Um laço conjugal bem sucedido*

Uma psicose uniana, o puro s’amblant [1]

Marcel Czermak

Eu me permiti dizer que o sinthoma é muito precisamente o sexo ao qual não pertenço, isto é, uma mulher. Se uma mulher é um sinthoma para todo homem, é evidente que é preciso encontrar um outro nome para o que o homem é para uma mulher.
J. Lacan, O sinthoma

No seminário Mais, ainda[2] , Lacan evoca novamente a pergunta de Freud: “O que quer a mulher?”, como sendo aquela que ele quer resolver naquele ano. É na medida em que ele instala essa mulher no que chama de uma vesguice, numa duplicidade da relação com o falo, por um lado, e com S(A), por outro, que ele faz surgir em que sentido ela é não toda, de um lado ou do outro.

A psicose dos homens os mostra no empuxo à mulher. E quanto às mulheres? Pois não se pode sobrepor completamente as psicoses femininas às psicoses masculinas, e, por outro lado, as neuroses femininas se oferecem mais facilmente à loucura do que as neuroses masculinas.

De início, gostaria de lembrar esse ponto que é motivado na estrutura, por exemplo, que a erotomania ou a síndrome de Cotard sejam com bastante frequência eletivamente femininas, enquanto o transexualismo é eletivamente masculino.

Examinaremos uma psicose particular, a de uma mulher que tinha como fenômeno elementar essencial fazer Um com quem estivesse ao seu alcance, mas que também apresentava particularidades da linguagem com as quais esse fenômeno elementar era inteiramente homogêneo. Tratando-se de uma mulher fora da relação com o falo, isto é, fora do sentido, esse caso centra toda a sua questão sobre a relação de uma mulher louca com o Outro. Ele indica como, por estar inteiramente suspensa a um gozo Outro, ela reabsorve o Um no Outro.

É apenas nas mulheres que encontramos esse tipo de psicose. Aliás, se já o encontramos, nunca lemos nenhuma publicação que o isolasse como tal. Trata-se, pois, de um caso princeps.

Vamos chamá-lo o caso da Senhora Útil, que tem a maior relação com o seu nome verídico. Esse nome põe também em relevo a distância entre valor de uso e valor de troca que a posição da paciente explicita cruamente.

Para estabelecer esquematicamente nosso ponto de partida, lembremos que na erotomania é o Outro que faz signo, que elege: “Ele me ama”. Ele diz “Você é a pedra sobre a qual edificarei a minha igreja”, “Eu farei Um com você”. Ela é o objeto, mas a promessa não se realiza. Na síndrome de Cotard, ao contrário, ela se tornou esse Outro, ela faz Um, Universo, ela absorve tudo na sua asfera[3]. Em nossa psicose, que qualificaremos de “psicose uniana”, quando ela encontra o Outro, faz Um com ele (sem, nem por isso, fazer universo. O Um não é o Outro, mas é porque o Outro, rejeitado, lhe falta, que ela faz Um, isto é, sua solidão se mantém). Ao falar de A mulher, não barrada, trataremos de esclarecer o que é isso, pois a psicose faz agir a céu aberto aquilo que habitualmente está recoberto, oculto.

A Sra. Útil só nos fala disto: do gozo suplementar, que nela é único e mesmo, sem metáfora, “túnico”[4].

Divorciando-se, depois de ter deixado seu marido, ela vive há dois anos sozinha num conjugado. Vinha de um hospital que ela frequentava havia muitos anos, de onde queria sair, pois se sentia “tornar-se o outro demais”.

Minhas primeiras notas: 45 anos de idade. Distúrbios começaram na Inglaterra, aos 22 anos. Na verdade, estava fugindo de sua mãe e de sua tia. Vai para uma família trabalhar como au pair[5]. Se toma pelo pai (père). Foge para uma família “normal” e, lá, desencadeamento de um episódio de crepúsculo do mundo, que se renovará frequentemente na sequência. Casa-se aos 26 anos com o amigo de infância que conheceu aos 13. Não tem filhos. Em processo de divórcio. Trabalhos ocasionais como recepcionista, escritório, vendas. Pais divorciados quando estava com quatro anos. Filhos entregues à guarda do pai. A mãe foge com eles. Atribulações. A mãe se casa de novo, logo fica viúva. Vida desregrada. Pai também se casa de novo. Também viúvo. Não o via fazia muito tempo. Irmã mais nova um ano e meio. Cuidava dela como uma “mãezinha”.

“Sempre vivi no provisório, aí não me instalava em lugar nenhum, eu acampo, física e psicologicamente”. Isso poderia ser tomado como efeito das atribulações maternas. Na verdade, não era nada disso. “Fiz um desdobramento de personalidade com minha mãe”, “sentia-me acuada por minha mãe”. O que ela chama de desdobramento de personalidade é: “eu me sentia… sentia meu corpo, minhas impressões, minha pele, meu cérebro, minha reação, sua respiração, eu a sentia à flor de mim mesma, como uma luva que se calça, uma pele que não é a sua, veste-se uma pele que é nova”. Em outros termos, não há nenhum desdobramento, nenhuma divisão do sujeito em relação ao seu Outro primordial; ela faz Um com ele e trata de fugir dele. Ela faz um Um que não é de contagem. É para poder se contar que ela foge, mas fracassa.

“Quanto mais eu reagia, mais isso ocorria.” Nós: “Quer dizer que, quanto mais você queria se afastar de sua mãe, mais tinha a impressão de que você e ela faziam…” Ela: “Um só”. Um só solitário. Foi para não mais fazer Um só que ela partiu au pair. Mas, desde sempre: “Eu mimetizo facilmente; quando chego muito perto de alguém, eu me fundo e viro apenas um e sofro com isso… Por exemplo, quando me entendo bem com alguém, é doloroso, porque fico acamada, durmo, às vezes fico prostrada até que tudo esteja terminado. É por isso que ela luta e eu também para que isso não aconteça com muita gente… Não tenho defesa. Esse trabalho de aproximação dos outros, do outro, é penoso e não tenho defesa. Não me deram a regra do jogo… Tive uma vida superposta. É superposta, a minha vida. Eu tomo cuidado, mas não tenho escolha. Então, o trabalho consiste em ver as pessoas”.

Assim, então, em primeiro lugar mimetismo: “Desencadeia-se sozinho. Começa sozinho, mas eu não desconfiava. Eu sofria, mas pensava que para todo mundo era parecido”. Em seguida, o sentimento de ser duplo: “ela e eu”. Enfim, captação no outro para fazer Um. Oscilação do dois, do desdobramento que não o é, ao Um. A cada vez que ela quer deixar a mãe, tia, que decide “sair”, ela reintegra a mãe. Não tem vida própria, mas a vida dos outros. Assim, tem uma vida superposta, o que chamo de espaço folhado dos psicóticos, também ilustrado pelo enxame S1(S1(S1(S1 →S2)))[6]. Quanto ao difícil trabalho de aproximação dos outros, trata-se justamente de carência de limite, de série, de contagem, por não ter um lugar no lugar do Outro. Ela está no escópico: “Então, o trabalho consiste em ver as pessoas”.

