pelo olhar, que vem ao primeiro plano do fenômeno descrito. Ele surge de um modo particular, que a descrição mostra muito bem: o sujeito fixa o objeto, ele o envolve com o olhar, mas não pode nomear o que esse envolvimento deveria em princípio reconhecer. Nesse sentido, é isso – o objeto do olhar – que ele não pode mais nomear.

O olhar, tal como ele aparece aqui, de certo modo negativamente, não pode ser elucidado apenas no registro da percepção. Se fosse questão apenas de um transtorno dessa ordem, não compreenderíamos por que o sujeito “exprime por sua mímica seu espanto, sua ansiedade” nesse momento[6]. Que ele o faça atesta que o transtorno comporta consequências que não se limitam ao campo da visão propriamente dita, mas que colocam em questão de modo mais geral aquilo que podemos chamar de coordenadas do reconhecimento, no sentido em que o definimos, favorecendo o surgimento de algo que o sujeito recebe sob o modo de uma opacidade subitamente prevalente e que ele não pode mais nomear, ou que está desligada do nome.

Nosso propósito não é colocar em questão por causa disso a descrição do transtorno, nem tampouco sua etiologia tal como os neurologistas podem defini-las. Nós sublinhamos apenas a maneira pela qual um tal fenômeno, quaisquer que sejam suas causas identificáveis em termos anátomo-clínicos, comporta, ao lado e além de um acometimento local, efeitos que afetam necessariamente o campo do reconhecimento, por causa do surgimento nesse campo de um objeto – o olhar, e não somente o que é olhado – sobre o qual a nomeação não tem mais domínio. Poderemos compará-lo, nesse sentido, ao sentimento de estranheza. Esse exemplo indica, a partir de uma referência clínica relativamente simples, em qual perspectiva nos interessam os transtornos neurológicos que citaremos.

Voltemos agora à maneira pela qual Hécaen e Angelergues apresentam e introduzem a clínica dos fatos que eles determinam sob a noção de agnosia. Vimos como eles reduziam a questão à de saber quais são os elementos em jogo no que culmina no reconhecimento normal. Essa formulação do problema interroga o que faz manter juntos o percepto no sentido amplo, e o que permite ligá-lo ao nome num reconhecimento. A questão é posta aqui pelos autores de forma muito geral e sem decidir inteiramente sobre a natureza desses elementos. Destacando apenas que seu defeito ou sua perda são interpretados “geralmente” em termos neurobiológicos, isto é, remetidos à interrupção de uma via de associação, eles deixam em aberto a questão de saber se não cabe fazer intervir dados etiológicos de outra ordem, que levam igualmente em conta o material altamente simbólico que os dados clínicos e anátomo-clínicos da agnosia expõem e articulam de modo diversificado, mas seriável.

E eles fornecem, sob duas rubricas distintas, os diferentes aspectos dessa seriação: a agnosia óptica é seletiva e admite uma especificidade das associações segundo suas formas.

Ela é seletiva, isto é, os transtornos do reconhecimento concernem sempre a esse ou aquele aspecto determinado do domínio visual. É notável que esses aspectos remetem a uma lógica e a segmentações articuladas a categorias simbólicas: agnosias espaciais (perda da orientação, das localizações no espaço e nos lugares), transtornos do reconhecimento das cores, agnosias para os objetos e para as imagens, agnosias para as fisionomias.

