Um psicanalista seria progressista?

Charles Melman

 

O respeito pelas tradições é a regra das sociedades constituídas. Arcaicas ou refinadas, limitadas ou então poderosas como a chinesa, a japonesa até a era Meiji, a muçulmana ainda hoje, elas ignoram a noção de progresso ou a recusam. Este fato ilustra a prevalência do carácter cíclico do pensamento, cujo giro em círculos cuida de garantir o retorno ao idêntico, ao mesmo. Concordamos facilmente que esta delimitação parece a condição para a estabilidade do poder e a permanência do sexo, a homenagem prestada aos ancestrais. Em que condições o Ocidente pôde se engajar e suportar uma ruptura?

Admite-se que o desenvolvimento das técnicas de produção, ele próprio ligado ao da ciência, foi a fonte do capitalismo.

Sobre as ruínas do feudalismo, adversários e partidários do novo sistema foram igualmente, fato marcante, os cavaleiros do “progresso”, que se tornou o álibi ou a esperança das penosas transformações mentais e sociais sofridas: mas que se tornou igualmente o argumento de um pensamento cíclico animado pelo projeto de um retorno à idade do ouro, de uma restauração da humanidade em seus privilégios anteriores à maldição divina.

Tradição ou progresso, o objeto visado por suas vertigens seria, no entanto, o mesmo? Certamente ele é o mesmo se admitimos que a exigência de ambos é a sustentação do gozo. E ela nutre a resistência à mudança, no temor de que ela poderia aboli-lo ou travesti-lo, ao preço de uma despersonalização coletiva. Mas ele é também diferente a partir do momento que o “progresso” se justifica por prometer um mais-gozar, um retorno aos jardins do Éden, antes que as palavras se tornassem enganadoras e o trabalho fosse necessário para a subsistência.

O triunfo do progresso marca assim nossa época. Os partidários da tradição são regularmente levados a bater em retirada diante do sucesso em salvas da ciência e das reviravoltas éticas que ela induz; como se aquilo que subitamente se tornou possível parecesse agora obrigatório.

As ilhas de resistência, religiosas ou nacionalistas, podem certamente se manifestar aqui ou ali, mas seu integrismo (idêntico no seu fundamento àquele dos cientistas, mas desconsiderado por ser privado de uma vocação universal) sofre de um léxico arcaico. Malgrado sua coerência, os julgamentos ou interditos da Igreja são pouco escutados. As guerras locais, por mais dolorosas que sejam, são combates de retaguarda, nos quais as duas partes são perdedoras, pois estão descoladas da competição econômica internacional.

A ciência piloto se tornou a biologia, que anuncia a mestria perfeita sobre o corpo, já quase realizada para o sexo e a fecundação. Pela primeira vez em seu percurso, o homem não tem mais que remeter sua perpetuação ao capricho de uma força à qual, divina ou não, era necessário oferecer sacrifícios. Resulta daí, entre outros efeitos, uma dessacralização das relações com o poder (político, professoral ou mesmo religioso…) junto com uma transformação inédita da economia da troca. A gratuidade da produção do equipamento poderia assim tornar-se uma figura banal do convite a participar, favorecendo uma postura social paranoica. A família renuncia a um exercício simbólico da autoridade em prol de uma codificação jurídica próxima dos papeis: pai e mãe serão um dia os funcionários retribuídos pelo dever de cuidar, assistir e vigiar. O hedonismo prima enfim sobre as obrigações às quais convidam a linguagem, a memória, a história, a identidade sexual, a preservação do corpo, as participações familiares e sociais. Resulta daí um estilo que não é essencialmente moderno, pois remete a uma figura cuja garantia, por se autorizar na ciência, poderia dispensar provas, a do libertino. A novidade é que ele agora participa de uma libertinagem de massa.

Um psicanalista é parte envolvida numa evolução cultural da qual ele percebe mal o que ela deve ao sucesso da sua própria teoria. Pode-se ainda falar de mal-estar na cultura, quando Freud foi suficientemente escutado para que ela suspendesse toda repressão sexual? A liquidação da transferência, da qual ele fazia um signo do fim do tratamento, é hoje em dia um must geral; quem ainda dá crédito ao saber, se ele não se faz absolver por aplicações técnicas? Édipo hoje está bem morto, mas é por falta de poder encontrar um pai com o qual ele se chocaria.