O que acontece na Inglaterra? Ela chega a uma família composta por um pai de 55 anos, uma esposa bem mais jovem e o filho de ambos. Chega um rapaz, filho de um primeiro casamento do pai. Ela supõe, com ou sem razão, que a moça se interessa pelo rapaz e engana o marido, toma o partido do pai e da criança, ela se torna o pai, começa, imaginariamente, a alimentar ciúme e hostilidade em relação à moça. Em resumo, a situação se inverteu em relação à da França: mudando de conjuntura, ela adere ao partido do pai. Ela fugirá desse lar quando o menino, depois de uma breve ausência, “ela não o reconhece… ele se tornou malvado… ele morde”. Deve-se notar que não há nela nenhuma elaboração da posição dos seus pais, nem da sua entre seus pais; ela repete os discursos deles quando eles estão ao seu alcance. Então, ao mudar de lugar, de família, ela muda realmente, ela muda realmente de lugar. Foge, então, para “uma família normal”: pai, mãe e filhos, estáveis. É ali que o crepúsculo psicótico eclode. Desencadeamento do mimetismo com o pai: “Eu fazia mimetismo com o homem para a criança. Foi ele que familiarizou a criança comigo, enfim, seu primeiro banho, nós o tomamos todos os três. Ele colocou a criança nas minhas mãos. E foi o pai que fez isso.”

Desencadeamento da psicose: ela faz um com o pai, em relação ao trio criança/mãe/rapaz. Ela desenvolve suspeitas. Mãe/rapaz/criança partem por alguns dias para a família da mãe (partida da sua própria mãe). Quando voltam, a criança está mudada, morde, tornou-se malvada. Então, ela foge para uma família “normal”. Mas ela “não tem essa regra do jogo”. Ela fica louca diante da regra do jogo. Até então, ela conhecia a música. Até então, “sempre se sentira junto às mulheres contra o homem”, vivendo o falo como traumático. Até então, fazia Um com as mulheres e as crianças. É quando é levada a fazer Um com um homem, um pai, em relação às mulheres e a uma criança, que a psicose se desestabiliza, e depois, num segundo tempo, eclode amplamente quando ela encontra um pai. A psicose se desestabiliza (primeiro momento) quando ela toma o partido de um pai, um pai no real que surge em oposição a esse sujeito que é a sua mulher. Esse homem, por quem ela se toma, por falha simbólica, vem em oposição imaginária à sua mulher e, como se trata de um pai real, ela se torna louca. Ela faz Um no real com esse pai, em oposição imaginária à sua mulher. No segundo tempo, depois dessa desestabilização, a psicose se desencadeia francamente quando ela encontra uma família “normal”, isto é, um pai real que vem, nesse caso, em oposição a ela própria. Num primeiro tempo, ela se desestabiliza ao tomar-se pelo pai. Num segundo tempo, um pai real desencadeia a psicose declarada. Quando faz o pai, o homem, ela não se torna histérica, torna-se louca diante desse S que o falo porta, por não poder se dividir, e mais ainda porque, em seguida, encontra a regra do jogo de uma família “normal”. Ela vive (vivendo a vida dos outros) o desdobramento real entre, por um lado, a vida do Outro não barrado – não é S(A) – e, por outro lado, o falo como excluído e traumático, devastador quando se manifesta, mesmo velado. Tomando o partido de um pai, ela se rejeita da função fálica e bascula no Outro. Quando se interessa por alguém (nem que seja quando o seu olhar se interessa), ela cai aí, faz Um com ele e, quando se solta, sente-se “órfã”, desdobrada: “De fato, é para preencher uma lacuna… é para preencher algo no interior, uma falta… faltou-me a imagem de um homem, de um pai”.

Um dia, seu pai foi vê-la em casa, “e comecei a ter uma espécie de demência, a andar completamente nua, a viver a vida de minha mãe, a viver a minha, todo o passado das pessoas que eu conhecia voltou à superfície. Tenho ausências, tenho buracos de memória, porque há coisas de que não me lembro muito bem”. Caráter arrombador do pai, do falo que a rejeita para o lado de seu Outro. Ou ela se toma pelo pai e se torna louca, ou um pai se produz e a rejeita para o lado Outro, com quem ela faz Um. Ao contrário do que ela imagina, não foi imagem que lhe faltou: ela a tem demais. É do significante paterno e da significância fálica que ela é carente.

Desde o seu episódio psicótico agudo, ela nunca delirou propriamente falando (nem antes, aliás). Não é um delírio clássico. Mas, a partir desse momento, “as pessoas me atraíam, umas depois das outras” e, principalmente, foi depois que sua mãe tentou fazê-la divorciar-se, quando ela tinha encontrado uma certa estabilidade no casamento, que ela deslizou do Um ocasional com o marido para o Um com cada um, sucessivamente, sem poder contá-los. Notemos, de saída, que ela encontrava estabilidade em sua relação com o marido, pois tinha encontrado ali um lugar no Outro sem que a parte fálica estivesse demasiadamente em jogo, sem que ela fosse prevalente.

Esse fenômeno de captação, essencialmente escópico, no Um, é qualificado de “cinema”: “Meu cinema é só meu”. “Apesar disso, você chama isso de seu cinema”. “Sim, meu cinema, na medida em que uma pessoa normal pode ter esse tipo de fenômenos e canalizá-los. Ter condutas diferentes. Não mistura sua vida privada com sua vida de trabalho, com sua vida interior, com seus colegas, seus filhos, seus netos.” (Suas “vidas superpostas” é que lhe dão esse sentimento de mistura.) É que, na verdade, ela é sem laço, sem articulação, sem cópula, na medida em que o falo é o significante da cópula. Seu problema é manter a separação, mas ela oscila instavelmente entre conjunção e disjunção. Nunca está em uma ou na outra. O fenômeno tem seu ciclo, “uma espécie de disparo que se põe a funcionar, e que termina e recomeça”. “Quanto mais eu vou, quanto mais mais envelheço, mais mais me dou conta de que a coisa se organizou”. Desde sempre: “Penso que nasci assim”, bem pequena ela já tinha essas “perdas de memória”, essas “ausências”, que é essa unificação. Desde sempre, fez um com mãe, irmã, com as pessoas. Então, “eu não podia aprender na escola”. Desde bem pequena, vivia a vida de sua mãe, fazendo-se de mãe com sua irmã mais nova, e aí “ninguém devia tocar na minha irmã, era eu”. Esse fenômeno de unificação lhe é cotidiano, comum, normal, ela pensa que é assim com todo mundo, mas os outros controlam melhor, e os psiquiatras controlam ainda melhor por disciplina profissional. Ele se produz ora com um outro relativamente estável, ora com vários outros sucessivamente. É um tipo de amnésia de identidade bem diferente das amnésias de identidade neuróticas; quando ela vive a vida dos outros, não sabe seu próprio nome, nem quem ela é, ao passo que o neurótico que tem amnésia de identidade quer viver enfim sua verdadeira vida, sua própria vida, coisa que ela não pede. Veremos que esse fenômeno de unificação está sob a dependência do gozo do Outro. Na amnésia de identidade neurótica, um gozo fálico está em jogo. Dessa existência de ausência de semblância (puro semblant por isso), da qual ela não tem noção, ela diz: “Eu não faço semblant de nada, não quero ser voyeur para os outros”. Portanto, ela se defende um pouco dessa apetência pelo olhar. Entretanto, vê um filme sobre Drácula e toma seu marido por Drácula vivendo no filme. Vive seu parto narrado por sua mãe, depois “eu vivia com a peruca dela”. Contam-lhe as histórias de Bécassine, os contos de Perrault, ela está neles. Está fora de sentido, por falta de Falo e de S(A). “É uma vida incoerente, não tem sentido”. “Faço uma pequena bulimia de alguém e, três voltinhas[7], e aí recomeça. É preciso que isso se estabilize.” Ela está na perdição da atopia. Com relação àqueles que a cercam, ela considera essas relações sob a forma de um colapso controlado de um no outro. Aliás, é assim que ela considera as relações sexuais. No que lhe diz respeito, é o mesmo, com a diferença de que o colapso não é controlado. Esse fenômeno tem outras características: “Há uma poesia no fato de sentir-se aspirada, atraída pelos outros”. Não se trata de gozo do corpo do Outro, pois é essencialmente escópico, é o olhar que capta, ela cai nele. Essa poesia “é um desejo de ir para o desconhecido, mas é atraente apesar de tudo, é uma aventura”. “Você fala disso como se houvesse aí, como chamá-lo?, um prazer?” Ela: “Se fazemos isso à toa, não vale a pena. É perda de tempo… Podemos… É preciso fazer isso toda a vida”. Isso tem então sua utilidade, mas qual? Insistimos: “É no terreno do sonho, talvez?”. “Do sonho na meu tipo de comunhão, meu tipo de atração pelos outros, aceitar compartilhar, misturar um pouco as ideias, a personalidade, enfim, fazendo sempre esse tipo de coisa, nos damos conta de que isso pode ser feito de uma maneira ordenada por especialistas, não por qualquer um. Senão fazemos isso durante toda a vida. É negativo e doloroso. Muitas vezes acaba em separações e revoltas, não se pode ir até o fim, ou entã, de qualquer modo é doloroso, não é… eu sei que não é controlado…” Então, ouve muito o rádio (como muitos psicóticos – notemos a difusão do walkman entre eles): “É um pequeno recuo estratégico para não se deixar ir”. “Sempre tive medo, justamente, de cair sob o domínio dos outros… Agora, sei claramente que é sempre assim. Num dado momento, eu me solto e, quando eu me solto… É mais ou menos como um esgarçamento”. Dor do esgarçamento. Nós: “Como é que se chega a se soltar?”. “É a independência que volta a prevalecer. Senão seria insuportável, mas, quanto a mim, não é um mal proposital, eu não sugo voluntariamente, não é uma colheita”. Entretanto, ela suga os outros. Abelha, ela vai de flor em flor para se alimentar de suas vidas. “Eu me solto porque tenho medo de que a pessoa me deixe sob seu domínio. Então, dou um coice que…”

