Transferência e psicoses: que especificidades?

 Louis Sciara

 O desejo de por a trabalhar a questão da transferência nas psicoses nasceu de uma interrogação que Étienne Oldenhove e eu mesmo partilhamos. Como entender e dar conta do trabalho psicanalítico singular que se desenvolve com falasseres psicóticos, mais particularmente com aquelas e aqueles que aí se engajaram a longo curso, como muitos clínicos da criança e do adulto fazem e têm a experiência. Estas Jornadas da ali nos deram a oportunidade de falar disso e de debatê-lo.

Para a orientação de nosso trabalho, creio que é essencial não desconhecer o implacável determinismo da estrutura que guia a transferência com esses pacientes. A experiência clínica na matéria nos faz de todo modo renunciar a ilusões terapêuticas excessivas. A modéstia é a regra. Nós – os clínicos – não sabemos na maior parte das vezes em que processo transferencial estamos designados. Isso seria mais nítido do que com neuróticos? Sem dúvida, pois os pacientes psicóticos nos desalojam de nossas coordenadas usuais no que diz respeito à relação com o tempo e o espaço, o que torna muito delicado um balizamento de suas próprias coordenadas. Eles nos incitam a fazer o esforço de uma conceituação para ter uma certa legibilidade delas. Quando Marcel Czermak evoca a “decomposição espectral”, ele indica a difração das instâncias, das linhas de força da estrutura. Ele nos faz tomar a medida da complexidade desse tipo de transferência, da lógica que liga os fenômenos. Nesse sentido, a dificuldade com que nos chocamos ao evocar a transferência psicótica não pode nos dispensar de tirar algumas consequências de nossas próprias experiências, boas ou más, sobre o que deveríamos saber.

No espírito dessas Jornadas, é então importante não nos deixarmos enganar priorizando demais a “inventividade” própria do clínico. Essa pretensão enganosa é inexoravelmente desmentida. De um lado, em razão do impacto dos fenômenos de automaticidade linguageira pregnante, mais ou menos, em toda estrutura psicótica. De outro lado, por uma disposição específica do amor de transferência, já que ele não obedece a nenhuma temperança (por não ser metafórico), podendo induzir transbordamentos passionais, com o risco de uma erotomania, o que faz Marcel Czermak dizer que, quando um psicótico ama, ele ama ou detesta realmente.

É também o que o leva, parece-me, a enfatizar o caráter frequentemente irresistível desse tipo de transferência e a prudência a adotar quanto ao que é praticável. Não se trata então de negar a transferência psicótica, mas justamente de se interrogar sobre o que é praticável com um paciente. De fato, o clínico nunca sabe o que o fato de que ele empreste seu ouvido a alguém desencadeia. Quando a transferência se instaura de maneira durável, o paciente está melhor, isso não previne remanejamentos, básculas que podem vir em ocorrências inesperadas, desencadeadas por um significante enunciado durante uma sessão, ou que surge no Real do paciente. Faço alusão a esses momentos de descompensação (viragens fecundas de um delírio) em que o analista vem encarnar brutalmente, e às vezes de maneira durável, o Outro, não barrado, perseguidor ou amante realmente, e que podem conduzir a passagens ao ato. Isso para não nos embalarmos demais com nosso imaginário sobre a evolução favorável da transferência, seja qual for, aliás, a pertinência do clínico no trabalho em curso com o paciente. A surpresa é a regra na transferência psicótica. Sem esquecer que nem sempre é fácil situar as linhas de força de uma estrutura, e muitos de nós puderam ter a desagradável experiência do desencadeamento de uma psicose com um paciente cuja psicose não era facilmente identificável e que, até então, tinha encontrado meios de se preservar dela, a sua maneira.

A escolha desse tema também não é estranha a nossa atualidade. A orientação biológico-comportamentalista da clínica psiquiátrica tornou-se predominante. A palavra do louco, a do psicótico, é cada vez mais desconsiderada, julgada sem interesse. Assim, é da responsabilidade dos psicanalistas lembrar e transmitir que não há clínica senão uma clínica da transferência, que os psicóticos não escapam à regra. Devemos ressaltar todo o crédito que é necessário dar a sua palavra e a suas modalidades de inscrição na transferência, caso a caso, fazermo-nos os depositários de seus dizeres. A força da clínica psicanalítica repousa na linguagem, na palavra, mas também na hipótese, na suposição de que haja sujeito na experiência da transferência, seja qual for o determinismo da estrutura clínica do falasser concernido. Ora, o estatuto lacaniano do sujeito na psicose não é sem problema, pois os falasseres psicóticos não são sujeitos divididos. O fato de que não haja divisão operada não permite que por isso se faça abstração da questão do sujeito, mesmo se os fenômenos elementares, como manifestações no Real do retorno do que está foracluido do Simbólico, estão ali para estigmatizar a incidência e o imperativo do objeto (voz, olhar…). O fato de que as psicoses revelem a crueza da incidência da pululação dos objetos não deve nos incitar a negligenciar, de nossa parte, o que seria do dito sujeito na psicose, mesmo se ele é mais falado do que fala e entregue às injunções do automatismo linguageiro, mais ou menos, como ensinava De Clérambault.