Os autores ilustram esse ponto com alguns exemplos em que aparecem séries de disjunções exclusivas, invertidas conforme o caso: ou o sujeito não identifica as pessoas, mas as reconhece por certos traços, ou ele as identifica muito bem, mas não pode reter nenhum detalhe. Assim, “o doente B., atingido espontaneamente por sua incapacidade de distinguir sua mulher de sua sobrinha, reconhece perfeitamente os objetos, as imagens simples e os cartões postais e identifica muito bem os detalhes menores que lhe permitem situar um personagem. A “fisionomia” de uma paisagem não significa mais nada para ele, mas ele é capaz de extrair dela certos detalhes e reconhecê-los perfeitamente como referências. A doente D., que reconhece muito bem os objetos, as cores e a maior parte das imagens simples, só pode identificar sua filha quando ela está com seus sapatos, e não consegue reconhecer nenhum lugar do serviço, ao passo que se situará com um detalhe aparentemente tão pouco pregnante como o tipo de curativo de sua vizinha. Ao contrário, o doente A., que reconhece perfeitamente as pessoas e se orienta sem nenhuma dificuldade, fracassa no reconhecimento das imagens mais simples, não diferencia as cores e é incapaz de visualizá-las. Mais claramente ainda, o doente M., que reconhece bem as fisionomias, nas quais ele discerne as diferentes mímicas, e pode até identificar seus próximos em pequenas e medíocres fotografias de amador, é incapaz de identificar pela visão os objetos mais familiares. E, se o doente G. não apreende mais o sentido das palavras nem o das imagens, ele percebe perfeitamente a significação do espaço e a dos rostos”[7].

Essas segmentações e essa seletividade justificam a distinção das diversas categorias de agnosia óptica que os autores elencam, no interior de vários grupos principais: agnosias para as coisas, agnosias para as cores, agnosias espaciais, agnosias das fisionomias.

A agnosia óptica admite em seguida uma especificidade das associações segundo suas formas: os autores consideram, a partir do material clínico que trazem, estarem fundamentados para isolar a recorrência de associações preferenciais entre diferentes tipos de agnosia. Eles distinguem a esse respeito dois grandes grupos: “com as agnosias espaciais e a agnosia das fisionomias, são a apraxia construtiva, a apraxia da vestimenta, os transtornos da somatognosia de um hemicorpo, os transtornos oculomotores, os transtornos direcionais e vestibulares que dominam”, esses sintomas correspondendo a lesões diretas. “Com as agnosias para os objetos e para as imagens, para as cores, e naturalmente com as alexias, nós encontramos essencialmente transtornos da linguagem”[8]. Essas agnosias são consecutivas a lesões esquerdas.

É a partir desta seriação clínica da diversidade dos fenômenos relacionados com a agnosia óptica que os autores introduzem o que reduz, a seus olhos, essa diversidade a uma unidade: eles propõem, de fato, uma definição específica da agnosia. Todo o esforço de seu livro consiste precisamente em isolar a unidade nocional e clínica do que eles chamam de “fenômeno agnósico”.

Mesmo evitando querer falar de uma agnosia enquanto tal, já que “é preciso admitir mecanismos e consequentemente níveis diferentes para cada campo sensorial e provavelmente também no interior de cada campo sensorial”, eles apresentam entretanto a seguinte tese: “o que constitui, apesar de sua diversidade, a especificidade da agnosia enquanto fenômeno, diferenciando-a radicalmente (grifo nosso) do transtorno sensorial elementar, é a perda de uma significação (grifado no texto)”[9].

Essa tese se reveste de grande importância para nossa proposição: ela situa, com efeito, a agnosia em um registro que implica a dimensão de um transtorno das coordenadas fundamentais do sentido e do reconhecimento. É assim que ela faz da agnosia um problema abordável do ponto de vista psicopatológico.[10] Ela é em seguida retomada e precisada nas conclusões do livro: “essencialmente, escrevem os autores, a originalidade do transtorno gnósico limita-se à perda de uma significação, seja por que um código não possa mais ser decifrado, seja por que uma distinção de duas individualidades tenha se tornado impossível[11].

Podemos notar o quanto se revela próxima à clínica que interrogamos essa forma de colocar o problema quando, deslocando-a um pouco, nós a aplicamos à observação princeps da síndrome de Frégoli ou à da síndrome de Capgras. A definição do transtorno gnósico dada aqui pelos autores tomaria aí, com efeito, valor operatório, desde que ressaltemos a significação perdida como aquela que o nome próprio simboliza.