Mas não é só ela que ela pensa que pode se coaptar no outro, s’ambler no outro[8]. Vê também todos coaptados uns nos outros, no limite poderia ser sempre o mesmo, no outro (síndrome de Frégoli): “Uma vez, me aconteceu ver passar uma pessoa com um casaco de peles. Achei que era minha tia, era uma outra, pensei na minha tia.” Fenômeno que, às vezes, se produz em certos neuróticos, mas que nela assume um peso de certeza iterativa. Ela vê uma roupa passar e cai aí: não é identificação, mas unificação. O fenômeno pode ir bem longe no seu caráter confusional: “Lembro-me de que uma vez estava num salão de cabeleireiro, era muito engraçado, e meu trabalho consistia, num salão muito pequeno mas de alta classe, em pegar as roupas das mulheres, das pessoas, e colocá-las num cabide e dar-lhes um número. Eles pegavam o casaco de volta, eu o segurava para que o vestissem e era isso. Até logo, obrigado. E eu era incapaz de fazer um gesto, nem mesmo de guardar, ao menos por dois segundos, o número do vestiário. Ficava incomodada com os outros porque era num território muito pequeno. Pois bem, eu não sabia onde me colocar. Uma vez até mesmo distribuindo folhetos, no entanto parece estúpido ver essas pessoas que constantemente vinham a mim, pegavam a coisa, vinham a mim assim, eu tinha a impressão de girar em todos os sentidos, de… parece que não é nada, penso em todas essas pessoas que têm um trabalho público e aí assim, saber falar, ter contatos com as mãos ou de pessoa a pessoa, isso produz um pouco de… como é que se chama isso… sintomas no comportamento, mas eu tenho distúrbios de comportamento também. Eu manipulava os outros com as mãos também, eu não gostava muito das mãos… inconscientemente, eu faço”. O que então? “Sempre assim de longe, ou no metrô, vemos gente que rói as unhas. É uma coisa que tinha partido de mim. Mas o mais importante… não voltar às lembranças ou pessoas que me forçam a lembrar”. Não é lembrança, é coaptação. Ela parte e ela volta. Ela lida com superfícies. Tudo se apresenta como uma folha de madeira numa existência de compensado. As pessoas, as lembranças, é tudo assim.

Os sonhos continuam com o despertar e ela não tem vontade de sair deles. É isso a sua realidade, da qual Lacan diz que ela só é abordada com os aparelhos do gozo. Isso a impede de sair da cama, onde ela continua a devanear e, se ela sai, o sonho, no entanto (a não ser por um constrangimento), prossegue. A partir de então, “não há mais limites… Fiz isso, fiz aquilo, estive ali, então a vida é ditada, feita, artificial, sob comando”.

Sabemos agora que tipo de Outro é o seu; é apenas uma forma, uma pura forma, uma superfície bem fechada sem furo, com a qual ela só tem relação enquanto olhar, enquanto ela a olha. Mais exatamente, é essa forma que a olha, que a come com o olhar e que a engole, num gozo escópico. Desse Outro, ela não sabe nada, mas esse Outro também não sabe nada e ao engoli-la, se interverte nela. Quando ela o deixa, a menos que haja outra forma, um outro Outro, ela desaba, se deprime, “fica no luto”. “Também tenho vontades suicidas ao mesmo tempo quando se produzem esses…” O inconfessável aparece, a unificação. “Mas, ainda assim, eu desposo uma forma e faço o luto dela”. Quando deixa seu Outro, ela cai e deve se agarrar num Outro. Quando ela é o Outro, ela se prostra, desaparece, morta como sujeito. “Desposo uma forma”, diz ela. De seu marido, dirá: “Desposei a coisa”. À pergunta sobre o que ela quer mesmo dizer com “fico de luto”: “Então, tenho vontade de me suicidar… uma vontade de não aguentar mais a vida, o mundo, as pessoas, as coisas, de romper. Existe mesmo assim a vontade de se suicidar, sempre a tive, mesmo quando era mais jovem, quando era criança”. Notemos bem essa “vontade de não aguentar mais a vida”, na qual se indica seu sentimento de uma vida sem fim, sem limite espacial nem temporal, uma vida em que ela não pode verdadeiramente romper, soltar-se, a não ser caindo realmente depois do corte, como objeto a. Modo pelo qual ela indica, então, em estado de esboço, um dos elementos da síndrome de Cotard com seu sentimento de eternidade, de imortalidade. Ela não pode não aguentar mais a vida, ela não pode dizer: “Chega, basta”. Só pode ser uma vontade. O luto que ela carrega é o luto dessa vida. Ela vive uma vida em luto da vida. Mas é um luto interminável. Não é nem mesmo um luto. Seu ciclo recomeça perpetuamente. É apenas uma vontade de luto, pois ela confina com a melancolia. O que acontece quando ela está sozinha, sem Outro que a sugue? “Pouco a pouco, as pessoas que estavam embaixo avançavam sobre o meu terreno, ou queriam me fazer partir. Ficavam presentes demais para mim mesma”. Voz da zeladora, cujas dores da artrose ela pegou, e que a insulta: “Ah, Chantal fez isso, fez aquilo, abaixo Chantal, vamos pôr Chantal na rua, é uma preguiçosa, é uma imprestável, e além disso fica na cama o tempo todo…” Ela ouve “palavras vexatórias, ofensivas, humilhantes”. Em resumo, ou ela bascula no Outro com quem ela faz Um ou, sozinha, é o Outro que faz intrusão sob a forma de automatismo mental. Ou ela os vê e é engolida. Ou ela não os vê e é ouvida, escutada, espionada, comentada. Ou ela vê. Ou ela ouve suas vozes. Ela é engolida pelo olhar, ou ela é engolida pelas vozes.