De todo modo, a imensa maioria dos psicóticos tem acesso à linguagem. Eles têm um uso do significante e todo significante não é redutível ao signo. História de extensão dos efeitos da foraclusão do Nome-do-pai, como no clássico “delírio parcial”. Dizendo isso, eu não ignoro que os neuróticos têm sua parte de loucura, de alienação, de automaticidade na divisão que determina sua palavra. Mas é importante fazer a distinção entre automatismo mental e compulsão de repetição. Trata-se, consequentemente, para o clínico, de estar atento às palavras do “sujeito” psicótico, registrando o que ele diz, mesmo quando o dito sujeito é vacilante ou mal definido. A meu ver, o fato de se preocupar com a questão do sujeito participa de uma preliminar ética ao tratamento psicanalítico dos psicóticos, do engajamento necessário para sustentar esse tratamento, tendo em mente que sujeito e objeto não estão enodados nesses casos por uma fantasia.

Em que ponto estamos nessa questão que mobilizou desde há muito tempo os psicanalistas e que também influenciou, para não dizer que determinou, a doutrina e a orientação ética de diversos grupos, associações, escolas, que reivindicam a psicanálise? Lacan concluiu assim seu texto dos Escritos, do final de 1957 – início de 1958, “A respeito de uma questão preliminar a qualquer tratamento possível da psicose”: “Nós deixaremos aqui, por enquanto, essa questão […] que introduz, podemos vê-lo, à concepção a ser formada da manobra, nesse tratamento, da transferência”. Ele precisava também: “Não se trata de ultrapassar Freud”, mas, antes, de retornar a ele “quando a psicanálise depois de Freud voltou à etapa anterior”. Ao utilizar o significante “manobra” tomado emprestado a De Clérambault, ele reforçava sua ligação às referências e às contribuições da psiquiatria clássica. Ao evocar esta manobra, ele deixava entender claramente a necessidade, para os clínicos, de se formarem nela. Ou seja, ele nos incitava a conhecer as condições, as modalidades, as especificidades do “tratamento” psicanalítico da psicose, para estarmos mais “advertidos” no manejo da transferência e tentarmos evitar de algum modo os erros grosseiros devastadores. Tendo ele mesmo operado um retorno a Freud revisitando nesse texto o presidente Schreber, a partir de seu seminário sobre As estruturas freudianas das psicoses (1955/1956), ele não compartilhava o pessimismo do mestre vienense, mas propunha avançar com prudência. Se for necessário lembrar que Freud in fine não acreditava muito no recurso à psicanálise para os psicóticos, mas de todo modo nos legou sua magistral análise das memórias de Schreber e algumas noções preciosas, entre outras, sobre o narcisismo, a melancolia, o delírio como “tentativa de cura”.

O significante “manobra” torna implícita a exigência de que o clínico possa ter uma ideia mais precisa do lugar que ele vem ocupar no dispositivo transferencial com um falasser psicótico. Eu lhes farei observar que Lacan não fala de “direção do tratamento”, como com o neurótico. Ele diferencia assim o processo transferencial psicótico, reconhecendo sua existência e sua especificidade. Ele emprega também a palavra “concepção”, enodando nisso transferência e clínica, o que leva à questão que pretendo colocar: transferência e estrutura seriam homogêneas, equivalentes? Se é esse o caso, o que seria do trabalho do clínico? Como entende-lo e restitui-lo? Ao propor o significante “manobra”, que remete ao dizer e ao savoir-faire, Lacan não estaria realçando em quê o clínico participa disso que se enoda ou se desenoda da estrutura psicótica do paciente no decurso da transferência?

O que aconteceu com essa “concepção” quase 55 anos mais tarde, depois de seus seminários sobre As estruturas freudianas das psicoses (1955/1956), A transferência em sua disparidade subjetiva, sua pretensa situação, suas excursões técnicas (1960/1961) (no qual ele não faz nenhuma alusão à psicose), mas também depois do que ele pôde nos transmitir nos seminários em que ele trabalhou a partir da topologia dos nós, em particular Les non dupes errent, RSI, Le Sinthome? Estes últimos não teriam modificado, mais do que aqueles centrados na topologia das superfícies, nossa “concepção” estrutural das psicoses e de maneira correlativa seu tratamento psicanalítico? Teriam eles tido como impacto trabalhar de outra maneira com pacientes? Estaríamos a partir daí mais preparados para o manejo dessa transferência? O que teríamos descoberto no decurso de nossa prática clínica, já que desde o fim do ensino de Lacan muitos clínicos se prestaram a acompanhar, a seguir, a aceitar também às vezes a aposta de um trabalho psicanalítico de longa duração com certos pacientes? É a essas interrogações que temos que responder e elas é que poderiam abrir outras perspectivas para esclarecer essa praxis.

Certamente, alguns clínicos, lacanianos ou não, produziram elaborações nesse domínio, com orientações muito diferentes. É mesmo uma particularidade na ALI. É incontestável que muitos clínicos manifestam há anos um interesse certo pela clínica psiquiátrica e muito especialmente pela vertente das psicoses. A psiquiatria clássica não é objeto de suspeição como em outras instituições analíticas que a concebem como antinômica à clínica psicanalítica. As psicoses são então objeto de uma clínica sustentada. Charles Melman dedicou a elas vários seminários. Diversos grupos sobre o bebê, a criança, o adolescente e o adulto se constituíram e estão na origem de diversas publicações. Mencionarei os trabalhos, a meus olhos essenciais, de Marcel Czermak e, na sua trilha, os de colegas da Escola de Sainte Anne. Eles contribuíram para verdadeiros avanços teóricos, disponibilizando ferramentas indispensáveis para situar na clínica das psicoses a lógica estrutural de fatos clínicos fundamentais como o automatismo mental, os fenômenos elementares, a melancolia, a mania, a hipocondria, o Cotard, o transexualismo, o imaginário sem eu, a paranoia, o Fregoli… É aconselhável lê-los bem. Mas, in fine, muito poucas pesquisas me parecem centradas na transferência psicótica. Ela é em geral abordada indiretamente ou incidentalmente conforme a vertente estrutural estudada. Que ela seja tão pouco elaborada diretamente não é estranho à dificuldade de estabelecer suas premissas e poder situar-se, a exemplo do trabalho clínico que é abordado muito diferentemente com a criança ou com o adulto.