Não dissimulamos, entretanto, o que haveria de forçado em pretender reduzir ao mesmo, sem outras precauções, termos que concernem num caso ao campo das psicoses e em outro ao das agnosias. É manifesto que, por “perda de uma significação”, Hécaen e Angelergues entendem que, em uma agnosia, um objeto particular, ou um certo tipo de objetos, não são mais discriminados simbolicamente pelo sujeito: é o que eles precisam imediatamente depois escrevendo que “é o objeto particular que, na agnosia, perde seu valor de signo”.

Mas, a partir do momento em que essa discriminação do objeto é reconhecida, e com razão, para implicar seu valor de signo, é legítimo considerar que a significação perdida não pode ser apenas faltante isoladamente, isto é, pontualmente e localmente: isso por razões que têm a ver com a própria estrutura dos sistemas simbólicos, começando pela linguagem. A linguística moderna insistiu, particularmente depois de Saussure, no fato de que os elementos significantes tomam valor apenas diferencial, em relação com outros elementos e com o conjunto. Uma significação qualquer só se constitui graças a essas relações. É a razão pela qual seu comprometimento ou sua perda não podem se conceber sem serem correlacionados aos de outras significações. Então, é mesmo preciso supor, para que uma significação seja perdida, ou que alguma coisa da significação seja afetada – na hipótese de certo modo mais pesada; ou ao menos que a significação perdida não seja a única a ser tocada, mas que uma correlação se observe com o comprometimento de outras significações – numa hipótese mais leve. Esse último caso recorta o que os autores ressaltam a título de uma especificidade das associações na agnosia, como lembramos acima.

É nisso que um quadro de agnosia e um quadro de psicose do tipo dos que nos interessam aqui se mostram comparáveis, menos pelo fato da eventual proximidade descritiva dos transtornos realçados, do que por se tratar nos dois casos da perda de uma significação, determinando o comprometimento conexo de outras significações.

É assim, por exemplo, que podemos comparar um quadro como o do caso princeps da síndrome de intermetamorfose, no qual vimos que a doente não distinguia mais seu marido de um vizinho qualquer, mas continuava a identificá-lo a partir de um ou dois traços, com o do Sr. B…, no qual o sujeito confunde sua sobrinha e sua mulher e se mostra incapaz de reconhecer e de identificar as pessoas, salvo se apoiando em certos traços e, em particular, precisam os autores, no da voz[12].

Nessa última observação, o sujeito é crítico em relação ao que lhe acontece e nada do que nos é relatado deixa pensar num transtorno de ordem psicótica. Por outro lado, os fenômenos agnósicos são correlacionáveis, no que lhe concerne, a lesões bilaterais de origem vascular. Entretanto, insistiremos na perda, nos dois casos, da significação de conjunto em favor dos traços elementares.

O que nos interessa aqui é não somente fazer observar como certas afinidades podem se destacar, num nível descritivo, entre quadros de psicoses e quadros neurológicos, mas sobretudo determinar onde passa para nós a linha divisória entre os dois domínios. Essa partilha não é, com efeito, sempre sustentável a partir apenas do nível da descrição ou do contexto patológico, sem que seja necessário tomar posição sobre a estrutura do sujeito. É trivial fazer observar que um sujeito que apresenta um quadro neurológico específico pode, por outro lado, e sem que esse quadro permita afirmá-lo, ser ou não de estrutura psicótica: são dois pontos distintos[13]. Mas, o essencial consistirá em examinar, conforme os casos, se o que os autores chamam de perda de uma significação remete no sujeito a um comprometimento fundamental da significação como tal, e do que a funda estruturalmente, ou se ela tem apenas uma incidência local e limitada, assinalando assim sua natureza lesional, isto é, acidental em relação à estrutura[14].

Ao que nos parece, essa distinção fornece um critério que permite determinar a partição clássica entre transtornos neurológicos e transtornos psiquiátricos, e especialmente entre agnosia e psicose.

Colocando essa distinção nos termos que acabamos de indicar, ficamos em condições de interrogar a clínica da agnosia também do ponto de vista da psicopatologia. Isso nos permite também, para concluir nesse ponto, dar seu alcance à fórmula que encontramos no início desse trabalho sob a pena de Capgras para caracterizar a síndrome que leva seu nome.