Ela teme “cair no delírio”, “exteriorizar-se em psiquiatria, completamente”, quando justamente é ela que fica exterior a tudo. Fora do falo, fora do sexo, fora do sentido, o que ela teme igualmente: “é uma questão de afloramento e é uma armadilha”. Ela nos falou de seus problemas de mãos. “Manipulava os cabides com as mãos, eu não gostava muito das mãos”. E do que acontecia no salão de alta classe”. O perigo é também cutâneo. A mão, essa mão que penteia, que arruma os rostos, que pinta, que maquia, essa mão faz você entrar no Outro (“o que me atrai é a estética”). O outro engole você por afloramento do olhar, e seu olho é apenas uma mão com a qual ela se apalpa antes de se engolir, sua pele é apenas o invólucro misterioso que guarda o estranho desejo do Outro. Nessa vida sem experiência, na qual ela não aprende nada, na qual ela só está para ser pega – “não sei se é possível que um dia eu possa viver sozinha, ou viver com alguém, ou viver em comunidade” -, ela não tem lugar. Em comunidade, no hospital, ela se torna os outros. “Mas sei que o que me atrai é a estética”. É atraída pelo que a dissolve e só pode, em seu anseio de “sair fora”, reiterar aquilo mesmo do que padece: a aparência, o belo. “Será que sou bastante forte para poder dar isso que eu não soube que tenho? Só se adquire esse tipo de conhecimentos pela experiência, então isso pode durar muito tempo”. O que é que ela não soube desse “isso” que tinha, em relação ao qual ela precisava ser bastante forte para poder dá-lo? Ela se dá como pele, invólucro, roupa. É disso que ela tem que ela não pode mais se livrar, prescindir, ela não é “bastante forte” para controlar. Ela é até forte demais. É forte demais esse gozo. E se o amor é dar o que não se tem, ela – dando esse “isso” que ela tem – está dentro, por dentro do amor. “Eu lhe peço que recuse o que lhe ofereço porque não é isso”, dizia Lacan. Quanto a ela, “isso”, ela o dá. Ela dá sua alma, sua alma esférica. O amor, ela chega lá. Ela é o objeto a que reintegra o Outro, esse Outro que se apresentou como pura imagem e com o qual ela reconstitui i(a), a imagem que veste o objeto. Antes, esse Outro, pura imagem, e ela, puro objeto, estavam separados. A imagem e o objeto estavam disjuntos. Agora eles se encontram. Compreendemos então que “a armadilha é tornar-se dependente, completamente, dos outros”. Mas já é o caso. A armadilha denunciada é aquela em que ela está “encurralada”. Está “encurralada” por sersem curral. Ela erra. Não cristalizada, não focalizada, ela é apenas um cabide ou uma roupa. Ela é fictitious, para retomar o termo de Bentham. Exatamente como aqueles nos quais ela se interverte: seus cabides e roupas. Parece que apenas com o marido as coisas tiveram uma certa estabilidade. Tentaremos ver por quê. Sem consistência, não se pode diferenciar o que vem dela e o que vem dos outros, exceto num ponto: seus distúrbios de linguagem pertencem propriamente a ela. Poderíamos ler seus fragmentos notáveis, estudá-los; eles testemunham sua exterioridade, ela tenta transmitir sua experiência, mas o que se transmite por sua palavra é o saber da língua. Como Deus, que é incapaz, em sua exterioridade, de compreender algo dos homens dos quais ele só conhece a fachada, de avaliar a posição de alguém, ela é incapaz de dizer se é amada ou odiada, ela não sabe nada. Deus também não sabe nada. Mas seu saber, como o da sra. Útil, é bem útil; ele anda sozinho, é o saber autônomo da língua, que se revela quando castração e falo faltaram com o Nome-do-Pai. Sua “linguagem é uma elucubração do saber sobre lalangue“, diria Lacan. Ela se serve da linguagem como de uma roupa que não caísse bem. Ela fica desengonçada nela, presa, desconfortável, como se a roupa estivesse mal cortada. Nunca bem entrada na linguagem, é lalangue que a captura. Ela é esse círculo solitário cujo centro não está em lugar nenhum e a circunferência por toda parte. O espaço é estruturado como o inconsciente, isto é, como uma linguagem. Aliás, ela nos diz: “Há uma diferença entre o primeiro dia em que cheguei e agora, e estou enquadrada sem me dar conta…” Enquadramento? “É muito importante, não se joga as pessoas assim, com outras pessoas, sem estarem enquadradas”. Ela é um projétil lançado no quadro. De fora, se vê dentro; de dentro, se vê de fora.

O que acontece com sua relação com os homens? Ela “faz esforços, há anos, para suportar os homens”. Ela se “sentiu sempre junto das mulheres contra os homens”. Ela própria está no empuxo à mulher. Colocamos sempre a questão: nos homens, a psicose empuxa à mulher, mas e nas mulheres? Pois bem, é parecido, mas o empuxo é em direção À mulher não barrada: Virgem, Maria, Puta. “Fui criada por mulheres que tinham que se defender dos homens, e me dei conta de que eu desposei um pouco a causa delas”: ter sido criada por mulheres nunca impediu de se defender dos homens. Conheci mulheres que argumentavam só ter vivido com mulheres para nunca se defenderem dos homens. Será que ela desposou a causa das mulheres do mesmo modo que os transexuais estão do lado da “causa das mulheres”, querendo se livrar do falo, recusando-se a serem ditos fálicos, isto é, querendo serem ditos A Mulher? Eles sabem bem que são homens. Querendo serem ditos mulheres, é a “beleza” que eles querem, pois “as mulheres, é mais bonito”. Então, que causa a sra. Útil desposou, efetivamente? Veremos, pois seu marido é o único homem do qual ela pôde se aproximar (os outros eram apenas esses safados, amantes da mamãe, que ainda por cima a desejavam, a ela), esse marido que, por tanto tempo, sustentou uma psicose “gentilmente”. Conheceram-se aos treze anos, casaram-se aos 26. “Com ele tenho a impressão de estar num terreno que conheço”. Sempre suas questões de território, de invasão, de superfície… “Um terreno que não me é desconhecido, um terreno no qual posso existir, viver… há uma sensibilidade exacerbada entre nós dois, que faz com que ele tenha medo das mulheres – ele é um pouco afeminado”. Dirá mesmo que ele é um pouco homossexual. “E eu, no geral, tenho medo dos homens. E nós dois nos completamos… Depois, bem, eu desposei a coisa. É por isso que meu casamento teve muita importância para mim”. Eis a causa que ela desposou: a coisa, a ser entendida, sem dúvida, como o Seminário de Lacan sobre A ética[9] a retoma freudianamente: das Ding. Mas ela o desposou através de um quadro, uma tela e um filtro: o de um homem não exatamente semelhante que, assumindo o lugar de Heim, território conhecido, território Outro, a deixava em paz com seus desejos, de um homem cujo nome ela tomou. O que é que eles têm em comum? Vivem em duplo, ela sonha com um gozo complementar, quando está apenas no gozo suplementar; ela “sai” com ele, “vai ver coisas, filmes”. “Ele sempre esteve ali durante toda a minha vida”, sempre ali, como A Coisa. “É o único valor para mim que… representei quando me casei, ou o único valor que tinha para mim um homem. Ele é tudo. Constante, presente, meu marido nunca me deixou em meu espírito”. Habitada: “Ele se tornou meu marido, mas tornou-se a consagração, a maneira como realizei minha vida com ele, ele foi apenas a continuidade, não é casamento por interesse, não é casamento para eu me instalar, é um casamento de amor”. Em resumo, ela não se casou para se instalar, pois ela já tinha encontrado junto a ele sua casa de sempre, um homem, uma Coisa que sempre esteve ali, uma continuidade de presença, um homem que fazia um todo com ela. Observem que os psicóticos falam frequentemente disto, do contínuo que lhes cabe. É isso o casamento de amor. Isto é, sem amor nem ódio, um casamento com um homem sem ser, enquanto ela, ser, tem até demais. Sua alma ama a alma. É uma psicose passional sem paixão.