Farei a observação de que eu escrevi transferência no singular e psicoses no plural no título de minha intervenção. A transferência é um conceito princeps da clínica psicanalítica. Ela se declina segundo diversas modalidades num tratamento. Elas correspondem aos efeitos lógicos induzidos pelas três estruturas clínicas que Freud nomeou e diferenciou: neurose, psicose e perversão. Isso supõe enquanto conceito que ela se apoia numa sistemática estabelecida e ordenada por fatos clínicos que a atestam. Como todo conceito, ela se apoia no Um. Em sua “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”, Jacques Lacan produz uma escrita da transferência, a única que é do meu conhecimento.

 

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Ela traduz justamente esse esforço de sistematização que especifica a transferência enquanto conceito. Ele distingue S, o significante da transferência que implica um significante qualquer e o desfile dos significantes, s o suposto do saber do sujeito, ou seja, o sujeito da transferência – sob a barra – e o saber furado, o do inconsciente, notado (S1, S2 … Sn).

De minha parte, não creio que esse algoritmo da transferência seja operativo para as psicoses. As instâncias e os lugares não procedem da mesma lógica. A inscrição da barra do recalque é inapropriada. O saber psicótico não tem o mesmo estatuto que o saber inconsciente próprio do neurótico. Ele não é furado. Ele não pode se escrever com os parêntesis do recalque (S1, S2 … Sn), por falta da castração do Outro. Ele não tem endereçamento a um sujeito suposto saber – esse “constituinte ternário” do qual Lacan faz o “pivô de onde se articula tudo que é da ordem da transferência” – já que ele não pode estar em lugar de Outro barrado pela castração. Em suma, as condições da transferência psicótica não permitem validar essa escrita.

Entretanto, os pacientes psicóticos são levados a solicitar os clínicos. Se o endereçamento não é orientado por um sujeito suposto saber, ele também não é inexistente. Ele é complexo, revestindo diversas formas. Quanto à demanda, se é verdade que nós nos façamos seus portadores sem que eles demandem nada, ela não é demanda de outra coisa como para os neuróticos. Ela é na maioria das vezes a expressão sobredeterminada do comando de um “puro” significante ou de uma rede de “puros” significantes que veicula uma significação toda pessoal, o que influencia diretamente no estabelecimento da transferência.

Por outro lado, é preciso lembrar que a grande maioria dos psicóticos tem acesso ao campo da linguagem, ao espaço Outro, tesouro dos significantes. Eles não estão excluídos dele. É mais justo dizer que eles não têm lugar no Outro, lugar do dizer, aquele da subjetividade, por falta da lei da castração, condição indispensável à inscrição possível de um lugar. Que o Outro não seja barrado não permite no entanto eliminar inteiramente a questão da disparidade dos lugares. Não há uma disposição exclusiva para a paridade, para a relação especular com o pequeno outro, na transferência psicótica. Sem omitir que o estatuto do pequeno outro também faz questão. Em que representação especular ele se sustentaria? Ele não seria heterogêneo e função do tipo de psicose? E, mesmo para os paranoicos, já que eles acedem a uma representação, qual é a natureza desse outro especular cuja representação não obedece às mesmas condições do neurótico, já que a ausência de recalque não pode permitir que se escrevam os parênteses de i(a)?

A meu ver, é precioso, embora seja um pouco forçado, diferenciar o Outro enquanto campo da linguagem e o Outro enquanto lugar de uma “Alteridade” (como dizer?) não marcada pela castração, para situar melhor a posição do analista na transferência psicótica. Vou distinguir três situações. A primeira é a mais radical: é o caso do “sujeito” erotômano quando a cristalização delirante se completa, isto é, quando ele faz Um com seu objeto. Continua havendo o Outro da linguagem, não há lugar para um outro e toda disparidade desapareceu. A dita manobra é impraticável, o risco de passagem ao ato, maior. As duas outras disposições transferenciais permitem entender que há uma margem de “manobra”, em particular porque o clínico se vê oscilando entre um lugar de pequeno outro e um lugar em que ele funciona como Outro. Entendo assim uma função que marca um pouquinho a diferença dos lugares e que permite que o “sujeito” psicótico não fique entregue ao unívoco imperativo de um Outro real. Função que poderia introduzir a uma “certa Alteridade” no sentido em que ela visa à descompletude do Outro para tentar barra-lo. No entanto, segundo os casos de psicose, o Outro apresenta mais ou menos consistência imaginária. Para alguns, o Outro é consistente demais. Penso por exemplo em pacientes paranoicos que apresentam um delírio estruturado, mais ou menos cristalizado, cuja evolução engendra remanejamentos sucessivos. O trabalho transferencial se apoia numa posição do clínico de tentar manter esse afastamento entre outro e função de Outro, o que tem a ver com uma certa vigilância em tornar o Outro menos consistente, em frear sua completude. Para outros pacientes, O Outro é, em contrapartida, pouco consistente. São esses psicóticos mais desprovidos, submetidos a uma onda de fenômenos elementares, a uma pululação dos objetos (voz, olhar…). Eles são muito angustiados, sofrendo a angústia psicótica por excelência, a de serem ameaçados de não mais estarem assegurados da presença do Outro da linguagem. A posição do analista é então muito diferente. Não apenas trata-se de apoiar, a partir de um lugar de outro, posicionando-se como alter ego, dando conselhos, utilizando-se do arsenal do discurso corrente, mas também de funcionar como Outro por um dizer e uma presença que façam prótese, que sirvam de baliza para lhes dar alguma fixidez e evitar, dentro do possível, que eles se desagreguem ou sejam precipitados numa passagem ao ato. Nesse ponto, o manejo que daí resulta é mais que delicado, pois é preciso também tomar cuidado para manter essa descompletude do Outro. Vocês entendem que essa tentativa de sistematização teórica não é evidente e abre numerosas interrogações.

