Um seguro de vida

Charles Melman

Eu certamente aprecio a vida de grupo dos psicanalistas, pois vai fazer 60 anos que eu a saboreio. Temos a felicidade de ver se exaltar aí a grosso modo o conjunto das paixões próprias à nossa espécie, exceto aquelas que qualificaríamos de “nobres” se o qualificativo designa o que é suscitado pela dependência em relação a “valores”. Como se a grande revelação da cura, que o Outro não existe, liberasse as energias privadas quaisquer que elas fossem, mas sem mais nenhuma reserva nem vergonha, assim como no perverso.

Eu vi, assim, em tela panorâmica e a cores, como Lacan foi tratado por aqueles mesmo que tinham recebido dele o fôlego que lhes permitia insultá-lo, cuspir-lhe na cara, vendê-lo, enfiar-lhe uma faca nas costas, caluniá-lo, paro por aqui porque sou gentil.

Mas o que é que ele veiculava então para merecer tal acolhida, o que é que ele tinha de tão perturbador? Ele próprio recebia isso tudo, e qualquer que tenha sido seu sofrimento, com um estoicismo decidido a se servir dessas forças mesmo – pois, Senhor, elas estavam ali – a fim de fazer valer o quê? Que elas não resolviam o problema. Ele considerava, certamente, que, por causa de seu papai colaboracionista, o pessoal com quem ele lidava não era de boa qualidade. Mas foi diferente para Freud com a pequena burguesia austro-húngara?

Para o modesto seguidor que eu sou, a temperança, em geral, esteve sempre presente, talvez por causa, na medida, dessa própria modéstia.

Mas eis que, com a idade, surge um convidado de monta, que se chama a morte. E vemos canteiros se abrirem para preparar os loteamentos do futuro, sem levar em conta o sentido colegiado do trabalho até aqui partilhado.

Uma confissão: A arquitetura de pavilhões me desola em geral, me dá raiva quando concerne particularmente à psicanálise, pois significa então que ela fracassou em fazer valer a universalidade e a confina a ser um bazar, prometido a ser rapidamente abandonado.

O que é então que está em jogo? A seguir…

Tradução: Sergio Rezende

Texto original: http://freud-lacan.com/index.php/fr/92-editorial-de-charles-melman/5492-une-assurance-vie

Print Friendly, PDF & Email