É isso que a move, ela que nada afirma, que “nunca pôde se afirmar”, ela que “não tem algo que possa realmente afirmar”, “a única coisa que me afirmou, foi o casamento”. Em suma, sua única Bejahung, sua única afirmação confirmativa, foi para a Coisa, mas no que se refere ao marido, para uma acoisa de completude relativamente pacificada. Por que isso? Evidentemente, ela terá algumas dificuldades com esse marido, fará eventualmente Um com ele, se prostrará quando ele tentar excessivamente supri-la, mas o equilíbrio persistirá até o dia em que sua mãe, que tem a profissão de separar, ou até de divorciar os outros, a levará ao divórcio, acusando o marido de torná-la doente. Com isso, Senhora Útil reencontrará acoisa, não temperada, mas devastadora, privada de seu quadro pacificador.

Seu marido “é um amor real, completo, porque crescemos juntos. Ele faz parte da minha vida… Não falo apenas dos valores do casamento, mas falo de toda a minha adolescência, que passei com ele. Não tinha pressa de me casar, esperava meu marido”. Ela o escolhera, desde pequena: “quando estava na escola, eu treinava a minha assinatura com seu nome“. Desde pequena, ela, que é fundamentalmente anônima, sem nome, sem identidade, encontrara uma nele e no seu nome. Instalou-se no seu nome, tornou-se ele, Útil, reduzindo-o ao seu valor útil, de uso, utilitário, mas sem valor de troca. Talvez não se tenha instalado, mas de qualquer forma ela fez uma operação útil tomando seu bem, sua coisa: minha assinatura com o seu nome. É isso que a mantém em equilíbrio e foi isso que sua mãe quis lhe tirar. É um esboço do Nome-do-Pai. Foi isso que lhe deu um semblant de amarração, um semblant de S(A): carregar o nome de um outro. Ela sabia tão bem disso que “ela elegeu e isso nunca deu problema”. Eleito como coisa, nome e lugar de acolhimento. Além do mais, sem conflitos, sem questões do lado do disfuncionamento do desejo, sem filhos e, ela própria, não tomada como objeto, causa do desejo. Ela absolutamente não ligava para isso.

Sempre se recusou a ser tomada como esse objeto chamado a por Lacan. Mas essa recusa se traduziu por sua queda no Outro. Ela se beneficiou, por seu casamento, no nome, de uma suplência do ponto de amarração, pois o nome próprio é um deles. S(A), dizia Lacan, quer dizer: isso não responde. Mas, para ela, isso responde. Ela está fora do sexo e isso lhe basta assim. Em resumo, é um caso único de conjúgio bem-sucedido. Se é exato que a mulher só encontra o homem na psicose, na única vez em que tinha chance de ser favorável à paz nos casais, sua mãe pôs tudo por terra. Quando ela tinha encontrado sua túnica no nome, ela a devolveu a seu único[10].

Então, seu casamento com o marido, seria Um (est-ce Un)? Teria ela se instalado em S1?[11] Nessa vida sem sociedade, sem laço social, em que ela toma a idade e a vida daquele com quem ela faz Um, patologia do imaginário sem eu, por que é o fato de ser mulher que a põe nessa patologia do Um? De qualquer forma, é justamente porque tudo começa com a mulher, mas, se ela não se torna não-toda, estirada, vesga entre falo e S(A), é então que, excluída do Outro, ela passará sua vida a solicitá-lo para reencontrar a fusão primordial, esse Um que suporta o Outro sem atingi-lo: esse Um, esse S1 esboçado (minha assinatura), que tenta alcançar o Outro (com seu nome) para extrair dele o saber que ele não sabe e que só responde por seu gozo. Nome e assinatura se invertem. Minha assinatura com seu nome; não é “em” seu nome. É assim que falaria quem está na ordem fálica, na ordem de um gozo por procuração, que faz obstáculo, cortina, amuro[12], ao Um. Quanto a ela, é “com” seu nome, nome de Deus, do qual ela própria é uma das faces ocultas. O único ponto cristalizável nessa mulher amorfa é o que aconteceu em torno do marido, da coisa e do nome; é uma indicação quanto à manobra terapêutica. Aí está, então, com relação à psicose passional sem paixão. A sra. Útil é calma, não é do tipo que ameaça seus amores.

Muitas vezes é mais difícil avaliar o que desencadeia a loucura numa mulher do que num homem, assim como o que pode desencadear numa mulher – fora da estrutura psicótica – um momento delirante, até francamente psicótico (conhecemos bem as dificuldades e a frequência com que esses estados se apresentam). Creio que é preciso procurar então em diversas direções: em particular do lado em que, privada de falo que também vale para Heim, privada de S1, ela é rejeitada brutalmente para o outro lado, S(A) que se põe a responder e, ao responder, se revela um lugar pleno, sem falta, em que ela só pode se inscrever como sra. Útil, até mesmo Fútil, como utilitária e utilizada (Henry Ey chamava isso de síndrome S.V.P., quando as vozes diziam Safada, Vaca, Puta[13]). Mas, a partir daí, produz-se a desamarração; passa-se de S(A) para A e isso começa a responder com as vozes alucinatórias. Enfim, consideremos que esse nome, Útil, certamente não é fortuito que ela o tenha escolhido tão cedo como seu nome próprio e sua assinatura, e o tenha escolhido como sinthoma. Quando seu divórcio foi pronunciado, quando ela perdeu o nome, eu o vejo voltar retornar de forma alucinatória: “Útil…, Útil…”, chamavam as vozes.