A transferência psicótica é portanto de manejo e leitura muito complexos. Já que não há sujeito suposto saber, esquematizando, há os casos em que o clínico sabe sem ser mal intencionado e aqueles em que ele sabe e ele manipula. Isso orienta de saída a transferência. Se estamos nos casos favoráveis e uma transferência se engaja nas disposições de um praticável, o clínico tentará não se deixar fixar em lugar de Outro absoluto, que faz Um e que sabe. A experiência, o fato de saber algo sobre esse perigo ligado ao determinismo psicótico não bastam. Eles podem contribuir para um praticável possível no longo prazo. Evoco frequentemente o termo “subjetivação” (e não subjetividade) para qualificar elaborações possíveis no curso da transferência. São construções, mais ou menos correlatas a um tecido delirante, quando ele existe, e que permitem se deslocar um pouco das significações inteiramente pessoais que assaltam o falasser concernido. Elas são tecidas pela automaticidade linguageira, pela gramaticalidade da língua, pelo discurso corrente, e também pelo trabalho do significante induzido pelo que se conjuga com o dizer do clínico. Essa subjetivação não é da ordem de um desfile de puros significantes, ela não é sem consistência imaginária, ela pode fazer ponto de basta aos imperativos do Real, introduzir aí algo que produza defasagem, esboço de enunciação que “contraria” a força do Real. Ela pode ser, no longo curso, a trama singular de uma suplência que advém e que perdura.

Farei alusão brevemente a um último elemento. A importância, verificada em minha experiência, de que haja dois lugares no tratamento desses pacientes: lugar do “tratamento” (face a face e às vezes para alguns no divã) / lugar medicalizado (instituição e/ou psiquiatra prescritor). Para muitos, um tratamento só é possível ao preço de medicações que tamponem a transferência diminuindo o gozo da sintomatologia que os toma. Essa difração dos lugares verifica-se frequentemente preciosa para facilitar a descompletude do Outro.

Então por que, apesar de tudo, falar de transferência no singular a propósito dos sujeitos psicóticos? Essencialmente pela preocupação lógica de ordenar uma sistemática para ela. As escritas nodais dos últimos anos do ensino de Lacan apresentam em todo caso uma formalização diferenciada da transferência. Sua inscrição é inerente à própria escrita das diversas ocorrências nodais possíveis, borromeanas para as neuroses ou não borromeanas para as psicoses.

Por que, também, evocar “as” psicoses? Não é muito difícil constatar a pluralidade dos quadros clínicos. Não se trata dos mesmos agenciamentos da transferência com um maníaco-depressivo, um paranoico, um parafrênico, um esquizofrênico; do mesmo modo que existem formas de psicoses mais femininas ou masculinas. Essa pluralidade também dá conta das singularidades de cada “falasser” psicótico.

Há um outro argumento determinante. Lacan certamente evoca “a psicose” em sua “Questão preliminar…”, em 1957. Ele se apoia então no mecanismo patognomônico de toda psicose que ele acaba de trazer à luz: a foraclusão do Nome-do-Pai, este último designando a instância princeps do Simbólico. Anos mais tarde, nos seminários em que ele recorre à topologia dos nós, ele nos convida, com os nomes-do-pai do nó borromeano a três, a revisitar o Nome-do-pai em sua triplicidade. O que engendra uma “concepção” da psicose menos pessimista, menos sobredeterminada pelos efeitos deficitários do fracasso simbólico. Ele apresenta assim, com o nó de trevo, a estrutura paranoica “curada”, cristalizada, ocorrência raramente perene sob transferência (pois a transferência a fragiliza) ou que não se presta à transferência. Mas, sobretudo com o nó a quatro, Lacan introduz, entre outras, às questões de suplências nas psicoses e muito particularmente ao que se enoda no caso a caso da transferência. Para além dos casos de exceção, como o de Joyce, que constrói seu sinthome por seu trabalho de escrita, Lacan nos abre perspectivas e evidencia para nós a grande diversidade das psicoses. Eu remeto ao artigo de Henry Frignet “Para um tratamento nodal das psicoses” no qual ele faz a hipótese de desenodamentos ou de enodamentos não borromeanos particulares a cada tipo de psicose, enodamentos que traduzem a dinâmica de transferência que lhes é própria. Essa espécie de tipologia nodal tão interessante não pode, no entanto, servir de modelização das psicoses em sua heterogeneidade, nem dar conta da singularidade e da evolução dos casos sob transferência. A noção de suplência relança oportunamente o que Lacan já tinha nomeado em sua Tese de 1932 como “as potencialidades de criação positiva”, justamente na experiência da transferência com um “sujeito” psicótico singular.