Vimos, com efeito, de que maneira, em 1923, Capgras propusera o termo agnosia de identificação para qualificar o cerne dos fenômenos que aparecem na ilusão dos sósias, no começo dessa série de síndromes cuja descoberta nós relatamos. Realçamos então o interesse dessa expressão e do problema que ela assinala, que está longe de se limitar aos transtornos designados nesse caso particular por Capgras.

Na medida, efetivamente, em que toda gnosia supõe, do lado do sujeito, ao mesmo tempo um reconhecimento formal e uma modalidade de inscrição simbólica do que ela apreende, isto é, a sustentação de uma significação, ela comporta necessariamente uma dimensão de identificação, entendida não especificamente no sentido que lhe dávamos anteriormente (cf. Observações preliminares), mas no sentido mais corrente do que pode ligar esse reconhecimento e essa significação. A partir daí, uma agnosia de identificação designaria uma agnosia que atinge aquilo que se mostra no fundamento de toda gnosia.

Capgras produz aí, então, uma noção clínica cujo sentido ele não aprofunda, mas sobre a qual podemos considerar que, para além da ilusão dos sósias, ela remete a uma operação implicada na gnosia em geral. Essa operação não é realçada pelo uso habitual de qualificar as gnosias pela referência a seu objeto – uma gnosia sendo sempre dita gnosia de alguma coisa. O que não impede que, em seu princípio, todas elas suponham a operação daquilo que torna possível o laço entre uma imagem ou um percepto no sentido amplo, objeto do reconhecimento, e um nome.

A noção trazida por Capgras nos conduz, então, ao cerne do que está em jogo nessa problemática, indicando ao mesmo tempo, por meio dessa referência à agnosia, um ponto de passagem na direção do que pode nos reter nos fenômenos mais circunscritos e segmentados que os neurologistas repertoriam e interrogam.

Efetivamente, toda agnosia é em sua base o que ele chama de agnosia de identificação, se ficamos atentos ao que destacam Hécaen e Angelergues ao falarem da perda de uma significação. E será preciso consequentemente determinar em cada caso, como indicamos, qual é a força motora da significação perdida, quais são aquelas que ela carrega consigo, enfim, se a perda é circunscrita ou se ela repercute sobre o próprio estatuto da significação para o sujeito.

Acrescentemos que, com relação à problemática que seguimos, a expressão de Capgras é igualmente apropriada por uma outra razão. De fato, mesmo enfatizando, no caso da Sra. de Rio-Branco, a questão da identificação no sentido objetivo na medida em que ela se distingue para ela, tratando-se de pessoas, do reconhecimento da imagem, a observação de Capgras e de Reboul-Lachaux realça vivamente o que nesse quadro se liga à questão da identificação na medida em que ela incide dessa vez no próprio sujeito. Em outros termos, essa observação nos mostra como a impossibilidade de identificar sob um nome uma imagem por outro lado reconhecida[15] se acha estreitamente ligada clinicamente nesse caso a um impasse da identificação subjetiva, entendida como impossibilidade para o sujeito de ser identificado.

Esse segundo aspecto da questão da identificação não é explicitado como tal por Capgras. Mas ele está, no entanto, presente bem no primeiro plano, se considerarmos o conjunto de notas que nessa observação se ligam ao problema do nome próprio. Basta se remeter ao seu resumo, e sublinhamos isso em nosso comentário, para constatar o quanto os autores insistem nesse impasse, realçando a multiplicidade dos nomes próprios nas falas da doente, e em primeiro lugar dos que a designam; o quanto eles apoiam suficientemente nisso as ocorrências e a tensão para identificar porque se encontra aí destacado um ponto eletivo de desmoronamento simbólico para o sujeito. 

Courbon com Fail, depois com Tusques, aliás não se enganaram quanto a isso, pois podemos considerar que é a partir desse ponto de partição realçado na clínica, senão na doutrina, entre reconhecimento da imagem e identificação do nome, que eles encontraram o crivo que lhes permitiu isolar a síndrome de Frégoli, e depois a síndrome de intermetamorfose, enfim, produzir o conceito de identificação delirante.