Em algum lugar, Lacan dizia: “Para nós, trata-se de obter o modelo da formalização matemática. A formalização não é nada além da substituição de um número qualquer de uns pelo que se chama a letra”. Pouco antes, ele formulara:

“Basta que uma (letra) não se mantenha, para que todas não só não constituam nada de válido para seu agenciamento, mas se dispersem. É nisso que o nó borromeano é a melhor metáfora do fato de que nós só possuímos o Um. O um engendra a ciência. Não no sentido da medida. Não é o que se mede na ciência, contrariamente ao que se crê, que é importante. O que distingue a ciência moderna da ciência antiga, que se funda na reciprocidade entre o νους e o mundo, entre o que pensa e o que é pensado, é justamente a função do Um. Do Um na medida em que ele só está ali para representar a solidão. O fato de que o Um não se enoda verdadeiramente com nada do que s’amble com o Outro sexual. Exatamente ao contrário da cadeia cujos Uns são todos feitos da mesma maneira, por não serem nada além do Um.”[14]

O que ocorre com a sra. Útil? O que ela nos ensina? Ela só sabe dizer que não, exceto a Фx. É algo que para ela nunca se escreveu. É o que não cessa de não se escrever para ela. A partir daí, ela não diz não a nada, isto é, ela é sem limites. Ela não tem ex-sistência na medida em que não se excetua, não tem ao-menos-um que diga não ao todo. Então, ela não pode contar. Só tem relação com o Outro enquanto esfericidade fechada, plena e fora do sexo. Por não poder dizer Um – ∃x – e não tendo negação, ela cai no real do Um.

Útil nos diz, já que o falo está fora do campo: só há Um. Não ‘Há Um’, mas só Um. Eis uma primeira abordagem da formalização da psicose em questão: para todo x, há Outro não barrado. Como não há Ф, não há S, não há a oculto. ∀x Фx: é isso a sua negação como foraclusão. Ela produz um todo em sua cegueira, ela não se excetuou. Ela é sem consistência, pois é sem S1. Ela é e só conhece A mulher (e é por isso que ela imputa a efeminação homossexual a seu marido). A mulher em relação, em ligação direta com o Outro. Os transexuais exigem que o Outro lhes diga – depois que eles tenham dito: já tenho tudo de uma verdadeira mulher – é isso mesmo, minha querida. A sra. Útil não pede para ser dita mulher. Ela é e só conhece A mulher, projetivamente, no Outro. Ela não se adiciona ao Outro; aliás ninguém se adiciona ao Outro. Ela se torna esse Outro, em que tudo se instala. Topologia e estrutura são aí idênticas. O que se escreve aí são as condições do gozo da sra. Útil, mas de muitas mulheres loucas. Gozo não sexual, mas Outro. Esse gozo no qual vêm bascular muitas mulheres neuróticas, desde que em um dado momento sejam rejeitadas do falo. Dizer que, rejeitada do falo, a mulher se torna louca não quer dizer que sempre ela se torne psicótica, mas bascula no acting-out, na passagem ao ato, em equivalentes psicóticos e, às vezes, num episódio delirante, francamente psicótico.

Não podendo se excetuar, não fazendo exceção a nada, ela é sem ao-menos-um, escrevíamos, e como é ∀x. Фx, que só há para ela para-tudo; ela é então sem necessidade e sem necessário, sem impossível e sem real, isto é, tudo se torna real. E ela não está nem mesmo na imaginarização desse real. Se o paranóico não quer contingência, para ela tudo é apenas contingência. Esse ∀x da sra. Útil é uma universal sem não-todo. É uma universal sem limite. Mas isso ela não pode dizer. Isso “se” diz sozinho, no colapso dos corpos. No limite, a sra. Útil diz não a Фx, mas ela o ignora, não por recusa, mas por foraclusão.

Se a ex-sistência só tira a sua consistência de sua semblância, para a sra. Útil não há semblant e, logo, não há consistência. Como para ela tudo é real, ela não conhece nenhum semblant, o que ela nos diz claramente, isto é, tudo é semblant, mas deve ser escrito igualmente s’amblant.

Não sendo em nada lado homem, mas toda lado Mulher, ela é mulher em estado puro. A mulher não barrada, fora do sexo. Ela está do lado da inexistência, no lugar do vazio. É uma fumaça, uma fictitious real. Sem sintomas, pois sem S1, não produz nenhum S2, nenhum saber, a não ser aquele no qual se enodam topologia e estrutura de lalangue. Ela indica bem que não há metalinguagem, uma linguagem sobre sua loucura; sua linguagem é aquela mesma do seu inconsciente completamente a céu aberto e ela não está em nenhum discurso.

Mulher livre, livre do encadeamento borromeano. O que ela chama desdobramento, dois [deux], deles[d’eux], é um colapso, porque o Um não lhe foi dado, então ela se torna Um. Na falta de traço unário, ela se torna um Um real, o que indica sua arrimagem protética na assinatura. O traço unário sendo aquilo com que se marca a repetição enquanto tal, Útil não está na repetição nem no traço unário, está no Um, distinto do traço unário. Ela não faz cadeia, não faz laço, ela é um círculo isolado. Ela é o Um originário do qual procedemos.

Lacan acrescentava:

“Quando eu disse Há Um… vocês vêem a que eu os introduzia… Como situar então a função do Outro? Como se, até certo ponto, fosse simplesmente nos nós do Um que se suporta o que resta de toda linguagem quando ela se escreve. Como introduzir uma diferença? Pois é claro que o Outro não se adiciona ao Um. O Outro apenas se diferencia dele. Se há alguma coisa pela qual ele participa do Um, não é por se adicionar. Pois o Outro… é o um-a-menos. É por isso que, em toda relação do homem com uma mulher – aquela que está em causa -, é sob o ângulo da Uma-a-menos que ela deve ser tomada. Eu lhes indiquei isso a propósito de Don Juan…” [15]

Dissemos que a sra. Útil era sem um-a-menos. Entretanto, ela experimenta essa aspiração para o outro. É desejo? Certamente não. É um deslizamento automático. Uma captura sem limites, na medida em que o desejo é ele próprio um limite e uma inibição, que eles se instalam no mesmo lugar. Sua angústia é a da plenitude e do todo.

Lacan prosseguia: “O que se escreve, em suma, o que seria? As condições do gozo”[16]. É o que tentamos mostrar. “O que conta, o que seria? Os resíduos do gozo”. O que conta, aos nossos olhos, para a sra. Útil, é que ela resta – in fine – como resíduo desse gozo Outro que a cativa, para depois rejeitá-la como peixe lançado na areia.

Pois esse a-sexuado, não é conjugá-lo com o que ela tem de mais-gozar, sendo o Outro – só podendo ser dita Outro – que a mulher oferece ao homem sob a espécie do objeto a? O homem crê criar… ele cria a mulher. Na realidade… ele a põe no trabalho… do Um. É bem nisso que esse Outro… na medida em que aí se inscreve a articulação da linguagem, isto é, a verdade, o Outro deve ser barrado, barrado pelo Um-a-menos. O S(A) quer dizer isso. É nisso que chegamos a introduzir a questão de fazer do Um algo que se mantenha, isto é, que se conte sem ser.”[17]

Mas Útil é um ser que não se conta. Dizer assim que o homem põe a mulher no trabalho do Um quando a toma como objeto a significa, muito cruamente, que ele a empurra para a loucura. Que é quase sempre por sua relação com um homem que uma mulher se torna louca. E é o que nos dizia a sra. Útil de sua relação com os homens, e é por isso que ela escolhera seu marido; ele ao menos não a punha demais no trabalho do Um, como também – através do a – ele não a tomava como Outro. O que Lacan ainda indica aqui é que, quanto menos ele a toma como Outro, menos ele a barra, menos ele exalta sua aspiração a ser a face feminina de Deus, menos ele a erotomaniza, por assim dizer, e mais ele faz dela alguém que se sustenta, isto é, que não se toma por uma entidade esférica. Isso faz compreender também por que é que se fala do platonismo tão frequente da erotomania; o interesse do homem a relança para o lado do Outro, na falta da vesguice fálica. Mas a erotomania feminina, às vezes, é neurótica, e até ao delírio.