Ela interroga o que, muitas vezes de maneira enigmática, se constrói no caso a caso de um trabalho com um clínico, para além da tipologia psiquiátrica das psicoses. Tomo como prova disso que seria lógico, consideradas sua relação com a linguagem e sua fundação especular mais estruturada, que certos paranoicos, certos maníaco-depressivos nos momentos de “intervalos” ditos “livres”, fossem mais aptos a um trabalho de “subjetivação” de sua palavra do que outros pacientes com psicoses menos estruturadas. Mas aqui também há surpresas. Por exemplo, com a emergência de suplências singulares, como um delírio que se cristaliza em casos de esquizofrenias no entanto muito degradadas e que conseguem se organizar graças à transferência. Por isso, eu me permitirei insistir, não tanto sobre a variedade das modalidades da transferência conforme o tipo de psicose mas sobre os efeitos da transferência entre um clínico e um “sujeito” psicótico. Nesse sentido, se a leitura de uma sistemática da transferência psicótica, de um ordenamento dessas especificidades, é indispensável, ela me parece insuficiente e, de certa maneira, menos formadora do que a restituição de uma transferência singular que se enoda com um clínico. Isso remete à “manobra” – se é que a experiência na matéria a torna mais advertida -, isto é, à maneira pela qual o clínico se presta a enodar seus próprios registros estruturais, R, S e I, àqueles sobredeterminados pela estrutura do paciente.

Para concluir, permanecerei em minha interrogação relativa à equivalência entre estrutura e transferência. Lacan se entrega ao exercício de fazer nós. Sem fazer explicitamente referência a isso, ele inscreve a transferência como o que participa da operação de construção de um enodamento, se sustentamos que a transferência é o vetor da clínica. Estrutura e transferência participam de algum modo de um enodamento singular. Elas não seriam nem equivalentes nem homogêneas, mas enodadas na efetuação de um enodamento particular. A partir do momento em que ele escreve os nós sob a forma planificada, a transferência, que tem sua inscrição aí, perde sua legibilidade, já que o que a sustenta é o significante, a palavra.

No que se refere à transferência psicótica, Lacan dedicou um seminário a Joyce e propôs uma escrita do enodamento pseudo-borromeano de sua estrutura, indicando a quarta rodela do sinthome que enoda as outras três. Esse enodamento particular de Joyce não vale, é claro, para qualquer psicótico. Ele orienta a “concepção” da transferência nas psicoses, abrindo espaço para uma pesquisa sobre os diversos enodamentos não borromeanos possíveis que apresentariam a transferência segundo os falasseres psicóticos e a tipologia de suas psicoses. Essas escritas dos nós, borromeanas ou não, podem certamente diferenciar as neuroses e as psicoses. Se elas valem sobretudo por sua dimensão sincrônica, elas não integram a dimensão evolutiva de uma estrutura sob transferência. A menos que se consiga escrever as transformações nodais sucessivas, essas famosas “potencialidades de criação positiva” que advêm no decorrer de uma evolução transferencial particular. O equipamento nodal nos permite incontestavelmente ler a clínica na triplicidade dos registros (Real, Simbólico, Imaginário). Ele complexifica a leitura da transferência, psicótica ou não, mas ele não pode nos dispensar do uso do significante para diferenciar suas modalidades quanto à demanda, ao endereçamento, à relação com a Alteridade, àquela com o sujeito suposto saber, etc.

Um último ponto merece atenção. O que seria do desejo do psicanalista nessas configurações transferenciais, muitas vezes intermináveis, que não são sem risco nem para o paciente nem para o clínico? O que entender desse “desejo” se ele não é senão a consequência de uma determinação quase automática que se inscreve desde a instauração da transferência? Mas ainda seria preciso sustenta-la durante um longo período. Será que o dito desejo não participaria sobretudo de uma “fé” (é um termo de Lacan) particular do clínico e que não seria estranha a suas próprias determinações inconscientes, isto é, a sua relação íntima com a questão da loucura, em seu encontro com um falasser psicótico singular? Se a topologia dos nós permite entender melhor em quê transferência e estrutura se enodam num mesmo movimento, ela também dá uma acepção espacio-temporal, lógica, ao que seria da ordem do desejo do psicanalista. A saber, seu estilo, sua maneira de “se prestar” – por sua palavra, sua relação com o Real, sua aptidão para cuidar da descompletude do Outro – ao que pode permitir fazer suplência com certos pacientes, numa função de reajuntamento que tem a ver com a triplicidade dos registros.

 

Étienne Oldenhove – Como o tempo é curto, eu cedo imediatamente a palavra a Choula Emerich, que gostaria de colocar uma questão, e à sala, evidentemente, que ainda não teve ocasião de poder interpelar os que intervieram.

Choula Emerich – É muito complicado colocar uma questão depois de uma exposição assim porque, no fundo, o que seria preciso colocar sobre a mesa é um caso clínico ou um tempo de um caso clínico para mostrar como, na prática, cada um de nós se vira nesse tipo de lugar. Mas eu gostaria, assim mesmo, de retomar com você, pois eu acho que você pode levar ainda mais longe a questão da transferência, mas não do lado de um paciente psicótico, mas será que existe uma transferência do lado do analista, em relação a seu paciente? E, se sim, de que natureza é ela? É uma questão que eu ligo à questão de saber se um analista, nessa posição de comando, o que o sustenta, será que é o desejo ou será que é uma ética? Pois, evidentemente, não é de modo algum a mesma coisa, pois se é uma ética, qual? E vemos, com tudo que foi dito esta manhã sobre a evolução no social, no que se refere à questão do desejo, eu creio que desse lado teríamos interesse em ir desdobrar um pouquinho mais precisamente.