 

[1] NT. Traduzido do original Le Nom, L’Image, l’Objet, de Stéfane Thibierge, ed. Presses Universitaires de France, abril 2011, Paris, p. 155-167.

Tradução: Juliana Castro Arantes

Revisão: Sergio Rezende

[2] La Cecité psychique, op. Cit., em particular p. 9 a 27.

[3] “É evidente, escrevem eles, que só se pode falar de agnosia se o sujeito tem a possibilidade de apreender visualmente o objeto. Em todos os casos, um estudo preciso da função visual primária se impõe então. Igualmente, convém em todos os casos assegurar-se […] de que não existe uma alteração da inteligência ou da vigilância que impeça qualquer reconhecimento” (C.P., p.31).

[4] Esse transtorno do reconhecimento, lembram eles, foi inicialmente chamado de assimbolia por Finkelnburg (1870), que traduzia assim a perda do reconhecimento das pessoas e dos lugares que ele tinha observado em um doente. Mas foi de Wernicke que o termo recebeu sua elaboração mais desenvolvida: “é a Wernicke que devemos a primeira concepção muito elaborada da assimbolia, que não designa apenas a perda do reconhecimento óptico, mas a própria noção do objeto; os doentes veem, já que evitam os obstáculos, ouvem, como traduz a expressão de seu rosto, exploram manualmente os objetos com movimentos apropriados, mas as impressões que eles retiram dessas diversas sensações permanecem inúteis e eles não reconhecem os objetos”(C.P. p. 10). Os autores lembram em seguida a origem do termo cegueira psíquica, devido a Munk, que o inventou em 1876 para dar conta de uma experiência praticada em um cão que tinha sofrido “a ablação de uma zona de mais ou menos um centímetro e meio de diâmetro na substância cinzenta da parte superior e posterior da ponta dos dois lobos occipitais”. Esse cão se comportava como se sua motricidade e sua sensibilidade estivessem indenes, ficando indiferente ao que distinguia ali, não notando nem reconhecendo mais nada. Munk deduziu daí, de maneira muito mecanicista, uma distinção entre uma zona da percepção visual e uma zona da representação dessa percepção inicial, apenas esta estando comprometida no cão da experiência. As concepções de Munk foram criticadas na sequência no curso de um debate que evoluiu esquematicamente entre, de um lado, os defensores de um associacionismo localizador, vivamente criticado por Bergson na filosofia e por von Monakow na clínica, e, de outro lado, as teses da Gestalttheorie, tais como elas foram especialmente tornadas célebres e muito discutidas na sequência da publicação do caso Schn… de Gelb e Goldstein. Hécaen e Angelergues destacam dessa discussão os termos principais através dos quais o problema da cegueira psíquica tornou-se progressivamente o da agnosia óptica e de suas diferentes formas: agnosias espaciais, transtornos do reconhecimento das cores, agnosia para os objetos e as imagens, agnosias para as fisionomias (prosopagnosia). Eles lembram que foi Freud quem substituiu o termo assimbolia por agnosia, mais apropriado segundo ele para traduzir “a dissolução da relação entre as qualidades do objeto e seu conceito”. Freud se explica sobre isso no final de seu livro sobre a afasia, de 1891: “Recorri à denominação assimbolia num sentido diferente do usual desde Finkelnburg, já que a relação entre a representação de palavra e a representação de objeto me parece merecer mais o título de “simbólica” do que aquela existente entre um objeto e uma representação de objeto. Os transtornos do reconhecimento dos objetos que Finkelnburg reúne sob o termo assimbolia, eu proporia chama-los de agnosia” (Contribution à la conception des aphasies, Paris, PUF, p.128).

[5] C.P., p. 32-33.