Quanto à nossa paciente, por falta de um Um (S1) não podendo ser colocado ao trabalho sob pena de loucura (o falo como desencadeador, também como o objeto a: dois desencadeadores), ela não conta, mas faz retorno real a esse um-a-menos, sendo ela mesma esse Um encarnado; então ela está em um impasse. Não está no impasse desse “estrabismo”, essa duplicidade desorientada d’A mulher entre falo e S(A). Ela está no impasse da prisão no Outro como corpo real.

Sua mãe fazia como os homens; contava-os, tomava-os um por um, seu “enxame” é o “batalhão” de homens: “Minha mãe substituiu um que ela amava por um batalhão”. Havia sempre para ela um um-a-menos numa série enumerável, mas interminável, por efeito do Nome-do-Pai, precipitando-a no gozo fálico como limite imediato. Portanto, o falo como obstáculo. Quanto a ela, está num contínuo não enumerável pelo efeito de um Um real como limite imediato jogando-a no gozo Outro.

Ainda, é ela que se oferece sob forma de um-a-mais que “se subtrai” no Outro. Ilustração desta observação de Lacan: “Para voltar ao espaço, ele parece mesmo fazer parte do inconsciente, estruturado como uma linguagem”[20].

Continuemos: “Falei um pouco de amor. Mas o ponto pivô, a chave daquilo que avancei este ano, diz respeito àquilo que se refere ao saber, do qual enfatizei que o exercício só podia representar um gozo”.[21] Já observamos o que se refere à Sra Útil e à relação do seu saber com o gozo. Vamos amplificar, com ajuda de Lacan, esse ponto…

“o saber é um enigma. Esse enigma nos é presentificado pelo inconsciente… Ele se enuncia assim para o ser falante, o saber é o que se articula, chamo isso S2. É preciso saber escutá-lo – É mesmo deles que isso fala?[22] É geralmente enunciado que a linguagem serve para a comunicação. Comunicação a propósito de que, é preciso se perguntar, a propósito de quais eles?… A linguagem é apenas o que o discurso científico elabora para dar conta daquilo que chamo alíngua. Alíngua serve para algo completamente diferente da comunicação. Se a comunicação se aproxima daquilo que se exerce efetivamente no gozo de alíngua, é que ela implica, em outros termos, o diálogo. Mas alíngua serve primeiro ao diálogo?… nada é menos certo.”[23]

O que é certo é que, para Sra Útil, alíngua serve primeiro ao gozo do Outro; nele, ela se banha totalmente, sufoca-se, afoga-se. Ela goza de um saber sem dois (isto é, sem três), sem eles, e sua linguagem é apenas testemunho, relato da maneira pela qual alíngua a goza, a joga. A maneira pela qual ela é jogada pela alíngua. Alíngua não lhe serve para o diálogo.

Ainda:

“O diálogo, o diálogo clássico cujo mais belo exemplo é representado pelo legado platônico, demonstra-se não ser um diálogo. Se eu disse que a linguagem é aquilo como que o inconsciente é estruturado, é porque a linguagem, primeiro, não existe. A linguagem é aquilo que se tenta saber quanto à função de alíngua… O inconsciente é o testemunho de um saber porque ele escapa, em grande parte, ao ser falante. Esse ser dá oportunidade de perceber até onde vão os efeitos de alíngua por apresentar todo tipo de relações que permanecem enigmáticas. Esses afetos são o que resulta da presença de alíngua na medida em que, por saber, ela articula coisas que vão muito mais longe do que aquilo que o ser falante suporta saber enunciado. A linguagem, sem dúvida, é feita de alíngua. É uma elucubração do saber sobre alíngua. Mas o inconsciente é um saber, saber-fazer com alíngua. E o que se sabe fazer com alíngua supera em muito aquilo que se pode explicar a título de linguagem. Alíngua nos afeta, primeiro, por tudo o que ela conta como efeitos que são afetos. Se se pode dizer que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, é pelo fato de que os afetos de alíngua, já presentes como saber, vão bem além de tudo o que o ser que fala é suscetível de enunciar… Alíngua foi o que me permitiu, há pouco, fazer do meu S2 uma questão, e uma pergunta: é mesmo “deles” que se trata na linguagem?”[24]

Em alíngua, não há nenhum Outro, nenhum falo, nenhum objeto a. É apenas enquanto a inserção da fala na linguagem nela inscreve o Outro, o falo, o objeto a (pois é isso a inserção) que a brutalidade de alíngua vem amortecer-se, atenuar-se, mas às custas da não-relação sexual. Ali onde a inserção da fala na linguagem eclipsa o sujeito, produz o seu fading, em alíngua, nesse ponto, esse sujeito desaparece propriamente.

Quando Lacan interroga:

“O que é o corpo? É ou não é o saber do um? O saber do um se revela não vir do corpo. O saber do um… vinha do significante Um. O significante Um vem do fato de que o significante como tal nunca seja mais do que o-um-entre-outros, referido a esses outros, sendo apenas a diferença dos outros? A questão está tão pouco resolvida até o momento, que fiz todo o meu seminário do ano passado para enfatizar esse Há Um. O que quer dizer Há Um? Do um-entre-outros e trata-se de saber se é tal como seja, que se levanta S1, um enxame significante, um enxame murmurante.[25] Esse S1 de cada significante, se faço a pergunta é deles que falo?, escreverei primeiro sobre sua relação com S2. E vocês podem acrescentar tanto quanto quiserem. É o enxame de que falo S1(S1(S1(S1→S2))). O S1, o enxame, significante-mestre, é o que garante a unidade, a unidade da cópula do sujeito com o saber. É em alíngua, e não em outro lugar, enquanto ela é interrogada como linguagem, que se conclui a existência daquilo que uma lingüística primitiva designou com o termo de “elemento”, e isso não é por nada. O significante Um não é um significante qualquer. É a ordem significante na medida em que ele se instaura do envolvimento por onde toda a cadeia subsiste.”[26]

E Sra Útil é esse envolvimento que faz subsistir nela, virtualmente, toda a cadeia. Esse S1 de cada significante, “se faço a pergunta: é “deles” que falo?”, a resposta da Sra Útil é clara: não há S1, mas significantes quaisquer. E logo, não há S2, não há é deles?[27] Não há série para ela, a não ser significantes sempre os mesmos, quaisquer, intercambiáveis, que não contam, que não se contam. Então, todo significante se torna S1 no real, significante-mestre garantindo uma copulação direta com o saber de alíngua, seu gozo, e fora do sexual. É então o supereu, que diz goza!, que fala… “O Um encarnado na alíngua é algo que fica indeciso entre o fonema, a palavra, a frase, ou mesmo todo o pensamento, é aquilo de que se trata no que chamo de significante-mestre. É o significante Um e não é à toa que, no penúltimo dos nossos encontros, trouxe aqui, para ilustrá-lo, o pedaço de barbante, enquanto ele faz essa rodinha, da qual comecei a interrogar o nó possível com um outro”. Em todo caso, vê-se como, a partir de Lacan, pode-se identificar o supereu com um S1 real, isto é, identificar o supereu com o real do Um.