Louis Sciara – A questão é excelente. Acho que efetivamente você tem razão. Trata-se de uma ética, mas quando eu evoco o desejo do psicanalista eu o inscrevo previamente na textura desta ética. A posição do analista é de estar, ao mesmo tempo, um pouco advertido quanto ao que poderia não fazer estragos demais e, também, é de participar dessa descompletude do Outro ou, ainda, de se prestar a fazer prótese. Parece-me que isso tem a ver evidentemente com a palavra, com o dizer, portanto, com a enunciação própria ao dito desejo do analista. Agora, o que me parece mais interessante é que, evidentemente, é preciso casos clínicos para referência. A questão da ética – qual ética? – enquadra, de algumas maneiras, o dito desejo. Em todo caso, minha preocupação é insistir na tomada em conta da palavra do psicótico. É para fazer entender que a ética do analista é sobretudo a maneira pela qual ele próprio entende essa questão, o que não se reduz apenas a seu saber de conhecimento, mas principalmente o remete a sua implicação subjetiva e ao que a determina inconscientemente.

Choula Emerich – Mas será que você pensa que, do lado do analista, em relação ao paciente de quem ele se encarrega, coloca-se igualmente a questão da transferência e não apenas a questão do desejo e da ética?

Louis Sciara – Sim, eu acho, seguramente. Michel Daudin fez uma intervenção nas jornadas preparatórias sobre essa questão da contra-transferência; como entender a questão da contra-transferência? Lacan, aliás, retoma o termo contra-transferência em Les non-dupes errent, em muitos outros pontos também, mas me parece que isso interroga. Esta questão que você traz é muito complicada porque: será que a ética deveria ser diferenciada na forma de se engajar ou de ser engajado com um paciente psicótico em relação a um paciente neurótico ou em relação a um paciente dito perverso? É isso que se coloca como questão.

Jean-Jacques Tyszler – Há o engajamento, é o termo que Lacan utiliza em Les non-dupes errent; o engajamento.

Muriel Drazien – Será que, quando nos ocupamos com psicóticos, somos obrigados a inventar neologismos para falar das psicoses?

Louis Sciara – Não.

Muriel Drazien – Me parece que sim, quando ouço você!

Louis Sciara – Não. Eu disse que era preciso insistir nos discursos correntes, por exemplo, a maneira pela qual podíamos nos prestar a essa função de pequeno outro, justamente. Há modalidades que são inteiramente particulares. Tenho muitos pacientes que estão no face a face, para os quais há momentos de conselho, há momentos justamente em que a subjetivação que nós desfraldamos se presta a outra coisa que não representar simples painéis indicadores. É uma posição analítica muito diferente. Não se vai forçar uma interpretação, não vamos nos por a delirar com eles, mas emprestar o ouvido, estar numa função em que somos depositários de um dizer, evidentemente cada um conforme seu estilo. Isso interroga a relação com a loucura de cada clínico.

Roland Chemama – Gostei bastante de sua exposição por sua amplitude, você re-situou muitas coisas. Gostaria de retomar apenas, a partir do seminário que estudamos neste verão, isto é, Lacan toma a noção de transferência a partir da contra-transferência e, bizarramente para nós, quando estamos habituados aos seminários anteriores de Lacan, ele diz: “Só há uma transferência, é a transferência do psicanalista”. É uma questão que eu teria vontade de desenvolver quando tivermos jornadas sobre o fim da psicanálise, o fim do tratamento. O que tenho vontade de trazer como questão é, de todo modo, um reviramento na maneira como Lacan apresenta as coisas para denunciar a contra-transferência, eu me perguntei se essa posição nova não estava ligada a uma prática que é mais pensada a partir dos nós, isto é, que nos nós vê-se bem a maneira como o analista põe algo de si mesmo, no seu interesse por exemplo pelo saber do paciente, de sua maneira de tricotar as coisas em suas interpretações, se isso não implica uma outra posição do analista. Uma última coisa, enquanto eu falo disso, da oposição que você parece fazer entre o desejo do analista e a questão da ética. Afinal, a ética para o analista é não ceder em seu desejo e, se o desejo é um desejo de analista, não ceder no desejo de analista, acho que isso remete à questão do engajamento da qual Jean-Jacques acabou de falar.

Jean-Jacques Tyszler – Obrigado, Roland. Queria dizer também ao Louis que gostei de sua exposição, você fez todo um panorama, mas eu gostaria apenas que levássemos em conta uma coisa, que é aliás bem difícil de se levar em conta, que é a passagem que há em Lacan no seminário que nos formou a todos que é o grande seminário sobre as psicoses. Somos filhos do Seminário III, porque é um seminário que faz um corte extraordinário com a psiquiatria ambiente, e que encontra sua fonte na cultura da psiquiatria clássica da época. Lacan vai continuar seu caminho, como frequentemente, e vai chegar, como você assinalou, com uma tonalidade diferente, parece, ao Sinthome e creio que poucos entre nós, é preciso ser honesto, são capazes de descrever por sua própria conta esse caminho. Para o livrinho, de que Marcel gosta bastante, eu trouxe essa questão. Marcel, por exemplo, parece-me que, em seu trabalho sobre “O homem das palavras impostas”, trabalho que incluía R, S, I, foi preciso um trabalho de cão para levar em conta a triplicidade nodal. Mas é uma ponta avançada.