O próprio processo do recalque traz problema quando a nova liberdade de expressão autoriza a articulação direta das fantasias libidinais ou agressivas. O que seria de um inconsciente cujos elementos não teriam mais um sentido sexual, a partir do momento em que sua produção se originaria no jogo puramente mecânico de uma linguagem que, aliás, não se recusaria nada? Nenhum retorno do recalcado então, pois não haveria mais recalcado. Nem, tampouco, sujeito da fantasia, a não ser tomando-o emprestado, de uma forma histérica, àqueles que são realmente privados.

A recusa de qualquer parceiro terceiro regulador entrega a troca dual às habilidades de uma competição e de uma agressividade que não tem outro limite senão jurídico.

E sobretudo o sexo deixa de ser o enquadre universal significado pelo jogo do significante, em benefício de gozos orificiais e narcísicos, técnica, industrial e comercialmente muito mais fáceis e interessantes de se satisfazerem.

No sexo havia um fora-do-comércio, um bem do qual eu tenho o usufruto e que não poderei colocar no mercado, que se acha enfim posto na vitrine.

Equivale a dizer que o tempo dos psicanalistas estaria contado?

Alguns deles defendem um retorno da ordem patriarcal, alegando sua oportunidade para o acesso a uma norma. Sua oposição às medidas legais liberais do governo, porque elas contribuem para a degradação da função paterna, os leva a serem considerados “reacionários”. Um testemunho disso foi um virulento artigo ocupando uma página inteira no “Monde”, pregando na cruz do “progresso” significantes introduzidos por Lacan, como os Nomes-do-Pai. Seu autor manifestamente não compreendeu que esses significantes não servem para celebrar a missa, mas para discutir os efeitos de prescindir dela. (cf. o seminário O Sinthome, anos 1975-1976). Ultrapassar “os limites judaizantes” do pensamento de Freud interrogando o fato de saber se a castração é necessária ou contingente, eis um aspecto do “progresso” pretendido por Lacan. Mas a rabugice do autor tranquiliza, mostrando, à sua revelia, que a psicanálise é sempre chave de legibilidade quando Lacan parece ser o último “pai” que se sustenta e portanto bom para ser pregado.

Outros psicanalistas acolhem com simpatia a liberalização em curso, dentro da tradição já antiga de Ferenczi ou Reich, e tomam partido pelo direito de cada um a assumir publicamente seu gozo. Não é também seguir Freud quando ele denuncia a covardia que há em não reconhecer seus votos, ou Lacan quando ele incita em sua Ética da psicanálise a “não ceder do seu desejo”?

Como seu nome sinaliza suficientemente, La célibataire não partilha inteiramente destes pontos de vista. Seu estado civil já indica que ela não se preocupa em se perfilar sob o estandarte paterno; mas que ela não pretende tampouco celebrar o culto do objeto. Digamos que, por não ser devota, ela não pratica o culto do bezerro…

Foi preciso a adivinhação dos pré-socráticos para estabelecer o papel determinante do logos no destino do animal humano. Se é ele que agencia para nós o sintoma – para Lacan, falta de relação sexual; o fato de que um homem e uma mulher não conseguem se encontrar, comentaremos nós -, talvez fosse um progresso – pelo menos local – deslocar seu efeito. É nisso que Lacan trabalhava antes de entregar o jogo. Seremos os únicos a retomá-lo?

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Método de tratamento, a psicanálise se inscreve na ideologia que quer que o conhecimento dos fenômenos prometa a mestria sobre eles. Não se pode dizer, entretanto, que ela constitua um progresso na medida em que ela deve sua emergência à “poluição” cultural, à promoção do mais-gozar própria ao desenvolvimento do capitalismo. Como ele não pertence a uma classe lógica, “o” psicanalista no entanto não pode ser interrogado sobre a questão; mas, como aqui, “um” psicanalista pode ser levado a se pronunciar.

Artigo Publicado na revista La célibataire, nº 3, inverno de 1999-2000.

Tradução: Pedro Duarte Silveira

Revisão: Sergio Rezende

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