[6] Acrescentemos que a significação desses fenômenos ainda continua incompleta e abstrata se não leva em conta o fato de que eles só aparecem e são descritíveis em resposta à demanda de um outro – mais frequentemente o médico ou o pesquisador que interroga. Essa demanda não é exterior ao quadro. Ela, ao contrário, orienta seu sentido, de modo que podemos dizer que a caracterização dos transtornos, tais como o sujeito os manifesta e os descreve, e em particular a angústia que pode acompanha-los, remetem, a um só tempo, a um déficit objetivamente constatável e à maneira pela qual esse déficit é recebido pelo sujeito em resposta a essa demanda. Ela está, então, diretamente implicada naquilo que o sujeito fracassa em reconhecer: não se trata apenas de seu déficit, mas também da opacidade em que esse déficit o coloca em relação ao que o outro espera dele.

[7] C.P., p. 168-169.

[8] C.P., p. 169.

[9] Ibid., p. 170-171.

[10] Ela, aliás, aparece no livro imediatamente antes de um desenvolvimento consagrado às teses de Wallon sobre a passagem na criança da atividade sensório-motora à significação, às de Piaget sobre o esquematismo e o acesso progressivo à objetividade, bem como aos trabalhos de Spitz sobre a noção de relação de objeto: cf. p. 171 sq.

[11] C.P., p. 194.

[12] Cf. op. Cit., p. 49 sq, onde o caso do Sr. B. é desenvolvido de maneira mais detalhada. Ele foi hospitalizado por recente baixa brutal da acuidade visual com perda da visão das cores. Ele descreve o acidente assim: “eu estava saindo no corredor e bruscamente tive um véu diante dos olhos; ao olhar peixes, eu via sua forma, mas eram corpos negros, eu não fazia mais a distinção entre o branco e o vermelho da toalha da mesa. Eu fazia a diferença entre um homem e uma mulher de uma calçada para a outra, mas eu não reconhecia um rosto conhecido, um colega, tomei minha sobrinha por minha mulher”. Secundariamente, a acuidade visual foi um pouco readquirida. Depois, “de repente o doente manifesta no serviço, além de uma impossibilidade quase completa de identificar as cores, uma dificuldade acentuada em reconhecer as pessoas. Ele se queixa de não poder diferenciar as fisionomias dos outros doentes e do pessoal e só chega à identificação pelo ar geral, a roupa, o andar e sobretudo pela voz”.

[13] Veremos na sequência (cap. 3) que essa distinção não é mais sempre sustentada hoje em dia numa abordagem neurobiológica da psiquiatria.

[14] Nesse último caso, é preciso acrescentar, e nós logo daremos exemplos clínicos disso, que um comprometimento mesmo local da significação vai determinar num sujeito um remanejamento da relação com a imagem especular e, consequentemente, da subjetividade. É o que Lacan ressaltou desde 1949, em “Formulações sobre a causalidade psíquica”, comentando o artigo clássico de Gelb e Goldstein: Goldstein, K., & Gelb, A., 1918, “Psychologische Analysen hirnpathologischer Falle auf Grund von Untersuchungen Hirnverletzer”, Zeitschrift fur die gesamte Neurologie und Psychiatrie, 41, 1-142. Isso decorre do que admitimos na introdução da função primordial dessa imagem na instalação das coordenadas do reconhecimento e do que vai constituir de maneira geral o registro do sentido para o sujeito. Mas veremos que encontramos confirmações importantes disso na clínica. Esse remanejamento pode tomar diversas formas, sem excluir soluções de natureza delirante. Nesse caso, uma ideia delirante surgida no decurso de lesões neurológicas não assinala necessariamente uma psicose, mas pode resultar dessa relação remanejada com a imagem especular.

[15] Na verdade, esse reconhecimento não é sem apresentar uma certa labilidade, como vimos: certos detalhes mudam, nunca é exatamente a mesma imagem. É por isso que o campo do reconhecimento também está comprometido. E é também por isso que podemos colocar a questão: o que é que o sujeito identifica nesse caso, que torna impossível a identificação da imagem, e lábeis os traços que permitem seu reconhecimento.

 

Print Friendly, PDF & Email