Nem sempre somos capazes de ir tão longe no uso da triplicidade na clínica. Em todo caso, foi bom que você situasse o quadro, isto é, aceitar que o próprio Lacan retomou a definição de estrutura do Seminário III para abri-la à sua maneira no Sinthome. Eu queria dizer também, para fazer um pouco de publicidade para o Journal Français de Psychiatrie, no último número, creio que há uma resposta para a questão que você fazia sobre como se passa da estrutura para a transferência. São artigos que já datam de uma dezena de anos, que fizemos para os colegas bretões, são artigos que não levam em conta os trabalhos recentes da association sobre a modalidade, a questão borromeana, mas em contrapartida, se prestarem atenção, em todos esses artigos, incluindo aqueles sobre a paixão, sobre o automatismo mental, etc., há coisas que se deduzem das análises de caso, do ponto de vista da estrutura, na conduta terapêutica e na práxis. A cada vez, os colegas relataram o que eles deduziam das posições de impossível da estrutura, quanto a sua tomada na práxis. Então, eu exorto os colegas, sobretudo os que não conhecem bem o Journal Français de Psychiatrie, a lê-lo. Há uma resposta técnica, no interior de todos esses documentos, isso é uma coisa que eu queria assinalar, ao menos para a leitura.

Um outro ponto, Louis, a meu ver, que você abriu, mas que é difícil demais fazê-lo em cinco minutos, são as questões de tipologia. Em dado momento, você levantou uma forma de tipologia da relação com o outro. O que é interessante é que eu me pergunto às vezes, quando se segue um paciente por um longo período, percebe-se que o que chamamos de tipologia, para terminar, um único paciente pode percorrê-las todas, ou seja, bizarramente, a tomada de um paciente na transferência vai fazer surgirem momentos tipológicos que não se esperava, e talvez seja por isso que Lacan mantinha a psicose no singular, apesar de sua diversidade evidente, de algum modo, das psicoses. É uma grande questão, o que chamamos de tipologia. Última pequena observação, talvez erradamente, você disse que o nó borromeano não suportava a ideia da cronologia. Eu penso que se, ao contrário, o trabalho de por cima/por baixo parece corresponder aí, ele pode se ler como o trabalho de intricação e de desintricação dos gozos, é assim que Lacan os nomeia. Então, é possível que todo trabalho que intrique e desintrique gozos seja efetivamente um trabalho de por cima/por baixo transferencial. O que me parece muito importante, para o monoideísmo da psicose, mesmo em psicoses muito unianas, é que venham surgir outras formas da relação com o gozo, seja o exercício de um ofício, de uma arte, de uma leitura, de uma música, de um amor, de uma amizade, formas diferenciais do gozo. A tecnicidade dos por cima/por baixo do nó autoriza a dizê-los como um trabalho transferencial, então me parece muito importante que isto seja dito e é talvez por isso que Lacan dizia in fine: “A topologia é o tempo”; isso inclui essa dimensão de temporalidade.

Louis Sciara – É muito difícil essa questão do tempo, eu acho que é muito difícil restitui-la. Esse trabalho de construção se faz também à revelia do analista. Tratar-se-ia – talvez seja minha fantasmagoria – de já poder dar conta das transformações sucessivas e das variações no tempo do que se enoda e se desenoda. Isso demanda um trabalho considerável no caso a caso. No entanto, não é garantido que as transformações potenciais que poderiam advir, no curso de uma transferência, por exemplo com um sujeito que apresenta uma psicose maníaco-depressiva, sejam da mesma ordem daquelas que seriam acessíveis a sujeitos psicóticos cuja forma de psicose fosse diferente.

Em outras palavras, a particularidade tipológica de uma psicose não é sem incidência no tipo de transformações possíveis graças à transferência, de todo modo, é a singularidade de cada caso que permanece primordial. Por outro lado, a questão da temporalidade é a questão mais difícil para mim na escrita dos nós. Pois, sem o significante, como trabalhar a questão dos nós, porque o legível da transferência só se faz com o dizer. Seu inscritível deixa supor que a transferência está incluída no próprio enodamento. Mas o que é importante é tentar restituir a construção do enodamento no curso do que se desfralda na transferência, e portanto no dizer.

Bernard Vandermersch – A propósito do enodamento, uma pequena dificuldade é que isso supõe que as três categorias sejam forçosamente distintas e, na psicose, é justamente o que é problemático. A questão está aí, desde o início. Enodamento e desenodamento é o que é problemático porque não há consistência assegurada, então a questão está aí desde o início.

Choula Emerich – Eu queria apenas realçar, Louis, que quando você termina este trabalho totalmente apaixonante você fala da fé do analista ou do apoio que ele pode tomar em seu próprio saber inconsciente. Eu me pergunto, para que um psicótico possa chegar a um tempo de subjetivação, talvez isso esteja um pouquinho ultrapassado e seu trabalho testemunha isso e talvez possamos nos descolar dessa necessidade da fé para tentar dar conta disso. Inclusive, por exemplo, pelo enodamento, por algo que seria uma via mais laica em nossa escuta do psicótico, porque se permanecemos nessa questão da fé…

Bernard Vandermersch – Mas a fé não é forçosamente religiosa, em todo caso não em Lacan!

Louis Sciara – O termo “fé”, é Lacan que o emprega. No que me concerne, eu utilizo muito frequentemente, em minha prática, o termo engajamento. É uma maneira de dar conta dessa “fé”. Isso dito, ao escrever este texto eu tive que acreditar um pouco mais! Não sabemos verdadeiramente a que Outro nos endereçamos ao escrever um texto!

Alexandre Beine – Eu gostaria de retomar um ponto que foi evocado tanto por Louis Sciara quanto por Marcel Czermak, que é caro à navegação, o termo “manobra”. Minha questão seria: será que vocês, ou no decorrer destas jornadas, seria possível desdobrar este termo que, a meu ver, não está do lado da técnica nem do protocolo…

Louis Sciara – É um termo de Clérambault que Lacan retoma nos Escritos, é por isso que eu insisti na questão da manobra, que difere daquela da direção do tratamento.