Nossa paciente é, ela própria, essa rodinha que não pode fazer nó com um outro; capturada realmente pelo Um de alíngua, ela se torna ele. Sem identificação, cai na unificação dos significantes, sejam eles homens, mulheres ou crianças. É uma psicose uniana. Fundamentalmente, alíngua a ama com um amor especial, o da alíngua pelo corpo que ela absorve.

Sra Útil não se engana; ela não imagina que o gozo do Outro tomado como corpo seria adequado. Ela evita o corpo a corpo. Ela sabe, de saída, que não há relação sexual, mas ela está em ligação direta com o gozo do Outro, pelo olhar, umbilicado no Outro como imagem. É sempre o seu próprio corpo que ela vê fora dela, é ela mesma, como Outro que ela vê vindo ao seu encontro e ao qual ela se junta numa copulação tão enigmática quanto louca, pois essa copulação nem por isso é relação dos corpos, relação sexual, é uma copulação que, como essa relação que não há, não cessa de não se escrever, é a relação do Um com o Outro, que entretanto não cessa de inscrever-se sem com isso deixar vestígios.

Retomemos. Quando Lacan formula: “nada força ninguém a gozar, exceto o supereu. O supereu é o imperativo do gozo. Goza! É o comando que parte de onde? É bem ali que se encontra o comando que o discurso analítico interroga”[28]. Na ocasião, para Sra Útil esse comando parte do Outro primordial. Ele é irredutível. É o Outro que a obriga a gozar nele mesmo, nesse Outro que é ela mesma. É um S1 real. Ela goza no real do Um.

Para ela, nada tem valor de troca e tudo se reduz ao uso: marido, profissionais de saúde, próximos, etc… De que uso? O uso do gozo. Esse gozo de uso mas sem utilidade, que nem mesmo alivia, bruto e obtuso, fechado e pleno, petrificado e imóvel, onde se manifesta em estado puro o instinto de morte com o qual nenhuma troca se mantém. Ela é a propriedade de um gozo do qual não tem o usufruto. Nesse ser de puro semblant, seu semblant não induz gozo no campo do Outro, não há S1 que organize o saber no lugar do Outro: sendo esse S1 real, semblant e gozo se colabam. É isso o supereu primordial que diz: goza!

“O gozo é marcado, por um lado, por esse furo que não o garante por outra via a não ser a do gozo fálico. Será que, do outro lado, algo não pode se atingir que nos diga agora, é apenas falha, abertura no gozo, seria realizado? (…) Ponto que cobre a impossibilidade da relação sexual como tal. O gozo enquanto sexual é fálico, isto é, não se relaciona com o Outro como tal.”[29]

É isso o que mostra Sra Útil: seu gozo, que não é sexual, que não é fálico, só se relaciona com o Outro como tal. Esse Outro, é apenas uma roupa, é uma roupa que a ama, não como a periquita de Picasso, mas como “habeille”[30] e que a suga. É isso que ela ama e “quando se ama, não se trata de sexo”[31]. Útil só tem relação com o significante em estado puro S1. Ela, que ama com amor o seu marido, é na verdade a única a fazer Um, isto é, a única que aquilo que ela chama de amor, ou seja, gozo Outro, faz sair dela mesma, mas para reencontrar o Outro na chegada. Vimos Sra Útil nada ocupada com o seu homem, nem com os seus, mas toda ocupada com o Outro no sentido literal, o Outro porque é disso que ela trata. Reintegrar esse lugar que lhe faltou.

Se Lacan insistia tanto para que a linguagem fosse abordada em sua gramática, caso em que ela depende de uma topologia, se, em O saber do psicanalista, dizia querer propor algo que se liga à origem puramente topológica da linguagem, origem ligada à sexualidade, foi exatamente o que tentamos mostrar nesse caso. Se Sra Útil está fora do sentido, é porque ali se demonstra que sua vida só tem sentido matemático. Isso tem a ver com o número, nas superfícies. São eles que tramam alíngua. E isso é tudo. Somos apenas os seus fantoches. Ela dizia “minha vida é a pedido”. Fantoches inaptos para a sobrevivência, aliás. A menos que haja a castração, e ainda assim… pois o gozo do sujeito está, qualquer que seja o caso, a serviço de Thanatos e de S1, real. É isso a sobredeterminação última.

Tentamos pegar essa paciente pelo lado de uma mulher sem estrabismo, pelo lado de uma mulher toda. Isso apenas esclarece a não-toda, mas não a explicita. Indica, entretanto, uma parte do que, nela, está em jogo. Como ela se orienta nisso? Sem dúvida ela não se orienta. Então, ela se entrega a Deus. É ela que diz: só Deus sabe, e ela o ajuda, para saber. O que a faz face feminina de Deus.

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* Trabalho apresentado no Seminário de Verão da Association freudienne internationale sobre o seminário Encore (Mais, ainda), de Lacan, em 1º de setembro de 1988, em Bruxelas, Bélgica.
[1]N.E. – Jogo de palavras entre semblant e amble: passo em que o cavalo levanta ao mesmo tempo as duas patas do mesmo lado.
[2]LACAN, J. O seminário, livro 20 – Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
[3]N.T. – Asphère, no original.
[4]N.T. – Jogo de palavras entre tunique (túnica) e unique (única), prejudicado na tradução pelo fato de que, em português, o substantivo gozo é masculino, enquanto o francês jouissance é feminino.
[5]N.E. – au pair: trabalho em casa de família em troca de hospedagem e alimentação. Observar a homofonia entre pair (par) e père (pai).
[6]N.T. – Em francês, “enxame” (essaim) faz homofonia com S1.
[7]N.T. – Alusão a uma canção infantil francesa que fala de marionetes: Ainsi font les petites marionettes, trois petits tours e puis s’en vont (“assim fazem as marionetes, três voltinhas e aí vão embora”).
[8]N.T. – s’ambler, ver nota 1.
[9] LACAN. J. O seminário, livro 7 – A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988
[10]N.T. – Tunique/unique: ver nota 4..
[11]N.T. – No original: “… ce mariage avec le mari, en est-ce Un? S’est-elle logée dans S1?”. A parte grifada em itálico – est-ce Un – faz homofonia com S1.
[12]N.T. – Amur, no original, jogando com amour (amor) e mur (muro). Jogo de palavras feito por Lacan no Seminário Mais, ainda (Op. cit.).
[13]N.T. – Em francês, Salope, Vache, Putain.
[14]LACAN, J. O Seminário, livro 20 – Mais, Ainda. Op. cit., p. 174.
[15]Ibid, p. 174-5.
[16]Ibid, p. 177.
[17]Ibid, p. 177-8.
[18]Ibid, p. 118.
[19]Ibid, p. 118.
[20]Ibid p. 122.
[21]Ibid p. 125.
[22]N.T. – No original, S2, mencionado antes, faz homofonia com “est-ce deux” (é deles?), que aparece na frase: “est-ce bien d’eux que ça parle?”
[23]Ibid, pp. 125-126.
[24]Ibid, p. 126.
[25]N.T. – cf. nota 8, p. 96: homofonia de essaim (enxame) com S1.
[26]Ibid, pp. 130-131.
[27]N.T. – cf. nota 22, p. 115: homofonia entre S2 e “est-ce d’eux?”
[28]Ibid, p. 10.
[29]Ibid, p. 15.
[30]N.T. – Jogo de palavras entre abeille (abelha) e habiller (vestir, trajar).
[31]Ibid, p. 27.

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