Marcel Czermak – Quando eu era jovem, o psicanalista que se ocupava com os psicóticos, não chiava: “Eu o escuto”. O resultado era, devo dizer, bem impressionante porque… A questão que nos é posta, o termo manobra, por que não? A gente deve meter a mão! Qual é a operação da mão nisso? Qual é sua própria pata? De quê ela é capaz? Pois, afinal, nós dialogamos com o paciente. Como fazer falar o caso ou como tornar o caso falante? Isso não é fácil de modo algum, é preciso a manobra. Sua questão não me espanta de modo algum, porque isso tem má fama: “Eu, não vão me manobrar!” ou “Eu não manobro ninguém!”; nem pensar! É uma verdadeira questão, como formar tipos menos babacas? Para fazer seu trabalho básico, alimentar, com o que é que estou lidando? E, concomitantemente, se eu não tenho ideia de com que estou lidando, meu paciente não tem nenhuma ideia disso. Quando eu perco o fio, ele também perde. A transferência e a contra-transferência são evidentemente uma única e mesma coisa. Se há mariquinhas a que esse termo manobra incomoda, que levantem a mão!

Catherine Ferron – Eu acho que a expressão inteira é muito interessante, “estar na manobra”, pois isso é formidável, é raro, mas necessita um trabalho dos infernos!

Marcel Czermak – Há uma outra coisa que eu queria realçar para Louis. Ele evoca o caso do “homem das palavras impostas”, se vocês o leram atentamente, constatarão que R, S, I e O sinthome não bastam, ou seja, é ainda mais complicado, queremos sempre ajustar a Joyce, o sinthome, a triplicidade. O caso do homem das palavras impostas é ainda mais complicado e, então, não conseguimos dar conta do sinthome, é aliás o que Pierre-Christophe Cathelineau tentou fazer, desdobrar verdadeiramente, que eu saiba é o único que ousou tentar. Curiosamente, durante dez anos, ninguém deu a menor bola para isso! Com Joyce, ficam tranquilos, têm-se a boa caixa de marchas; é falso! É uma das questões de jornadas como estas. Não vejo ali nada que seja evidente. Não estou seguro de que se faça a mesma coisa com a topologia das superfícies e a topologia dos nós. Com relação à questão do tempo, que Louis evocava, tenho uma resposta elementar: “A topologia é o tempo”; o objeto a, é quando ele cai que se tem uma inscrição temporal. Então, o objeto a está, por definição, fora do cômputo, quando alguém se torna ele mesmo o objeto a, está fora do tempo. Não sei se podemos ir muito mais longe nisso. Valeria a pena retornar, um dia, a essas questões de topologia.

Chantal Gaborit – Queria apenas fazer uma observação sobre um ponto lateral, é a que ponto, desde ontem à noite e esta manhã, isso faz eco para mim no que tentamos sustentar como psicanalistas junto a assistentes sociais que acolhem psicóticos. Eu queria simplesmente dizer que, sobre toda esta questão que trabalhamos hoje, é preciso não esquecer que atualmente psicóticos se encontram SDF[2] e em locais de acolhimento, é ali que se encontra a questão da hospitalidade atualmente. Muitas coisas foram ditas sobre “saber dizer não” para definir o campo do possível ou sobre o que você diz, Louis, quando se está engajado com um psicótico, é de longa duração, todas essas coisas são pontos que estão colocados atualmente no trabalho social, nos locais de acolhimento. Como você dizia, Louis, muitas vezes, há dois lugares, é preciso tomar esse duplo lugar para um psicótico, o lugar da terapêutica e o lugar do psiquiatra prescritor, pode ser também o lugar do acolhimento, isto é, os CHRS[3] ou a prisão que é também esse lugar de hospitalidade para um psicótico, e como os assistentes sociais têm muita dificuldade com essa questão da transferência e como certos psicanalistas tentam sustentar essa questão da transferência, mas é muito difícil atualmente.

Marcel Czermak – Eu conheci um dia um sul-americano que veio me consultar ao sair da prisão, ele tinha estado na cadeia na Bolívia, prisão muito agradável como vocês imaginam. Desde que ele estava livre e estava em Paris, o que o espantava, e era por isso que ele vinha me consultar, ele só tinha uma vontade, era voltar para a prisão.

Pascale Bélot-Fourcade – Eu queria acrescentar, ao que Chantal Gaborit acabou de dizer, isto é, eu não sei se podemos pensar que os assistentes sociais estão numa transferência com a psicose. Me parece mais que efetivamente, ao contrário da prisão, a rua é antes um lugar em que o psicótico se torna um dejeto e há aqui uma outra problemática, o que eu chamo de psicose em estado selvagem que está ali, talvez a nos interrogar sobre o estado da sociedade que põe o psicótico nesse lugar, essa exclusão tão radical…

Tradução: Sergio Rezende

 

[1] Transfert e psychoses: quelles spécificités? Publicado em Conditions, enjeux et actualité de la question du transfert dans les psychoses – Journées d’études des 14, 15 et 16 octobre 2011 – Cahiers de l’Association lacanienne internationale – pp. 49 a 63.

[2] N.T. Sigla usada na França para indicar pessoas sem domicílio fixo.

[3] N.T. Centre d’Hébergement et de Réinsertion Sociale – Centro de acolhimento e de reinserção social.

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